sábado, 13 de setembro de 2008

AS MUDANÇAS NA ADOLESCÊNCIA (I)

A PUBERDADE
Acabada a instrução primária e já a trabalhar, agora com os 16 anos de idade, estou muito mais preocupado com a saúde do meu pai, do que para politica de repressão que o ditador Salazar sustenta no país, assim como das acções opositoras ao regime.


Lembro as palavras de minha mãe a alertar-me, de que não devia meter-me na política. Sobre politica não devia falar com quem quer que fosse. Dizia…“Olha filho… a PIDE prende-te!”.

Com efeito, no decorrer do ano de 1961, pela surdina comentava o que ouvia dizer na rádio.
Apercebia-me que era grande a agitação política e traumática para o regime Salazarista, mas ao contrário da família mais chegada, eu era “imberbe” nessas “coisas”, se bem que não fosse alheio:

…No mês de Fevereiro, com o objectivo de chamar a opinião pública mundial da politica ditatorial em Portugal -.o Governo sofre uma investida com grande impacte no país e a nível mundial - Henrique Galvão comanda, em pleno alto mar, o assalto ao paquete Santa Maria -.
…No mês de Março, o país toma conhecimento, que a UPA, com o apoio dos EUA (CIA, desencadeia no norte de Angola, um ataque às populações brancas e trabalhadores pretos naturais de outras regiões, resultando num massacre de milhares de pessoas.
…No mês de Abril, várias personalidades do regime, lideradas pelo ministro da defesa, Júlio Botelho Moniz, apoiadas pelo antigo presidente da república, Craveiro Lopes, através de um golpe palaciano, visam, sem êxito, afastar Salazar do Governo.
…A União Indiana invade os territórios de Goa, Damão e Diu.

Confesso que a actividade politica, não supera as minhas preocupações com os problemas em casa e na rua, derivados da doença de meu pai, por via do alcoolismo, e as dificuldades conducentes ao seu internamento hospitalar.
Estava também concentrado em procurar anular situações comportamentais muito complicadas, inclusive agressões físicas infligidas à minha mãe, do que na problemática politica que me rodeava.

Mas o meu estado de espírito “aliviava-se”, quando no Chiado, na Rua Nova do Almada, no final dos dias, junto ou na frente da porta do prédio dos grandes armazéns Eduardo Martins, encontrava a Mª Emília depois do trabalho.
Durante anos, de mãos dadas, o nosso caminho foi sempre o mesmo: Largo do Carmo, Calçada do Carmo, Estação dos comboios no Rossio e finalmente a Estação de S. Domingos de Benfica, zona onde a “miúda” morava.
Muitos dos sábados à noite, acompanhados pela sua mãe, éramos presença obrigatória nos bailaricos na Colectividade da Academia Grandela, ao Calhariz de Benfica. Aos domingos privilegiávamos os passeios pela linda mata de São Domingos de Benfica, junto aos Pupilos do Exército.
Mentiria se não referisse outro tipo de “preocupações”, sobretudo nas noites após a saída das aulas da Escola Veiga Beirão no Largo do Carmo, com uma ou a “visita” aos bairros típicos da cidade com destaque para o Bairro Alto. Mas………obviamente eu cresci, e para futuro nem sempre foi assim.
Fotos: Google

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

O MEU BAIRRO DAS FURNAS - III

(As minhas brincadeiras)
As ruas do meu bairro eram limpas logo pela manhã cedo, com alguns buracos é certo, mas o lixo não se via espalhado. O caixote do lixo era despejado no carrinho do “almeida”, quando na passagem pelas portas, caso contrário teria que ser entregue no depósito no final da Rua dos Choupos, junto à casa/arrecadação dos cantoneiros. Meu pai era um deles. “O escrivão da pena comprida”, como lhe chamava a minha adorada mãe.

Também não haviam “monos” amontoados. Quando alguém entendia ver-se livre de algo velho ou muito usado, não ia para o lixo, esperava pelo “ferro-velho” e fazia negócio.

Dizia a minha mãe…. “Dá-me jeito, vender umas garrafas de vidro”.
Como eu me lembro do pregão…”Ferro velho à porta…quem tem frascos ou garrafas para vender”…A vida era muito diferente.

