sábado, 1 de novembro de 2008

A LARA E A FESTA DOS DOIS ANINHOS

Em 24 de Outubro de 2008, pelas 21 horas, as brincadeiras já estavam muito animadas quando eu e as avós, Emília e Adelaide (esta última já bisavó), chegamos à festa dos 2 aninhos da minha neta mais nova – a Lara Sofia.

Os convidados, miúdos e as miúdas, não se cansavam de divertirem-se a correr e a saltar, não só pelo corredor, como no quarto da aniversariante. Aqui, era o delírio perante a oportunidade de brincarem, sem restrições, com os brinquedos da minha neta.

Deu muito prazer apreciar a alegria desta gente bem pequena, e a satisfação, por isso, dos seus pais, ao vê-los felizes nas suas brincadeiras.

A Catarina, minha filha, e o Miguel, meu genro, pais da Lara Sofia, estavam babados, vaidosos de felicidade.

A casa estava bem ornamentada, com balões, que um ou outro acabaria por rebentar pela força do calor e por estarem muitos cheios, originando grande animação provocada pelo susto e saltos de satisfação da pequenada.

A mesa estava bem composta, rebuçados, gelatinas, chocolates, pudins, sumos e outras coisas boas para contentamento da gente miúda.

Os petiscos destas ocasiões para os progenitores da “passarada” e familiares mais directos: Avó paterna, (pena foi que o avô paterno na ocasião estava em convalescença hospitalar) tios, tias, primos, primas, e outros convidados e convidadas que de perto a vêm crescer, também não faltaram.

Então, para mim, veio a surpresa da noite e da festa. Perante o olhar dos mais crescidos, na sala, animada pelas canções infantis, alguns pais, dançavam com os filhotes, quando para meu espanto, admiração e alegria, a minha neta, a aniversariante, de braços estendidos e a bambolear, me veio buscar para dançar o “Atchim Santinho” do Avô Cantigas: Convite que jamais podia recusar.

…Apanhou chuvinha
…O fantasminha está todo molhado
…Oh pobre fantasminha
…Ficou constipado

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O SR MELRO VAI VOLTAR A CANTAR NO MEU JARDIM



Estimado Raul Pica Sinos

Agradeço a tua mensagem relacionada com alguns problemas que identificas nos Espaços Verdes da Quinta da Mata e na envolvente.

A Câmara e a Junta de Freguesia fizeram, em conjunto, um esforço para melhorar aquele espaço, mesmo sem estar previsto no orçamento municipal de 2008, tendo em atenção o estado de degradação do local e os problemas causados aos moradores por aquela espécie de árvores.

Fizemos o que nos foi possível e creio que, apesar de tudo, está bem melhor. Desloquei-me ao local na semana passada com técnicos e com o Presidente da Junta de Freguesia e decidimos que a Junta vai instalar um aparelho para skate e procurar rectificar o piso nos pontos com mais problemas. Mandei efectuar a limpeza do local, incluindo toda a extensão da vala que, ao que me dizem, já foi efectuada, e aguardamos o desenvolvimento do estado de apodrecimento das raízes das árvores abatidas para as retirar, tentando danificar-se o mínimo possível o pavimento.

Vamos continuar a assegurar a limpeza periódica do local e tentar garantir a melhor qualidade ambiental possível aos nossos munícipes.

Um abraço

Com os meus melhores cumprimentos

Carlos Mateus
Vereador do Pelouro do Ambiente e Serviços Urbanos

domingo, 5 de outubro de 2008

O SR MELRO JÁ NÃO CANTA NO MEU JARDIM

Em Corroios, no jardim que circunda o prédio onde moro, bem cedo, ao raiar o sol nas manhas, acompanho a KiKa e Tucha, rafeiras pois claro, nas correrias e nos xixis matinais.

Este “meu” jardim recebeu, recentemente, melhoramentos há anos esperados. A relva queimada pelo sol e por falta de água, foi substituída por novos tapetes, colocadas plantas estilo piteiras, de folha larga, em pequenas elevações que não existiam.

As árvores já com algumas décadas, que albergavam a passarada, foram cortadas, respondendo ao protesto da vizinhança pelas alergias que lhes causavam o pólen. Em sua substituição foram colocadas muitas mais, cuja beleza e sombra levará anos a ser realidade.

