domingo, 11 de março de 2012

DUAS HISTÓRIAS DE UM DIVERTIDO MIUDO DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS XV

Naquele sábado à noite, actuava no Sete-Rios, uma banda, cujo vocalista era uma jovem bem bonita e muito graciosa no acompanhamento musical. Encantava tudo e todos, mas falhava no rock-and-roll. Musicas que nós queríamos ouvir e dançar. Sobretudo o João Alfaro.
A mãe do João dava pelo nome de Maria Alfaro. Para os vizinhos era conhecida por “Maria do Carvão”. Teve 4 filhos. 2 Meninas e 2 Rapazes – a Lurdes, o João, o Vítor e a Clara Alfaro -. Esta última filha, ainda não era nascida aquando das ocorrências mais à frente traduzidas. Esta Senhora, enquanto moradora no Bairro da Boavista, era vendedora de carvão, razão pela qual, quando veio morar para o Bairro das Furnas, é identificada por “Maria do Carvão”. Tinha casa na Rua dos Freixos, mais propriamente 2 casas abaixo onde morava o barbeiro e, também “enfermeiro”, o Eugénio.

As datas dos acontecimentos, infelizmente, já não me ocorrem, mas seguramente foi na década dos anos 60. Ouvia-se na rádio, frequentemente, o Joselito a cantar. Miúdo de nacionalidade espanhola, que encantou tudo e todos com a sua voz. Um dos seus grandes êxitos foi a “Campanera”. Que muitos, miúdos e graúdos, o acompanhavam a cantarolar.

O João Alfaro, meu grande amigo, companheiro de escola, também adorava cantar. Quem se lembra dele em miúdo, sabe do que escrevo. O João andava sempre a cantarolar e, não se pense que cantava mal. À época, a sua voz, acompanhava bem o timbre melódico das canções de êxito popular. Não me é difícil recordar este “puto”, a imitar o Joselito, quando cantava a Campanera.

Uma das vezes, o palco da cantoria, foi na entrada do velho bairro, mais propriamente no jardim da praça. O João apresentava-se em jeito e na “pose de artista”. Ora com as mãos bem perto do peito, ora, uma delas, fechada, junto à boca a “substituir o microfone”.
Foi muito gratificante vê-lo a “actuar” para nós amigos e companheiros. No final do “espectáculo”, entre risos e aplausos, vaidoso, sorridente de alegria, com uma vénia, agradeceu. Que saudades meu velho!

Por qué has pintado en tus ojeras
La flor del lírio real?
Por qué te hás puesto de seda
Jay, campanera! Por qué será?



Numa outra vez, o êxito foi muito maior. Já tínhamos 17/18 anos. Passou-se no Sete-Rios, clube situado num velho edifício, em Sete-Rios, onde naquela época, proliferavam os bailaricos, sobretudo aos fins-de-semana. Edifício que hoje sustenta alguma nostalgia ao verificar-se todo emparedado e ao abandono.
Parece que estou a ver todo o seu interior.
Logo na entrada, a sala. Muitas cadeiras em seu redor a acompanharem as paredes. Ao fundo um alto palco. Também havia alguns grandes espelhos pendurados.

Estávamos no auge do rock-and-roll, o Elvis Presley era o “grande” ídolo da rapaziada. Todos gostávamos de dançar ao ritmo das suas músicas.
Naquele sábado à noite, actuava, no Sete-Rios, uma banda, cujo vocalista era uma jovem bem bonita e muito graciosa no acompanhamento musical. Encantava tudo e todos, mas falhava no rock-and-roll.

Eu dançava com uma empregada doméstica linda de “morrer”. Quando acabei, procuro oferecer à minha companheira, no bar, que se situava no lado esquerdo da entrada, algo refrescante. Mais à frente, reparo que o João, estava junto do palco a falar com a vocalista, certamente, pensando eu, a protestar tendo em conta a falha por não se ouvir tocar as canções/músicas do “ídolo”. ...Quanto... enganado estava.