O carro para transporte do lixo com que o meu pai trabalhava, para mim era uma tentação! Na oportunidade sempre que o via sem os contentores, não era difícil ver o Raul, com ele às voltas no estendal comunitário que existia no fundo da rua, logo “sacudido” com uma peça de roupa molhada e enrolada, que uma vizinha mais enervada, me atirava com o receio de lhe sujar a roupa estendida ao sol a secar.

Também as minhas brincadeiras …versos vizinhas…, com os “carrinhos de esferas” que eu próprio construía, por vezes eram muito dificultadas.

Empurrado por outros miúdos, o barulho das rodas no solo era ensurdecedor. Às vezes as vizinhas, irritadas, faziam queixa à minha mãe, que retorquia justificando…”O que é que queres que o miúdo faça? Ele tem que brincar!”...Mas era certo que o carro ficava confiscado por dois ou três dias, até que o “azedume” das vizinhas passasse.

Contudo alternativas não me faltavam, ou eram com as corridas de arco com gancheta (que também fazia barulho, mas menos), jogar ao abafar com bilas (berlindes), ou com as caricas das garrafas ou ainda a atirar o pião. Mas eram as “máquinas” que me encantavam.

Um dia, por ocasião do alcatroamento das ruas, diante o deslumbramento de queremos ver a funcionar o cilindro (qual monstro de máquina), pela hora do almoço, quatro ou cinco miúdos saltaram para a “locomotiva”, que estava estacionada por detrás da praça e na sua direcção.

Alguém, ainda hoje não sei quem, pôs o cilindro a trabalhar, seguindo-se, assustados, várias tentativas para o fazer parar mas sem êxito. Atento à brincadeira valeu-nos um operário que por perto almoçava, senão o pavilhão que sustentava a praça, a padaria e o talho, “já era”, com outras consequências imprevisíveis.

Traquina, igual a muitos outros putos do meu bairro, a brincadeira não ficava por aqui. O fiscal Costa sofreu com algumas “chatices”. Ele nunca soube quem partiu, à fisgada, as canecas de loiça branca que enrolavam, no poste de madeira, os fios do telefone do seu gabinete.

Na maior partes das vezes, não conseguiu cobrar o prejuízo das chapas de lusalite partidas, resultante das traquinices da miudagem. Ou ainda no encontrar dos culpados por “chincharem” uma ou outra peça de fruta, “que aguçava o apetite”, numa arvore de um qualquer quintal.

Recordo ainda, sentado nas escadarias que davam acesso à igreja, estar a fumar uma “beatinha” escondida pelas pernas, encanto assistia aos “recitais” do Alfredo, que começava a desenvolver o saber do tocar harmónicas. (Mais tarde, já homem, com o seu irmão, abrilhantou vários espectáculos, inclusive televisivos). Esta atitude, a de fumar, foi uma vez descoberta, nas traseiras da igreja, por meu pai. O estalo foi de tal forma, que a beata ficou colada à minha cara e meses marcada a queimadela.

Notas:
1-A foto acima é a Rua dos Choupos, retirada do livro “O Nosso Bairro Das Furnas” e editado pela Associação dos Moradores.
2-A foto do cantoneiro foi retirada da NET e tem a montagem da imagem do meu pai.
3-O carro de rolamentos é da criação do meu neto, modelo apresentado na escola quando na idade de 14 anos.
4-A foto do cilindro é retirada da NET imagens Google

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

O MEU BAIRRO DAS FURNAS - I

(A minha casa)
Em Dezembro de 1945, no Bairro Social da Quinta Boavista, na Freguesia de Benfica, nasce um indivíduo do sexo masculino, a quem deram o nome de Raul Ferreira Pica Sinos.

Dois anos mais tarde, com o meu pai de nome Adriano, (funcionário da Câmara Municipal de Lisboa, com a profissão Cantoneiro) e demais família (mãe, irmã e cunhado), passei a residir, no Bairro Social da Quinta das Furnas, na Freguesia de São Domingos de Benfica, situado entre o Parque Florestal de Monsanto e o Jardim Zoológico, numa casa tipo três, no nº 14, da Rua dos Plátanos, e aí permanecendo (salvo o intervalo de 2 anos na guerra colonial) até à idade de 23 anos, idade com que casei.

