segunda-feira, 8 de setembro de 2008

O MEU BAIRRO DAS FURNAS - I

(A minha casa)
Em Dezembro de 1945, no Bairro Social da Quinta Boavista, na Freguesia de Benfica, nasce um indivíduo do sexo masculino, a quem deram o nome de Raul Ferreira Pica Sinos.

Dois anos mais tarde, com o meu pai de nome Adriano, (funcionário da Câmara Municipal de Lisboa, com a profissão Cantoneiro) e demais família (mãe, irmã e cunhado), passei a residir, no Bairro Social da Quinta das Furnas, na Freguesia de São Domingos de Benfica, situado entre o Parque Florestal de Monsanto e o Jardim Zoológico, numa casa tipo três, no nº 14, da Rua dos Plátanos, e aí permanecendo (salvo o intervalo de 2 anos na guerra colonial) até à idade de 23 anos, idade com que casei.

Então, a morar no Calhariz de Benfica, frequentemente voltava às origens para visitava minha mãe a D. Georgina. E quando em Corroios/Seixal, passou a ser diária de manhã e á noite, tendo em conta que durante o dia, a minha mãe cuidou da sua neta Sofia, na idade escolar, e até concluir a instrução primária obviamente no bairro.

Este meu bairro inaugurado em Maio de 1946, responde com a sua edificação de cariz provisória ao programa no âmbito das “casas desmontáveis”, desenvolvido pelo município de Lisboa, na plena ascensão do Estado Novo. Está associado à filosofia da Lei da Casas Económicas de 1933 e, é concluído no início da década de 1950, com 280 fogos alojando cerca de 1.500 pessoas.

A construção deste e outros bairros de semblante social, visava responder, por um lado, à politica do ditador Salazar, para com habitação operária, problema que se arrastava desde finais do séc. XIX, e acudir à mísera situação dos habitantes dos bairros de lata que proliferavam pela cidade. Por outro lado, ao realojamento dos funcionários da edilidade que viviam em barracas e dos cidadãos despejados administrativamente por causa dos novos empreendimentos públicos.

A construção das casas do meu Bairro das Furnas, foi feita, no exterior com chapas de lusalite, sendo no interior forradas por uma pequena espessura de tabique (gesso). Os fogos eram de diversos tipos – T1, T2, T3 e T4 – procurando responder ao numero do aglomerado familiar. Havia luz eléctrica e água canalizada, casa de banho com lavatório, chuveiro e pia. Na sala da entrada, tinha junto um poial com “chaminé” a quem chamávamos de “cozinha”.

A renda da minha casa – T3 - tinha um custo mensal de 110$00, incluindo os gastos com a água e a electricidade cujo horário era o da iluminação pública. Tinha pela frente um pequeno quintal.


Era extremamente injusta a fama de “reputação duvidosa”, que a população mal esclarecida de Lisboa catalogava os habitantes do meu bairro. As pessoas com quem eu cresci, eram humildes, honradas e trabalhadoras. Viviam com estremas dificuldades, a fome batia a muitas portas, mas o que era dos outros, não era seu. Paradigma disso, as peças de roupa do laboratório de análises clínicas que a minha mãe lavava e estendia no lavadouro e estendal comunitário, pois, podiam estar dias a fio a secar que nem uma peça faltava. Pobres certamente, mas as suas portas não estavam trancadas nem fechadas à chave. O respeito pelo próximo era muito.


Bibliografia: Informação dispersa da CML, Fotos do livro “O Nosso Bairro” (Maria de Lurdes Pais Gomes), Editado pela Associação de Moradores Do Bairro das Furnas



quarta-feira, 3 de setembro de 2008

O TRABALHO (III)

Na primavera do ano de 1961, todas as instalações, da Robbilac Portuguesa, existentes na Rua Nova do Carvalho, foram transferidas para o Conde Redondo, mais propriamente para a Rua Luciano Cordeiro. Creio que tal mudança deveu-se a razões de espaço físico, para lançamento e afirmação de novos produtos, desenvolvimento dos recursos humanos e das vendas.