O João queria cantar. O João Alfaro, para além de querer mostrar os seus dotes, queria colmatar, naquela noite de sábado, a falha da vocalista em termos do rock-and-roll. E o seu protesto não foi em vão. No intervalo foi vê-lo no palco a dançar e a cantar à capela:

A-wop-boh-a-loo-wop-a-woh-bam-boom
Tutty frutty, ah, rutty
Tutty frutty, ah, rutty
Tutty frutty, ah, rutty

Muito bom. A restante letra foi cantada num “inglês” cuja tradução não existia e ainda hoje não existe. Mas que foi muito apreciado e aplaudido, não tenham a menor das dúvidas.
Era um miúdo muito divertido do meu velho Bairro das Furnas.
Aquele abraço companheiro. Tenho saudades de te ver.

Raul Pica Sinos
Nota: A foto do João Alfaro é no tempo da escola primária

domingo, 29 de janeiro de 2012

FOI DIFERENTE A MINHA 1ª COMUNHÃO NO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS XIV

Enrolados pela encosta abaixo, o fato ora branquinho, passou a ter a cor castanha do barro, com laivos da cor verde, por estampada alguma relva por onde rebolamos.

Já por outras ocasiões contei aos meus botões, que recordar cenas passadas no meu velho Bairro das Furnas, quando na minha meninice e adolescência, surge em mim uma paz de espírito difícil de descrever. Não questiono porquê, sei que me sinto bem. E por isso….de quando em quando, escrevo….

Na época dos meus 7/8 anos de idade, havia um “puto”, com a alcunha de “Pisco”, (aqui recordado com saudade e respeito) que na escola comigo andou. Morava no nº 3 da minha Rua dos Plátanos. Tinha como vizinhas, na casa da parte de cima, a Beatriz, e na casa da parte debaixo, a Nazaré. Esta, a irmã do Meca, era atleta na modalidade do atletismo no Clube Futebol “Os Belenenses”. Gente talvez com mais 8/10 anos de idade.

O António Manuel Soares, o “Pisco”, era um “puto” pequeno e de estrutura esguia, daí a alcunha. Rapazola bem reguila. Decerto não mais que os outros, mas sempre disposto a defender-se, ao “bilhete”, dos demais, quando as coisas não lhe corriam de feição. Também “gozão” ou “pirraceiro”, quando algo, nos outros, aos seus olhos saiam do “natural”. Mas apesar de tudo éramos muito amigos.

No velho Bairro das Furnas, a esmagadora maioria dos seus habitantes era de fé católica e casados pela igreja. Aliás; o ser casado pela igreja, era uma condição para o usufruto da habitabilidade, mas isto é outra história. Consequentemente, com os filhos, havia a prática para além de os baptizar, os incentivar, através da organização cristã existente, na prática da educação católica – catequese – não só para receberem a 1ª comunhão, mas também, mais tarde, a crisma. Assim, todos os anos, era rotina haver um destes eventos. Estes jovens, quando ao receberem a 1ª comunhão, tinham como condição, apresentarem-se solenemente vestidos com roupa branca e, transportar na mão uma vela adornada de fita azul.

Como estava feliz a D. Georgina, minha querida mãe, no dia da minha 1ª comunhão. Não posso precisar se a roupa que eu trajava era emprestada, ou se foi comprada por via de algo necessariamente “emprestado” na frequente casa de penhores. Uma coisa é certa. O contentamento da minha mãe, contradizia com o meu descontentamento. Que “seca”! Todo aquele aparato envolvente ao acto, não estava de acordo com a minha forma de estar. Não me sentia bem dentro daquele traje branco. De tal forma me sentia incomodado que, para fugir aos olhares de todo aquele aglomerado de gente que assistiu à solene cerimónia, o meu trajecto de regresso a casa, não teve em conta a bela escadaria da igreja, mas sim o carreiro de terra batida que, existia por detrás da escola dos rapazes e, que dava acesso ao campo da bola, onde hoje existe o chamado Bairro dos Sargentos.