Então, a morar no Calhariz de Benfica, frequentemente voltava às origens para visitava minha mãe a D. Georgina. E quando em Corroios/Seixal, passou a ser diária de manhã e á noite, tendo em conta que durante o dia, a minha mãe cuidou da sua neta Sofia, na idade escolar, e até concluir a instrução primária obviamente no bairro.

Este meu bairro inaugurado em Maio de 1946, responde com a sua edificação de cariz provisória ao programa no âmbito das “casas desmontáveis”, desenvolvido pelo município de Lisboa, na plena ascensão do Estado Novo. Está associado à filosofia da Lei da Casas Económicas de 1933 e, é concluído no início da década de 1950, com 280 fogos alojando cerca de 1.500 pessoas.

A construção deste e outros bairros de semblante social, visava responder, por um lado, à politica do ditador Salazar, para com habitação operária, problema que se arrastava desde finais do séc. XIX, e acudir à mísera situação dos habitantes dos bairros de lata que proliferavam pela cidade. Por outro lado, ao realojamento dos funcionários da edilidade que viviam em barracas e dos cidadãos despejados administrativamente por causa dos novos empreendimentos públicos.

A construção das casas do meu Bairro das Furnas, foi feita, no exterior com chapas de lusalite, sendo no interior forradas por uma pequena espessura de tabique (gesso). Os fogos eram de diversos tipos – T1, T2, T3 e T4 – procurando responder ao numero do aglomerado familiar. Havia luz eléctrica e água canalizada, casa de banho com lavatório, chuveiro e pia. Na sala da entrada, tinha junto um poial com “chaminé” a quem chamávamos de “cozinha”.

A renda da minha casa – T3 - tinha um custo mensal de 110$00, incluindo os gastos com a água e a electricidade cujo horário era o da iluminação pública. Tinha pela frente um pequeno quintal.


Era extremamente injusta a fama de “reputação duvidosa”, que a população mal esclarecida de Lisboa catalogava os habitantes do meu bairro. As pessoas com quem eu cresci, eram humildes, honradas e trabalhadoras. Viviam com estremas dificuldades, a fome batia a muitas portas, mas o que era dos outros, não era seu. Paradigma disso, as peças de roupa do laboratório de análises clínicas que a minha mãe lavava e estendia no lavadouro e estendal comunitário, pois, podiam estar dias a fio a secar que nem uma peça faltava. Pobres certamente, mas as suas portas não estavam trancadas nem fechadas à chave. O respeito pelo próximo era muito.


Bibliografia: Informação dispersa da CML, Fotos do livro “O Nosso Bairro” (Maria de Lurdes Pais Gomes), Editado pela Associação de Moradores Do Bairro das Furnas



quarta-feira, 3 de setembro de 2008

O TRABALHO (III)

Na primavera do ano de 1961, todas as instalações, da Robbilac Portuguesa, existentes na Rua Nova do Carvalho, foram transferidas para o Conde Redondo, mais propriamente para a Rua Luciano Cordeiro. Creio que tal mudança deveu-se a razões de espaço físico, para lançamento e afirmação de novos produtos, desenvolvimento dos recursos humanos e das vendas.

Com 14 anos, este era agora o meu local de trabalho. Aqui, foram-me destinadas novas responsabilidades, que consistiam em percorrer, praticamente a pé, as freguesias da cidade de Lisboa (divididas com um colega de nome João Sequeira), a fim de detectar e recolher informações, junto dos empreiteiros com prédios ou andares em construção ou remodelação. Todas as obras (pequenas ou grandes) tinham que ser obrigatóriamente balizadas, no exterior com madeira, de forma a estar denunciada a empreitada, e disso, dava conhecimento aos vendedores no final do dia.