Com 14 anos, este era agora o meu local de trabalho. Aqui, foram-me destinadas novas responsabilidades, que consistiam em percorrer, praticamente a pé, as freguesias da cidade de Lisboa (divididas com um colega de nome João Sequeira), a fim de detectar e recolher informações, junto dos empreiteiros com prédios ou andares em construção ou remodelação. Todas as obras (pequenas ou grandes) tinham que ser obrigatóriamente balizadas, no exterior com madeira, de forma a estar denunciada a empreitada, e disso, dava conhecimento aos vendedores no final do dia.

Quando a Câmara Municipal autorizou a consulta das licenças de obra, nos respectivos serviços do licenciamento, o meu trabalho no exterior acabou. Passei a ser responsável, por registar e debitar as encomendas, recebidas por telefone, do sector retalhista (drogarias), e ainda pelas existências e reposição das amostras (latas de 1/8 ou ¼ de litro) das diversas especialidades de tintas.

Dois anos depois, no meu bairro, lembro-me que “afinava” com alguns miúdos, porque ao cruzarem-se comigo, gozavam, cantando o anúncio que passava vezes sem conta na rádio…
E agora? Agora, bate chapas e tintas Robbilac…
Ou ainda…
Pinta, pinta, pinta com a tinta Robbiallac
Que é a tinta que mais pinta, que mais dura.
Quem não pinta com a tinta Robbiallac
Pinta, pinta para borrar sempre a pintura…

Estes anúncios estavam ligados à estratégia da propaganda da empresa. O refrão era cantado por Maria Pereira, fadista, contratada em exclusivo.

Maria Pereira também actuou nas principais cidades do país, em dezenas de espectáculos graciosos, para clientes ou potenciais clientes. Esta artista (que era a mulher de um dos Administradores), era também conhecida pelas suas actuações prolongadas. Em cada espectáculo nunca cantava menos de 30 ou 40 fados. Por isso, tornou-se costume ouvir-se, no meio fadista, daqueles que “abusavam” nas suas interpretações… Eh pá, estás armado em Maria Pereira…?

Recordo uma brincadeira motivada pelo meu deslumbramento espacial, e pelo sucesso do astronauta russo Yuri Gagarine…o primeiro homem no espaço numa órbita em torno da terra de 40 mil quilómetros, feita em 108 minutos.

Na época, fortemente entusiasmado pela corrida espacial entre os russos e americanos no objectivo de colocar o primeiro homem na lua, (feito que veio a acontecer pelos americanos no ano de 1969), chamo o meu colega, João Sequeira, e convido-o para fazermos um “foguetão”. A base espacial e rampa de lançamento seria na “casa das amostras”, dependência situada no mesmo andar onde trabalhávamos, ideia que teve a sua concordância.

O “foguetão” era nem mais nem menos, uma carga da esferográfica parker carregada com cabeças de fósforos, bem atacadas, colocadas em cima de uma pequena rampa, elevada a cerca de 30 graus e feita em madeira.

Mais à frente da rampa, a cinco metros de distância, um alvo pintado a preto. O feito era conseguir, com a explosão, que a cabeça da esferográfica, que segurava o “rolon”, fosse projectada contra o alvo, furando-o bem ao centro.

O dia do lançamento tinha que ser feito, numa altura em que a secção estivesse vazia de vendedores e o respectivo chefe (Dr. João Abel) ausente. Conseguida a oportunidade, deitamos mãos à “obra”, besuntámos a carga da esferográfica com verniz celuloso… e “fogo nele”.

Que desilusão, a única coisa conseguida, foi o susto às funcionárias administrativas (a Gaito e a Margarida) pelo estalar da detonação. Bem insistiram no…”que aconteceu?”...Por vergonha, nunca lhes contamos o nosso insucesso.