Oh…Azar dos azares. Mais ou menos a meio do citado carreiro, cruzara-se comigo o nosso “Pisco” que, não perde a oportunidade de me gozar a bom gozar…Olha o branquinho! Olha o rajá….Fruta oh chocolate….Olha… pareces o Estica…Rindo a bom rir da vestimenta cá do rapaz!
Zangado que eu estava, daqui ao estalo no “Pisco” foi um ápice! Enrolados pela encosta abaixo, o fato ora branquinho, passou a ter a cor castanha do barro, com laivos da cor verde, por estampada alguma relva por onde rebolamos. Não vale a pena descrever o que se passou em minha casa. A cena foi de tal forma contundente que, por muitos anos que viva não a vou esquecer.

Descansa em paz meu amigo e miúdo da minha Rua dos Plátanos.

A foto é o "Pisco" na idade escolar

domingo, 18 de dezembro de 2011

E HOJE VOLTAMOS A BRINCAR NO JARDIM ZOOLÓGICO



As “meninas”, tal como miúdas, não se fizeram rogadas. Saltaram a cancela do acesso do carrossel que, mesmo parado, “cavalgaram” nos cavalos, agarradas aos ferros, a imaginar como que o tempo não tivesse passado.

…Há muitos, muitos anos, na parte interior do Jardim Zoológico, no perímetro reservado à pequenada, anexo à vedação, provido altos ferros verticais de cor verde, que terminavam pontiagudos em corte de lança de cor dourada, junto a uma carreira de canas de bambu, de várias dimensões, existia uma “aldeia” de pequenas casinhas multicoloridas, onde a pequenada costumava brincar.
O sino do pequeno campanário da igrejinha não parava de tocar. Pelas portas das entradas dos minúsculos edifícios, não raras vezes eram palco de constantes atropelos, tal a azafama das brincadeiras. A situação era idêntica quando, a pequenada, saltava alegre e satisfeita pelas janelas de dimensões idênticas.
Brincar às escondidas era também “momento alto”, originando que fugissem assustados os pequenos galináceos (cocós) que nesta área habitavam…

Hoje, deu para verificar que tudo se mantém fiel ao passado. Aqui ali com algumas modificações, com conservação algo pouco cuidada. O sino que outrora existia no campanário da igrejinha sumiu-se, as cores de algumas casinhas estão debotadas, descoradas. Os cocós que por lá tinham o seu habitat, não foram avistados. Mas, no fundamental, o “nosso” jardim lá está, para que a pequenada de hoje se possa divertir, como alguns nós, agora avós, há muitos anos o fizemos.

Mas o que motivou este encontro de amigos/as no nosso Jardim Zoológico? E o que os/as fez correr para o Jardim dos Pequeninos?
Há já algum tempo, também em idêntico encontro, foi acertado que, os sagitários deste grupo de amigos se encontrariam para festejar o aniversário e que, os não sagitarianos do grupo seriam convidados de honra. Também ficavam, os convidados de honra, encarregados não só de pagar o seu respectivo almoço, assim com das oferendas aos aniversariantes. Que tal?

Tal festividade decorreu no passado dia 17 de Dezembro no Papa-formigas. Dos 9 mastigantes do bacalhau no forno, que estava uma delícia, só 4 eram (são) sagitários/as. Cantou-se os parabéns a você, fizeram-se ondas de alegria, festejou-se à saúde dos presentes e, naturalmente a todos aqueles que se ama. Foi um almoço revestido de camaradagem, amizade e alegria que não tarda a repetir-se.

Satisfeitos/as, já de saída, os olhares prenderam-se no carrossel da entrada do jardim. Como miúdas, as “meninas”, não se fizeram rogadas e, saltaram de imediato a cancela do acesso. Mesmo parado “cavalgavam”, nos cavalos, agarradas aos ferros imaginando o carrossel. Até ao momento que as corridas foram outras. Foram corridas…pois foram, mas… “corridas” pelo empregado e, obrigadas a descer do abusivo montar. De seguida resolvem comprar os bilhetes de ingresso. Desta vez devidamente montadas, viam-se constantes rasgos de alegria. Fazendo inveja à mais famosa das amazonas.
Depois foi vê-las naquele espaço dedicado à pequenada a “repetir” as brincadeiras de outrora, não sendo difícil imaginar, estes amigos/as do peito, quando meninas e meninos, nas muitas décadas já passadas neste jardim infantil: ….