Quando a Câmara Municipal autorizou a consulta das licenças de obra, nos respectivos serviços do licenciamento, o meu trabalho no exterior acabou. Passei a ser responsável, por registar e debitar as encomendas, recebidas por telefone, do sector retalhista (drogarias), e ainda pelas existências e reposição das amostras (latas de 1/8 ou ¼ de litro) das diversas especialidades de tintas.

Dois anos depois, no meu bairro, lembro-me que “afinava” com alguns miúdos, porque ao cruzarem-se comigo, gozavam, cantando o anúncio que passava vezes sem conta na rádio…
E agora? Agora, bate chapas e tintas Robbilac…
Ou ainda…
Pinta, pinta, pinta com a tinta Robbiallac
Que é a tinta que mais pinta, que mais dura.
Quem não pinta com a tinta Robbiallac
Pinta, pinta para borrar sempre a pintura…

Estes anúncios estavam ligados à estratégia da propaganda da empresa. O refrão era cantado por Maria Pereira, fadista, contratada em exclusivo.

Maria Pereira também actuou nas principais cidades do país, em dezenas de espectáculos graciosos, para clientes ou potenciais clientes. Esta artista (que era a mulher de um dos Administradores), era também conhecida pelas suas actuações prolongadas. Em cada espectáculo nunca cantava menos de 30 ou 40 fados. Por isso, tornou-se costume ouvir-se, no meio fadista, daqueles que “abusavam” nas suas interpretações… Eh pá, estás armado em Maria Pereira…?

Recordo uma brincadeira motivada pelo meu deslumbramento espacial, e pelo sucesso do astronauta russo Yuri Gagarine…o primeiro homem no espaço numa órbita em torno da terra de 40 mil quilómetros, feita em 108 minutos.

Na época, fortemente entusiasmado pela corrida espacial entre os russos e americanos no objectivo de colocar o primeiro homem na lua, (feito que veio a acontecer pelos americanos no ano de 1969), chamo o meu colega, João Sequeira, e convido-o para fazermos um “foguetão”. A base espacial e rampa de lançamento seria na “casa das amostras”, dependência situada no mesmo andar onde trabalhávamos, ideia que teve a sua concordância.

O “foguetão” era nem mais nem menos, uma carga da esferográfica parker carregada com cabeças de fósforos, bem atacadas, colocadas em cima de uma pequena rampa, elevada a cerca de 30 graus e feita em madeira.

Mais à frente da rampa, a cinco metros de distância, um alvo pintado a preto. O feito era conseguir, com a explosão, que a cabeça da esferográfica, que segurava o “rolon”, fosse projectada contra o alvo, furando-o bem ao centro.

O dia do lançamento tinha que ser feito, numa altura em que a secção estivesse vazia de vendedores e o respectivo chefe (Dr. João Abel) ausente. Conseguida a oportunidade, deitamos mãos à “obra”, besuntámos a carga da esferográfica com verniz celuloso… e “fogo nele”.

Que desilusão, a única coisa conseguida, foi o susto às funcionárias administrativas (a Gaito e a Margarida) pelo estalar da detonação. Bem insistiram no…”que aconteceu?”...Por vergonha, nunca lhes contamos o nosso insucesso.

Já mais “espigado”, as brincadeiras com os colegas passaram a ser futebolísticas, aos sábados de tarde ou domingos de manhã, no Estádio Nacional, em Paços D’Arcos, ou no campo do Palmense, em Palma. Em horário pós laboral, no Ginásio Clube Português, na luta Greco-Romana, e já com 19 anos, no Estádio do Campo Grande, no rugby pelo Benfica.

Um ano depois ingresso nas fileiras militares, sou mobilizado para a guerra colonial na Guiné-Bissau, reocupando o meu lugar no emprego, dois anos depois, em Março de 1969.

domingo, 31 de agosto de 2008

O TRABALHO (II)

Em meados do ano de 1958, com 12 anos de idade, por “cunha”, entro para o quadro do pessoal efectivo da Robbialac Portuguesa, cujas instalações estavam situadas na Rua Nova do Carvalho, ao Cais de Sodré/São Paulo, em Lisboa.

A secção das vendas era no primeiro andar (hoje devoluto) do nº 11, assim como as restantes secções administrativas e de Direcção/Administração. Os armazéns, dois, estavam situados na mesma rua, um no nº 23 e o outro no nº 32.