Os buracos do pavimento foram tapados com lajes cinzentas, tipo tijolo, em contraste com outras do mesmo tipo e tamanho, mas estilo “tutifruti”, restos, digo eu, de materiais sobras de outros empedramentos, cujo nivelamento deixa muito a desejar.

Bom dia Srº. Melro

…Olá vizinho, tão cedo já no jardim?...

Sim, vim passear as minhas amigas cadelas.
O Sr. Melro com as patas nessa cova de água ainda se constipa!

...Olhe, vizinho, tinha sede, acabei de comer uma minhoca e para a ingerir bebi um pouco de água.

Não vejo a sua esposa?

…Pois não, ficou no jardim junto à praça, agora moramos lá, as arvores aqui foram cortadas!…

Pois, Srº Melro, o jardim recebeu melhoramentos!

…Melhoramentos? Não sei vizinho, o meu ninho e os da minha família foram destruídos, os pesticidas colocados na relva mataram as minhocas e quando as como mortas fazem-me “diarreia”, os habitats dos meus “primos” foram destruídos.

Mas, Srº Melro!

…Qual mas vizinho, já deu conta da vala toda suja? Deu conta das poças de água estagnada pela má direcção das regas? Já viu que arranjaram o jardim mas nada fizeram para recreio da pequenada? Já viu a falta de bancos e as alternativas encontradas? Já viu vizinho? Não vizinho, com muita pena minha não me vai ouvir cantar, nem à família, por aqui nos tempos mais próximos….

Mas, Srº Melro, isso não é justo!

…Fale com o Presidente da Junta, ele que emende o que de mal foi feito e prometo que voltarei para me ouvir cantar. Tenha um bom dia vizinho!...

Srº. Vereador do Ambiente da C.M.S e Sr. Presidente da Junta da Freguesia de Corroios
Exmºs. Senhores,

Depois de observar uma conversa com o Sr. Melro venho por este meio expor o seguinte:

domingo, 28 de setembro de 2008

EM PORTUGAL, AS MULHERES SÃO AS PRINCIPAIS VITIMAS DA DESCRIMINAÇÃO SALARIAL

O economista, especialista em Segurança Social e Trabalho, Dr. Eugénio Rosa, deu nota ao país do estudo que efectuou sobre a discriminação salarial a que continuam sujeitas as mulheres em Portugal, onde, pela sua importância, com a divina vénia ao autor, faço extractos procurando não o desprestigiar dos objectivos.

O feitor do citado estudo, utilizando apenas dados oficiais dos quadros de pessoal das empresas, divulgados pelo próprio governo (Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social), adianta que as mulheres pelo facto de o serem, são uma fonte acrescida da exploração das entidades patronais e que os lucros, resultantes da discriminação, deverão atingir em 2008 cerca de 6.068 milhões de euros.

Os dados estatísticos:

A discriminação remuneratória a que a mulher está sujeita, comparativamente aos homens com o mesmo nível de escolaridade:

1995 - Inferior ao 1º ciclo do ensino básico, menos 19%
1995 - Ensino superior entre, menos 28,5% e menos 40%
2006 - Inferior ao 1º ciclo do ensino básico, menos 19,1%
2006 - Ensino superior entre, menos 31,8% e menos 34,4%

A discriminação remuneratória a que a mulher está sujeita, comparativamente aos homens segundo a sua qualificação profissional, que em 2006 se agravou:

1995 - Quadros superiores, menos 24.8%
1995 - Praticantes e aprendizes, menos 7.8%
2006 - Quadros superiores, menos 29.7%
2006 - Praticantes e aprendizes, menos 7.9%

A descriminação remuneratória a que a mulher está sujeita, comparativamente aos homens a nível de sectores de actividade, atingindo, em alguns deles, valores chocantes:

1995 - Industria Transformadora, menos 32,6%
1995 - Outras actividades de serviços colectivos, sociais e pessoais, menos 46,5%
2006 - Industria Transformadora, menos 31,9%.
2006 - Outras actividades de serviços colectivos, sociais e pessoais, menos 42%.