…A Tê, a Lena e a Teresa apanharam todas as bolachas em altura, não admira são mais altas…
…A corrida dos sacos de batatas foi ganha pela Mónica e pela Clarisse…
…A corrida dos 50 metros pelo Luís e pelo Raul…
…A Nelinha e a Olívia, desistindo de tudo quanto eram corridas, por derrotadas, foram ver se apanhavam ovos das cocós….

Fui um dia que há muito não passávamos
Tenham também um dia feliz
Clarisse, Helena, Luís, Manuela, Mónica, Olívia, Raul, Teresa Carvalho e Teresa Silva

terça-feira, 25 de outubro de 2011

AS "VELHAS" DO MEU BAIRRO DAS FURNAS XII

Oh Ti Georgina! Chama alguém junto da cancela do quintal.
Quem é? Retorquiu.
Sou a Adélia.
Diz filha…, o que queres?
Olhe: A sua roupa que está estendida no estendal, já está toda enxuta. Eu preciso dos arames!
Ah é? Então vou já querida, vou já.

Por causa da ocupação, por uma só pessoa, de muitos dos arames por via da roupa estendida, havia por vezes discussão.
A Ti Georgina, bem cedo, ocupava quase todos os arames do lado direito do estendal do lavadouro existente ao fundo das ruas do Bairro.
A roupa que lavava, proveniente do Laboratório onde trabalhava, era imensa. Sobretudo toalhas, batas e alguns lençóis da casa das doutoras, que quando penduradas nos arames e estendidas no chão ao sol, pouco espaço deixava. Principalmente para quem também tinha muita roupa para estender.

As “velhas” do meu Bairro, em especial as da minha Rua, porque melhor as conheci, eram, (algumas felizmente ainda vivas), gente muito humilde, simpáticas e de bom trato para com todos. Sobretudo com as crianças.
Respeitavam o próximo e faziam-se respeitar.
Quase todas analfabetas, mas conhecedoras da vida como ninguém.
Eram “mestras” em ultrapassar as dificuldades com que se deparavam e, não eram embaraços tão pequenos como isso.
Eram tempos muito difíceis.
Quantas vezes comiam mal, para que o pouco que tinha não faltasse aos seus filhos e quiçá maridos.
Contudo, diga-se, que nem todas as “velhas” do meu velho Bairro das Furnas, pautavam pelo mesmo grau de dificuldades. Umas tinham menos dificuldades que outras. Mas todas tinham vidas sofridas. Contudo, também sabiam rir e brincar, sabe Deus, muitas vezes, a que custo.

Onde vais Georgina? Diz-lhe uma vizinha ao vê-la subir a rua dos Plátanos. Vou à praça. À Cármen. Vou fazer contas com ela, e comprar uma cenourita. Talvez também um nabo para pôr na sopa.
Olha…Não vou demorar. Tenho o feijão ao lume, há duas horas, e o “cabrão” ainda não cozeu. O Adriano vem comer ao meio-dia, não me posso atrasar.

A Cármen, vendia, frutas e as hortaliças na praça. Cujo edifício detinha diversas bancas de produtos hortícolas e de frutas. Também era provido de talho, padaria e mercearia. Ficava situado na entrada do Bairro.
A Cármen era uma mulher alta e bonita. A sua voz era forte. Amiga do seu amigo. Sabia das dificuldades de todos os seus clientes, e sempre que saldavam as contas ao “rol”, ajudava, na nova encomenda, com a oferta de uma ou outra peça da sua bancada.

Como eu recordo: Da mãe da Beatriz. Da mulher do Ti Cardoso, mãe do Meca. Da Ilda (dos óculos), da Ti Carolina. Da Ti Engrácia, da Ti Teresa, que vendia azeitonas e morava em frente à casa da Olga. Da Ti Rosa, da Ti Irene.
Como eu recordo: A mãe (e da irmã) do Zé Koi, que mais tarde foram para a rua das Oliveiras.