Para além destes departamentos, no primeiro quarteirão da rua, também havia, antes e depois do arco, (que sustenta a Rua do Alecrim, mandado construir por Marquês de Pombal após terramoto de 1755), diversos bares de alterne (Texas, Filadélfia, entre outros), uma oficina de serralharia, que curiosamente tinha um cocheiro à porta (chamado Simões), que alugava carroças para transporte de mercadorias, um estabelecimento de vendas de acessórios para pesca (já fechado), para além de três ou quatro tascas.
Era na tasca (hoje restaurante) do nº 36 desta rua, que todos os dias almoçava, os “petiscos” feitos pela D. Georgina dos Santos, minha mãe. Aqui, para quem ocupasse as mesas, (não encomendando a comida ao tasqueiro), era obrigatório fazer despesa; no mínimo, meio litro de vinho. Os operários que me faziam companhia na mesa, estavam sempre “com o olho” no vinho que me sobrava, pois não bebia mais que um copito, vulgo de “2” (200 ml), o restante oferecia-lhes.
Para lá deste quarteirão também existiam outros estabelecimentos, sobretudo de vendas de confecção da empresa Rodrigues & Rodrigues. Creio que esta firma já não existe, mas o arco e os bares sim, na maior parte de diversão nocturna.

O meu trabalho era muito “duro”. Consistia em carregar latas de tinta, dos mais variados tamanhos e pesos, dos armazéns para o primeiro andar. Por vezes lá vinham umas gorjetas, quando as entregas dos produtos comprados eram feitas nos carros dos clientes, dando para pagar um ou outro maço de cigarros (para consumo semanal), com 10 unidades e de marca “Três Vintes”, e ainda para as “bicas” que tomava após os almoços, num dos bares de alterne, mas sempre acompanhado por colegas de trabalho mais velhos, e desde que não houvessem marinheiros dos barcos estrangeiros estacionados no Tejo…, caso contrário estava-me vedada a entrada.

Carregavam também as mercadorias, mais três camaradas: O Francisco, o Salgado e o Júlio. O Júlio Gomes era “doido” por toiros (mais tarde toureiro de renome internacional), fazendo sempre quando podia, (no armazém do nº 23, nas horas do descanso para o almoço) treino com o capote e muleta, que se desviava, elegantemente, dos cornos de uma vaca,(que um de nós pegava), quando investidos na sua direcção, sendo sempre animado, por fortes aplausos, pelos colegas trabalhadores de armazém, com destaque para o Sr. (s) Leite e Rio, chefe e subchefe do entreposto, que eram ferrenhos aficionados pela arte do toureio.

Como recordo, também, muitas outras brincadeiras, como foi o caso da gritaria e correria das mulheres das secções do cálculo e da contabilidade, por causa de uma ratazana, a quem o Fernando prendeu à cauda uma lata de um quarto de tinta vazia, com a inscrição de…“mais uma entrega Robbialac”… slogan à época muito em voga e inscrito nas viaturas da distribuição.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

O TRABALHO (I)

No passado, o conceito do trabalho, na generalidade das famílias, era muito diferente do de hoje. As dificuldades da vida obrigavam a que os jovens, sobretudo das famílias mais humildes, fossem trabalhadores por conta doutrem muito cedo.

No meu caso ainda não tinha acabado a instrução primária, já os meus pais tinham feito compromissos para o meu emprego com um latoeiro/funileiro.Este primeiro estabelecimento para onde fui trabalhar, o do Sr. António Nabais, estava situado na Estrada de Benfica, junto à Cruz da Pedra, e consistindo o meu serviço, como aprendiz de funileiro, entre recados, actuar com um engenho, parecido ao picador de carne manual, mas em tamanho “Big Doble”, que permitia fazer cortes redondos em chapas zincadas, folhas de Flandres ou de alumínio, para substituição dos fundos das panelas, tachos, regadores, baldes, etc. que os fregueses entregavam para substituir. Mudados os carretos da máquina, permitia ainda fazer as dobras, engatar e comprimir as mesmas, ficando os utensílios prontos a serem de novo utilizados.