Já mais “espigado”, as brincadeiras com os colegas passaram a ser futebolísticas, aos sábados de tarde ou domingos de manhã, no Estádio Nacional, em Paços D’Arcos, ou no campo do Palmense, em Palma. Em horário pós laboral, no Ginásio Clube Português, na luta Greco-Romana, e já com 19 anos, no Estádio do Campo Grande, no rugby pelo Benfica.

Um ano depois ingresso nas fileiras militares, sou mobilizado para a guerra colonial na Guiné-Bissau, reocupando o meu lugar no emprego, dois anos depois, em Março de 1969.

domingo, 31 de agosto de 2008

O TRABALHO (II)

Em meados do ano de 1958, com 12 anos de idade, por “cunha”, entro para o quadro do pessoal efectivo da Robbialac Portuguesa, cujas instalações estavam situadas na Rua Nova do Carvalho, ao Cais de Sodré/São Paulo, em Lisboa.

A secção das vendas era no primeiro andar (hoje devoluto) do nº 11, assim como as restantes secções administrativas e de Direcção/Administração. Os armazéns, dois, estavam situados na mesma rua, um no nº 23 e o outro no nº 32.

Para além destes departamentos, no primeiro quarteirão da rua, também havia, antes e depois do arco, (que sustenta a Rua do Alecrim, mandado construir por Marquês de Pombal após terramoto de 1755), diversos bares de alterne (Texas, Filadélfia, entre outros), uma oficina de serralharia, que curiosamente tinha um cocheiro à porta (chamado Simões), que alugava carroças para transporte de mercadorias, um estabelecimento de vendas de acessórios para pesca (já fechado), para além de três ou quatro tascas.
Era na tasca (hoje restaurante) do nº 36 desta rua, que todos os dias almoçava, os “petiscos” feitos pela D. Georgina dos Santos, minha mãe. Aqui, para quem ocupasse as mesas, (não encomendando a comida ao tasqueiro), era obrigatório fazer despesa; no mínimo, meio litro de vinho. Os operários que me faziam companhia na mesa, estavam sempre “com o olho” no vinho que me sobrava, pois não bebia mais que um copito, vulgo de “2” (200 ml), o restante oferecia-lhes.
Para lá deste quarteirão também existiam outros estabelecimentos, sobretudo de vendas de confecção da empresa Rodrigues & Rodrigues. Creio que esta firma já não existe, mas o arco e os bares sim, na maior parte de diversão nocturna.

O meu trabalho era muito “duro”. Consistia em carregar latas de tinta, dos mais variados tamanhos e pesos, dos armazéns para o primeiro andar. Por vezes lá vinham umas gorjetas, quando as entregas dos produtos comprados eram feitas nos carros dos clientes, dando para pagar um ou outro maço de cigarros (para consumo semanal), com 10 unidades e de marca “Três Vintes”, e ainda para as “bicas” que tomava após os almoços, num dos bares de alterne, mas sempre acompanhado por colegas de trabalho mais velhos, e desde que não houvessem marinheiros dos barcos estrangeiros estacionados no Tejo…, caso contrário estava-me vedada a entrada.

Carregavam também as mercadorias, mais três camaradas: O Francisco, o Salgado e o Júlio. O Júlio Gomes era “doido” por toiros (mais tarde toureiro de renome internacional), fazendo sempre quando podia, (no armazém do nº 23, nas horas do descanso para o almoço) treino com o capote e muleta, que se desviava, elegantemente, dos cornos de uma vaca,(que um de nós pegava), quando investidos na sua direcção, sendo sempre animado, por fortes aplausos, pelos colegas trabalhadores de armazém, com destaque para o Sr. (s) Leite e Rio, chefe e subchefe do entreposto, que eram ferrenhos aficionados pela arte do toureio.