Comparativamente com 28 países da Europa, segundo publicação “Eurofound”, Portugal é o país onde a discriminação de remunerações com base no género é maior (em Portugal, a remuneração média das mulheres é inferior, à dos homens, em 25,4%), sendo apenas ultrapassado pela Eslováquia. Mas isto é um valor médio. Se se fizer uma análise mais fina por nível de escolaridade, por qualificação profissional e por sector de actividade utilizando dados divulgados pelo próprio governo (Ministério do Trabalho e Solidariedade Social) conclui-se que a discriminação é muito maior.

Imagem: Google, cujo autor não consegui identificar

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

ÉRAMOS MUITOS NA MINHA "VIAGEM" PARA A GUINÉ

No dia 7 de Abril de 1967, no Aquartelamento de Artilharia Costa na Parede (Cascais), um dia antes do embarque das tropas, no objectivo de intervir na guerra na colonial, na província da Guiné-Bissau, teve lugar a formação e a entrega do guião ao Batalhão de Artilharia 1914, composto por 3 Companhias Operacionais e 1 de Comando e Serviços.

Antes, entre centenas de homens, avisto aqui e além uma cara já conhecida, camaradas da especialidade e outros companheiros oriundos da minha cidade natal, Lisboa.

É-me indicado o Sargento, a quem me apresento, que diz … ”onde andou rapaz?” …“não fez a instrução de aperfeiçoamento operacional (IAO)”…, …”devia cá estar há um mês!”…concluiu. Pergunte no Quartel-general! Foi a minha resposta. Depois, de assistir às cerimónias da praxe, foi arrumar na bagagem o camuflado distribuído e sair para jantar.

8 de Abril de 1967, cais de Alcântara em Lisboa, despeço-me da família que me acompanhou ao embarque, segue-se a formatura, um emproado oficial superior e sua comitiva fazem a revista às tropas, o embarque sucede. Ao som da fanfarra militar e do acenar dos lenços, o paquete Uíge larga as amarras.

Este parte, Aquele parte, E todos, Todos se vão.
Oh terra ficas sem homens, que possam cortar o pão.

A situação da despedida atormenta-me, não é fácil ver todo o aparato de tristeza que me rodeia. A Torre de Belém fica para trás, a ponte sobre o Tejo já não se vê, a terra é coisa sumida, os olhos há muito que estão rasos de água.

Tive a sorte de não ser colocado nos lugares do navio que outrora eram destinados às cargas. O meu camarote suporta oito beliches duplos. Não tenho preferência da cama, uma qualquer serve para descansar. As refeições são tomadas em refeitórios outrora salas de jantar para passageiros em terceira classe. Os lugares destinados às outras praças, os porões, (ao contrário dos oficiais e dos sargentos que seguiam em primeira e segunda classes respectivamente), são degradantes. Colocadas ao comprimento dos porões estão mesas em madeira, com lotação para uma vintena de militares, os beliches também em madeira, acompanha os porões em altura. Os vomitados do enjoo são constantes, a limpeza precária, que em conjunto com a falta do banho diário o cheiro é nauseante, asfixiante, o barulho dos motores, etc., o ambiente é insuportável.

Durante os oito dias (mais três que o normal por avaria num dos motores) que a viagem durou, foi neste contexto que os jovens militares faziam a vida no navio. Inconformados com o destino, no convés, uns passeiam, outros conversam e ainda outros jogam ou vêem jogar às cartas. Uma ou duas vezes fizemos exercícios de salvamento em caso de naufrágio. Os peixes voadores que quase sempre acompanharam o barco eram também motivo de entretenimento. Finalmente a 14 do mesmo mês, chegados ao destino para o qual fomos obrigatoriamente mobilizados. O pior estava para vir……a guerra.

Já noite com os demais camaradas d’armas cheguei a Tite, um dos principais aglomerados populacionais, no mato, ao sul desta província ultramarina, na região de Quinará, distando em linha recta, cerca de 30 quilómetros da capital, Bissau. Ou seja, Tite foi a localidade que em Janeiro de 1963, Amílcar Cabral fundador do PAIGC principia as acções de guerrilha contra as tropas portuguesas.