Como eu recordo: Da Maria do Carmo, Da mulher do alfaiate, que morava em frente à minha casa. Da Ti Matilde infelizmente pouco me lembro. A Ti Josefa, alentejana e mulher do sapateiro, que o seu ritual diário era estender, em panos colocados no chão, as ervas e pétalas das flores, que colhia, secando-as ao sol, destinadas à venda para chá.
Como eu me lembro da Adélia, felizmente ainda viva. A Ti Herondina a mãe da Maria Damião, filha do Ti Geraldino. Um dia escreverei sobre este extraordinário homem. Quem não se lembra da Paulina que vendia lexívia e que morava na primeira casa na parte de baixo da rua dos Plátanos.

A minha casa, a pretexto do romance do “Tide”, que passava todos os dias na rádio, pela tarde, depois do almoço, era palco de encontro de diversas vizinhas.
Quer o romance, quer o que se passava depois dele, o que conversavam/contavam umas às outras, não me preocupava saber.
Confesso que não gostava de romances e muito menos de “encontros de cusquice”. Se bem que não podia deixar de as ouvir, mesmo fechando a porta do meu quarto.
Num dia… diziam as cenas passadas ou ouvidas de personagens suas vizinhas ou não. Salvaguardando o escárnio e o mal dizer, de alguém que pudesse estar presente.
Num outro dia… o “fado” era o mesmo.
Comentava-se as cenas de quem esteve na reunião anterior, e outras cenas entretanto acontecidas. Faziam uma espécie de “acta falada”.
Sabes o que disse a….daquela que mora…
O marido da fulana… bateu-lhe com a bebedeira.
A sujeita tal… deve-me dinheiro que lhe emprestei e há duas semanas e ainda não me deu. Se o meu marido sabe, tenho “sermão”.
O miúdo da…tem a cabeça cheia de piolhos…
O filho da…está com anginas.

Todos nós, rapazolas, respeitávamos as “velhas” do nosso Bairro. Mas também é certo que gostávamos mais de umas de que outras. Daquelas que nos metiam medos, dizendo que iam fazer queixas às nossas mães, quando encetávamos as barulhentas brincadeiras, gostávamos pouco. Não gostávamos mesmo nada, daquelas porque “dá aquela palha”, faziam queixas ao fiscal Costa. Como era o hábito da personagem chamada Estrela que à beira da sua casa tinha uma palmeira.

Desta senhora, a Estrela, não era só os miúdos que tinham medos. A vizinhança dizia que era irmã da governanta do Salazar. Se era ou não, da fama não se livrara. Como era uma senhora muito altiva, quiçá arrogante, as “conversas” com as suas vizinhas ficavam-se, por uns (entre dentes) bom dia ou boa noite, e mais falas não haviam.

Como eu recordo: A mãe do Luis Filipe, no seu passo pequeno mas ligeiro, a subir a minha rua. A mãe dos irmãos Espinha. Da do Armando Claro, da do José Silva, da Ti Virgínia, entre outras.
Fora da minha rua dos Plátanos, também recordo com saudade: A mãe do “Rabaloto” que era peixeira. Da mulher do Caixinha que era revisor da CP. Da Julieta, mãe do Cataré, Alipio e da Clarisse. Da ti Amélia que vendia fruta numa carroça. Da Pomposa das mamas grandes e de outras tantas.
Que saudades meu Deus.

Dada a proximidade do Bairro ao Jardim Zoológico e quando o vento soprava a norte…
Numa dessas manhãs, oiço perguntar:
Olha lá, não ouvistes toda a noite o uivar dos leões e o cantar dos pavões?
Não dormi toda a noite!
Não filha, não ouvi! Retorquiu a Ti Georgina.
O que ouvi, e que não me deixou dormir toda a noite foi o ressonar do meu marido, com a ressaca da bebedeira de ontem à noite! Raios o partam!