Como recordo, também, muitas outras brincadeiras, como foi o caso da gritaria e correria das mulheres das secções do cálculo e da contabilidade, por causa de uma ratazana, a quem o Fernando prendeu à cauda uma lata de um quarto de tinta vazia, com a inscrição de…“mais uma entrega Robbialac”… slogan à época muito em voga e inscrito nas viaturas da distribuição.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

O TRABALHO (I)

No passado, o conceito do trabalho, na generalidade das famílias, era muito diferente do de hoje. As dificuldades da vida obrigavam a que os jovens, sobretudo das famílias mais humildes, fossem trabalhadores por conta doutrem muito cedo.

No meu caso ainda não tinha acabado a instrução primária, já os meus pais tinham feito compromissos para o meu emprego com um latoeiro/funileiro.Este primeiro estabelecimento para onde fui trabalhar, o do Sr. António Nabais, estava situado na Estrada de Benfica, junto à Cruz da Pedra, e consistindo o meu serviço, como aprendiz de funileiro, entre recados, actuar com um engenho, parecido ao picador de carne manual, mas em tamanho “Big Doble”, que permitia fazer cortes redondos em chapas zincadas, folhas de Flandres ou de alumínio, para substituição dos fundos das panelas, tachos, regadores, baldes, etc. que os fregueses entregavam para substituir. Mudados os carretos da máquina, permitia ainda fazer as dobras, engatar e comprimir as mesmas, ficando os utensílios prontos a serem de novo utilizados.

Foi de pouca duração a prestação do meu trabalho nesta oficina de latoaria, porque, passados três ou quatro meses, detectei que o Sr. Nabais, para testar a minha honorabilidade, colocou no chão, uma nota de 20 escudos, simulando que a tinha deixado cair inadvertidamente, situação que me chocou grandemente.

Quando a situação se repetiu em outra ocasião, nessa mesma tarde, já não fui trabalhar, não antes de minha mãe se importunar com o Sr. Nabais e de lhe dizer que o meu filho era de família pobre, mas sabia, tal como a sua família, respeitar e honrar o nome dos Pica Sinos.

A minha segunda ocupação foi na oficina do Sr. Américo Santos, também na Cruz da Pedra, que construía, através de moldes, trabalhos em torno mecânico, fundamentalmente salvas, baixelas, taças e outras peças decorativas e, cromadas posteriormente. Arear/polir estas peças, era o meu trabalho. Artefactos feitos em chapa de latão e cobre, cromados por processo de imersão de banhos electrólitos, num tanque existente no quintal. O meu salário era 7$50 por semana (em euros cerca de 3.5 cêntimos).

Recordo uma vez, que fui a Campolide buscar umas calças ao alfaiate do Sr. Américo Santos. Quando no balcão, aparece um indivíduo que me pareceu um “miúdo” a quem logo digo…"chama lá o teu patrão"….Este, responde com voz grossa…"Diz lá o que queres"…Até estremeci! Era um anão. Fiquei tão encavacado que me esqueci de pagar ao homem. Sabia o que era um anão mas nunca tinha visto um assim de perto.


Foto: No Bº das Furnas, na rua onde morava, eu e a minha mãe depois de um dia
de trabalho na oficina do Sr. Américo Santos

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

OS OVOS DAS CÓCÓS...UMA DELICIA QUANDO FRITOS

Embora natural da freguesia de Benfica, toda a minha infância e adolescência, foi passada na freguesia de São Domingos de Benfica, tendo, por perto o Jardim Zoológico de Lisboa, onde, sobretudo nas tardes dos Domingos, era palco no parque infantil, a organização de muitas brincadeiras destinadas aos miúdos em idade escolar.