Com o passar do tempo apercebo-me mais do que me envolve na região. O Povo, seus usos e costumes, a grande variedade de espécies vegetal e animal. As chuvas, ao contrário no “continente”, começam em Maio, aumentando gradualmente até Agosto. Os relâmpagos, as trovadas em simultâneo, o pôr do sol lindíssimo, o cheiro, a terra vermelha, as arvores muitas delas centenárias, as aves, os repteis, os pombos verdes, as formigas d’asa, os incómodos mosquitos, etc. tudo tem a sua beleza, mas diferente do que estava habituado. No entanto nada disto faz esquecer a vida de Lisboa.

A 19 de Julho de 1967 assisto ao primeiro grande susto da minha vida, o inimigo equipado com canhões s/recuo e morteiros 82, durante cerca de uma hora flagela o aquartelamento, registando as NT no final da refrega apenas 3 feridos. As consequências materiais são de elevado prejuízo.

Os dias sucedem-se e a actividade operacional das NT desenvolve-se em terrenos que são adversos; cotas bastantes baixas, em grandes áreas alagadiças, não só na época das chuvas como em resultado das marés. O IN actua com grande mobilidade, conhece o terreno com pormenor. Está organizado militar, política e administrativamente em largas zonas territoriais. Com o apoio das populações, é forte, aguerrido e dispõe de um potencial de meios igual se não superior ás NT, só desequilibrado graças à actuação da Força Aérea.

No dia-a-dia, passo o tempo, com os demais, em constantes incertezas de vida. Só aliviadas pelas tertúlias organizadas entre a rapaziada, repastos acompanhadas de muita cerveja, quase sempre compostos pelas mercadorias que nos chegam dos familiares. Aqui e dali também me chegam notícias, uma delas bem marcante; a sorte de 500 habitantes da área de Lisboa que morreram em resultado das cheias que assolaram a cidade em Novembro deste mesmo ano.

Fotos:
Arquivo do Zé Justo
Google/Didinho
Poema:
Adriano Correia de Oliveira

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

AS MUDANÇAS NA ADOLESCÊNCIA (III)

NO FIM DA ADOLESCÊNCIA PRONTO PARA A GUERRA
Com a recruta concluída, colocado no Regimento de Artilharia Ligeira nº 1, na cidade de Leiria, é-me ministrada a especialidade de escriturário.

Para fazer face às despesas com as viagens nos fins-de-semana a Lisboa, organizo excursões cujo lucro era o preço do trajecto na ida e volta. Na segunda-feira seguinte, no regresso ao quartel, comigo transportava o avio da família; um naco de queijo, chouriço e umas latas de conserva: com sardinhas, com atum ou com pasta de carne, que a D. Georgina, minha mãe, não se esquecia, servindo de reforço às más refeições que era sujeito no aquartelamento.
A muito custo, com o apoio do serviço social do bairro onde morava, o Bairro da Quinta das Furnas, meu pai é pela segunda vez internado na Casa de Saúde do Telhal.
A família não teve outra alternativa. A preocupação com a evolução da doença é muita, a situação complicava-se nos dias que sucediam. Minha mãe, praticamente sozinha, enfrentava toda a problemática da loucura que assolava o meu pai já “queimado” pelo o abuso álcool.
Quando em 16 de Setembro, já inaugurada a Ponte que liga Lisboa a Almada (Ponte Salazar, mais tarde 25 de Abril), sou colocado no Batalhão de Reconhecimento de Transmissões, na Trafaria (já desactivado), para tirar a especialidade de Cripto (especialidade esta que ainda hoje consiste na aplicação das técnicas que visam a transformação da escrita legível para ilegível, manual ou em termos mecânicos), as coisas começaram a serem melhores. Podia ver com mais frequência a “miúda” e os meus amigos, na medida em que só ficava no quartel quando em serviço.

Aquele pequeno barco de madeira, que partia às 07,30 horas de Belém rumo à Trafaria, como era bonito de ver o “rasgar” das águas e o resplendor das madrugadas. Como era bonito ver o nevoeiro “rastejar” naquelas águas limpas do meu rio Tejo.