Foi de pouca duração a prestação do meu trabalho nesta oficina de latoaria, porque, passados três ou quatro meses, detectei que o Sr. Nabais, para testar a minha honorabilidade, colocou no chão, uma nota de 20 escudos, simulando que a tinha deixado cair inadvertidamente, situação que me chocou grandemente.

Quando a situação se repetiu em outra ocasião, nessa mesma tarde, já não fui trabalhar, não antes de minha mãe se importunar com o Sr. Nabais e de lhe dizer que o meu filho era de família pobre, mas sabia, tal como a sua família, respeitar e honrar o nome dos Pica Sinos.

A minha segunda ocupação foi na oficina do Sr. Américo Santos, também na Cruz da Pedra, que construía, através de moldes, trabalhos em torno mecânico, fundamentalmente salvas, baixelas, taças e outras peças decorativas e, cromadas posteriormente. Arear/polir estas peças, era o meu trabalho. Artefactos feitos em chapa de latão e cobre, cromados por processo de imersão de banhos electrólitos, num tanque existente no quintal. O meu salário era 7$50 por semana (em euros cerca de 3.5 cêntimos).

Recordo uma vez, que fui a Campolide buscar umas calças ao alfaiate do Sr. Américo Santos. Quando no balcão, aparece um indivíduo que me pareceu um “miúdo” a quem logo digo…"chama lá o teu patrão"….Este, responde com voz grossa…"Diz lá o que queres"…Até estremeci! Era um anão. Fiquei tão encavacado que me esqueci de pagar ao homem. Sabia o que era um anão mas nunca tinha visto um assim de perto.


Foto: No Bº das Furnas, na rua onde morava, eu e a minha mãe depois de um dia
de trabalho na oficina do Sr. Américo Santos

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

OS OVOS DAS CÓCÓS...UMA DELICIA QUANDO FRITOS

Embora natural da freguesia de Benfica, toda a minha infância e adolescência, foi passada na freguesia de São Domingos de Benfica, tendo, por perto o Jardim Zoológico de Lisboa, onde, sobretudo nas tardes dos Domingos, era palco no parque infantil, a organização de muitas brincadeiras destinadas aos miúdos em idade escolar.

Recordo que das muitas diversões que os animadores culturais faziam (apanha da bolacha em altura, salto em altura, corrida de fundo aos 50 metros, entre outras) havia uma, onde dificilmente os outros miúdos me ganhavam. Eram as das corridas aos pulos quando enfiado num saco de batatas, cujo prémio, pela participação, dava direito a uma entrada grátis no domingo seguinte. Certa vez, uma dessas corridas foi tão garridamente disputada, que não me apercebendo da corda que ladeava o perímetro, pela garganta sou violentamente sacudido, ficando, por largos minutos, inanimado.

Pela proximidade do Jardim Zoológico ao Bairro das Furnas, quando o vento soprava vindo do norte, já pelo silencio da noite, podia-se ouvir, no bairro, o rugir dos leões, o canto dos pavões, a berraria dos macacos e de outros “habitantes”, que eu privilegiava arreliar, enquanto não começavam as brincadeiras, nessas tardes dos domingos.

Recordo, haver junto à vedação do exterior, dentro do perímetro reservado à pequenada, na frente de uma carreira da plantação das canas de bambu, um conjunto pequenas casinhas, que davam para entrarmos pelas portas, sairmos pelas janelas, brincar às escondidas, etc. onde, despreocupados e alheios a tudo isto, pastavam pequenos galináceos – os “cocós” – cujas fêmeas punham os ovos, em recipientes estratégicos, colocados pelos funcionários do jardim, para que a pequenada não os esmigalhassem em resultado das suas brincadeiras.

Eu, também uma vez tive com eles, com os ovos, muito cuidado e, na hora da partida. Colocados sete ou oito dentro da camisa, lá fui eu disfarçadamente para casa na esperança de os comer fritos, não sem antes levar dois estalos da Georgina, minha mãe, pelo acto praticado. Contudo, não deixou de os fritar. E como soberam bem os ovos das cocós do Jardim Zoológico de Lisboa.