Recordo que das muitas diversões que os animadores culturais faziam (apanha da bolacha em altura, salto em altura, corrida de fundo aos 50 metros, entre outras) havia uma, onde dificilmente os outros miúdos me ganhavam. Eram as das corridas aos pulos quando enfiado num saco de batatas, cujo prémio, pela participação, dava direito a uma entrada grátis no domingo seguinte. Certa vez, uma dessas corridas foi tão garridamente disputada, que não me apercebendo da corda que ladeava o perímetro, pela garganta sou violentamente sacudido, ficando, por largos minutos, inanimado.

Pela proximidade do Jardim Zoológico ao Bairro das Furnas, quando o vento soprava vindo do norte, já pelo silencio da noite, podia-se ouvir, no bairro, o rugir dos leões, o canto dos pavões, a berraria dos macacos e de outros “habitantes”, que eu privilegiava arreliar, enquanto não começavam as brincadeiras, nessas tardes dos domingos.

Recordo, haver junto à vedação do exterior, dentro do perímetro reservado à pequenada, na frente de uma carreira da plantação das canas de bambu, um conjunto pequenas casinhas, que davam para entrarmos pelas portas, sairmos pelas janelas, brincar às escondidas, etc. onde, despreocupados e alheios a tudo isto, pastavam pequenos galináceos – os “cocós” – cujas fêmeas punham os ovos, em recipientes estratégicos, colocados pelos funcionários do jardim, para que a pequenada não os esmigalhassem em resultado das suas brincadeiras.

Eu, também uma vez tive com eles, com os ovos, muito cuidado e, na hora da partida. Colocados sete ou oito dentro da camisa, lá fui eu disfarçadamente para casa na esperança de os comer fritos, não sem antes levar dois estalos da Georgina, minha mãe, pelo acto praticado. Contudo, não deixou de os fritar. E como soberam bem os ovos das cocós do Jardim Zoológico de Lisboa.

NÃO SÓ OS ADVERSÁRIOS SOFRERAM COM AS VITÓRIAS DO GLORIOSO

Quando morava na Estrada de Benfica, por duas ou três vezes, saltei para debaixo da cama, assustado, quando faziam estoirar foguetes, por vitórias ou inaugurações de eventos, no Estádio do Sport Lisboa e Benfica.

Não foi fácil, no tempo que sucedeu ao regresso da guerra colonial, lidar com “fantasmas”, tendo em conta a sofrida sujeição aos rebentamentos das “morteiradas”, com que eu, e outros, fomos confrontados no aquartelamento em Tite.

No ano de 1970, quatro anos depois das africanizadas impostas acções e… do casório, eu e a Mila, ocupávamos um 4º andar (duplex) no Calhariz de Benfica, situado a cerca de dois mil metros do Estádio do Glorioso.

Para principio ficamos muito bem, o duplex tinha duas assoalhadas, uma casa de banho e a ligação a todo o comprimento do telhado do prédio, sendo o sótão aproveitado: com uma pequena cozinha, armazém das chamadas velharias, e ainda com uma “coelheira” para um ou outro coelho ou galináceo na engorda, para serem “servidos” em melhor ocasião.

Digo isto, para referir que não era difícil, (mesmo resistindo ao pó DDT que cuidadosamente colocávamos no chão, junto à porta que dava acesso ao sótão), impedir que, no quarto, fossemos “visitados”, quase sempre pela calada da noite, por uma ou outra “baratita” ou “ratito faroleiro”.

A exemplo de algumas práticas de familiarização com estes bicharocos na Guiné, esquecendo que dormia sozinho, sonâmbulo, sentia a sua passagem e… calmamente a(s) sacudia(s) para o lado(s) ocupado, na cama, pela minha companheira.

Como é compreensível, a moça não gostava nada destes maus hábitos, ficava aos pulos e “fula” cada vez que levava com um destes bicharocos, mais propriamente com baratas e, fugia em pânico para um dos cantos do apartamento, estorvando o meu sono, mas secundado por fortes risadas ao saber do acontecimento. Irritada já não se deitava sem antes passar “revista à caserna”.