Claro alguns de nós, depois da noite “agitada”, fazia a viagem a dormir. O dinheiro para pagamento da viagem era trocado pelo bilhete e colocado na boina que tapava a cara.
Dado com pronto e colocado no Quartel-general (QG) da Região Militar, em Lisboa, em de Março de 1967, entre três cabos e dois sargentos, das muitas mensagens decifradas, quis o destino que fosse eu a decifrar as mensagens: uma, que ditava a minha mobilização para a Guiné e outra, dando nota da morte de dois soldados, por acidente de arma de fogo, no estágio das manobras do aperfeiçoamento militar da Companhia de Comandos e Serviços do Bart 1914, que viria a integrar.
Não me apanhou de surpresa a mobilização! A situação era mais que previsível para os jovens militares da minha idade. Na verdade, sendo a incorporação militar obrigatória, só não eram mobilizados para a guerra os jovens incapacitados fisicamente.
Já com o “carimbo” de mobilizado, após um curto período de férias com os meus mais chegados, despeço-me do meu pai com um abraço e um beijo, sabendo ambos que já não tínhamos a oportunidade de nos tornarmos a abraçar.

Com a devina vénia
Imagem Google – Os que viveram e vivem em Almada

domingo, 21 de setembro de 2008

AS MUDANÇAS NA ADOLESCÊNCIA (II)

MANCEBO NA RECRUTA MILITAR
Os meus sentimentos e inquietações mudaram, quando aos 18 anos de idade, dou obrigatoriamente o nome para o serviço militar.

É exactamente no ano de 1963, que a guerra colonial se intensifica. Em Setembro, começa a guerrilha do PAIGC, na Guiné, de forma sistemática, enquanto o MPLA abre a segunda frente de guerra, em Angola, no enclave de Cabinda.

Com grande aparato realizam-se pela primeira vez cerimónias militares no Terreiro do Paço, por ocasião do Dia de Portugal, onde se condecoram militares vivos e a título póstumo, em resultado das acções na guerra colonial.

Em 1964, com a reorganização do MPLA e da FRELIMO, a guerra passará a ter uma fase mais agravada em Angola e Moçambique.

Todos estes acontecimentos, entre outros, começam a originar dúvidas e medos na minha pessoa. Os amigos que comigo conviviam, no Café Ferro d’Engomar, ao Calhariz de Benfica, são levados a pensar na imigração para um qualquer país da Europa a exemplo do que faziam muitas famílias que fugiam à miséria, de um país que lhes negava a felicidade. Muitos jovens, inclusive com o assentimento dos pais, exilavam-se para fugir a participação na guerra colonial cada vez mais amplificada.


Mas, comigo, não era fácil concretizar esta opção. A imigração clandestina, que milhares de portugueses escolhiam maioritariamente os países europeus mais desenvolvidos: a França em primeiro lugar, mas também a Alemanha (RFA), a Suíça e o Reino Unido, inclusivamente, o pequeno Luxemburgo, não tinha a vida facilitada: viviam em barracas, não falavam a língua do país de acolhimento nem possuíam qualificações profissionais. Dispunham apenas da sua força de trabalho, que era empregue nas fainas mais pesadas, na construção e obras públicas ou no saneamento e higiene urbana. Para os refractários e desertores da vida militar, tinham que estar sujeitos ao estatuto de refugiados políticos, não podiam pensar em regressar ao seu país de origem, pois seriam presos com a “classificação” de traidores à Pátria.

Deixar a minha mãe sozinha a braços com a doença do meu pai, a “miúda”, e o facto de não saber quando voltava a este país á beira mar plantado, optei pelo mais “fácil”, ou seja, sujeitar-me a ser mobilizado para uma guerra, que maioritariamente os portugueses já condenavam, entrando nas fileiras, como recruta, a 2 de Maio de 1966, no quartel (C.T.S.C.) situado na Serra da Carregueira (Sintra).

Aqui, desde inicio a disciplina imposta era muito rígida. Não havia facilidades para ninguém. As marchas de quilómetros, o rebolar pelas silvas e por terrenos acidentados propositadamente escolhidos, não me afectava grandemente. A prática, durante cerca de um ano, das modalidades desportivas – luta greco-romana – no Ginásio Clube Português e mais tarde Rugby no Sport Lisboa e Benfica – permitiu-me enfrentar sem grandes dificuldades a “radicalidade” da instrução militar. Os ombros, esses sim, tinham que suportar as dores originadas pelo “coice” ocasionado pelo disparo da espingarda mauser. Também me incomodava seriamente acordar de madrugada, quando menos previa para fazer exercícios militar. Três meses de esforço praticamente inútil, confirmando mais tarde quanto desajustado à guerra de guerrilha em África.