Mas a “vingança” da Mila estava para vir. Em Abril de 1972, quando do jogo para a Taça de Portugal, onde o Benfica venceu o Porto por 6 a 0, a folia e os festejos, já no Estádio da Luz, prolongaram-se noite dentro e, o final de tanta festança foi ao som de fortes morteiradas, que ao acordar, dou comigo debaixo da cama.

Já refeito do susto, a Mila pergunta:… Estás a ver se as molas do colchão da cama estão partidas?...era a vez de ela rir.

Felizmente que a “pancada” não ficou e, a testar isso foram os festejos, naquele Estádio, das sucessivas vitórias do glorioso, e sempre Benfica.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

O PRIMEIRO CARRO (II)

A VIDA É UM RASCUNHO DE SAUDADES

Corria o mês de Janeiro de 1971. Dou comigo, ao volante do “carocha”, a subir a Av. da Liberdade em Lisboa. O tempo estava chuvoso, chuva tipo “molha-tolos”. Oiço o “cantar” do carro e acelero, entusiasmado ao verificar que toda a avenida tinha luz verde nos semáforos. Reparo que deixo para trás, alguns dos “borrados” condutores com receios das condições do tempo e do asfalto.

Num ápice surge a rotunda do Marquês de Pombal. Dou com todos os meus companheiros “de route” parados e perplexos, a assistir ao bailado do “Carocha” que ostentava ainda na traseira um “ovo” amarelo indicativo de velocidade máxima de 90 km que me era permitida e avisador para os demais…… “aqui vai um piriquito”. Qual bailado de cisne em tempo de acasalamento.

O “meu”, ou melhor o “bailado” do meu “Pablo”, foi de tal forma que ainda hoje estou para saber como fui parar ao jardim que circundava a estátua do Conde de Oeiras, Primeiro-ministro e Marquês de Pombal. Atolado no meio das flores, não fora a ajuda do jardineiro e de um polícia sinaleiro, creio que ainda lá estaria especado e com os pés lameados perante o riso de gozo dos energúmenos condutores que pelo local passavam.

Esta rotunda dava-me “galo”. Uma outra vez, não muito distante no tempo, vindo da direcção do Saldanha e querendo cortar à direita, em direcção às Amoreiras, ao sair da faixa do meio, um táxi levou-me o guarda-lamas direito, sendo, por mim, recuperado mais à frente, perante todo o trânsito parado, espectáculo desta vez “brindado” com multa e “recheado” de sorrisos dos passantes, gozo que me levou a retirar para sempre o malfadado “ovo” amarelo.

Também quem não gostava muito destas e outras brincadeiras resultantes em amachucadelas, era o Artur bate-chapas e o Arnaldo pintor, amigos de infância que possuíam uma oficina no Bairro da Graça. Bem dizia o Arnaldo (que comigo em miúdo roubava parte das hóstias ao padre do Bairro quando lhe fazíamos o recado à senhora que as confeccionava): Oh Pica dizia ele… de tantas vezes nos “visitares” é melhor mudares de emprego e vires para cá trabalhar.

Na verdade o “defeito não era meu”, à falta de visibilidade do guarda-lamas do lado direito, o carro andava quase sempre batido, ao ponto de sair da garagem com o “Carocha” como um “brinco” e junto ao Miradouro de Santa Luzia, para aí mais mil metros à frente, ainda na região do Bairro da Graça, bater na traseira de um outro carro, tal a distracção ao admirar uma flausina lisboeta. Já era azar!

No entanto, convencido continuava a não haver melhor “volante” em Lisboa e arredores. Vaidoso, lá continuava a buzinar ao som do rugir da vaca.
Como era boa a vida de Lisboa. Quem me dera ter outra vez vinte anos…
Não fui capaz de segurar as lágrimas, dois anos depois, quando por 10 contos (cinquenta euros) me desfiz do primeiro carro.