Nota:
A identificação de parte das personagens teve a ajuda de alguns/mas Furnianos

A imagem foi tirada dop Google

sábado, 8 de outubro de 2011

OS RAPAZES DA RUA DOS PLATANOS DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS XI

No meu velho Bairro das Furnas, a maioria das crianças eram rapazes. Havia raparigas, mas, o que me dava observar, eram em número inferior. Não me é possível a esta distância, enumerar todos aqueles com quem convivi nas brincadeiras. Tenho relembrado em modestos escritos, alguns com quem partilhei “patifarias” próprias da época. No entanto há lacunas quanto às brincadeiras com as raparigas. Também brincava, mas menos. As mães, os pais e sobretudo as avós, não achavam lá muita “graça” as meninas brincarem com os rapazes. Hoje, o pensamento, felizmente, é diferente para melhor.

Pelas razões atrás aduzidas, torna-se mais fácil “rabiscar” sobre os garotos da minha rua do meu velho Bairro das Furnas. Rua esta que me viu crescer, viver e partir para casar com uma linda rapariga, que dá pelo nome de Maria Emília, mãe das minhas 2 filhas e com quem ainda hoje, felizmente, partilho a vida.

A Rua dos Plátanos, como a maioria das ruas, era dividida por 2 lanços. Moravam no lanço de baixo 4 rapazes. O José Silva, os irmãos Fernando e Carlos Espinha e o Bica que já faleceu. No lanço de cima habitavam mais 12 rapazes. O Luís Filipe, o Luis Damião, o José Fernando, os irmãos Manuel e Valdemar, o Fernando da Carolina, o Raul Pica Sinos, o Julio da Rosa, o Pedro da Engrácia,o Luís Augusto, o Emílio e o Pisco este também já falecido. Havia ainda outros rapazes com idades que já se situavam na esfera da adolescência. Sendo que as suas “brincadeiras” já eram outras. Lembro o Zé Koi, Zé Camacho, Zé António, o Américo, e irmão mais novo da Ilda e da Mariazinha.

Os miúdos do meu Bairro das Furnas, aquando da idade escolar da 1ª à 4ª classe,
tinham brincadeiras, que hoje são raras por diferentes, Se bem que, já naquele tempo, havia miúdos que residiam nos arredores do Bairro, resultante do estrato social dos seus pais tinham algumas diversões que os seus vizinhos miúdos do bairro não podiam achegar.
Essa diferença levava a que alguns moradores nos arredores e “turistas”, tivessem o descaramento de afirmar, que os residentes das Furnas, eram gente problemática no sentido pejorativo.
Problemático da cabeça era quem o afirmava.

Os problemas que existiam eram derivados da pobreza da vida. Sim. Existia muita tristeza na maioria das casas por continuarem a ver os seus filhos mal calçados e mal vestidos. Os seus filhos não tinham acesso aos brinquedos que os outros meninos tinham e, que aqui e ali as montras mostravam. No entanto apesar das dificuldades, os miúdos do meu bairro também brincavam. Faziam os seus próprios brinquedos. Eram felizes com o que tinham. Eram pobres, mas as portas das suas casas no meu velho Bairro das Furnas nunca se fechavam à chave.

Diz o ditado que, com os rapazes nem o diabo se metia. Tínhamos que brincar. A brincadeira mais fácil dos miúdos da minha rua, depois das aulas, era fazer pequenos “desafios”, no cruzamento da rua que dava para o estendal comunitário. Lembro-me uma vez da gritaria da “habitante” da casa de esquina, na frente à casa do Luís Filipe por ter sido “flagelada”, por um chuto na bola menos certeiro.



Suposto era a bola ir na direcção baliza feita de pedras. Não foi. A direcção da bola foi nas chapas de lusalite que cobriam a parede exterior da casa, partindo-se umas quantas. Digo umas quantas porque não deu para ver o efectivo estrago, tendo em conta a fuga então desenfreada.
O fiscal Costa, por queixa da prejudicada, veio de pronto cobrar o prejuízo. Sendo certo que a “brincadeira” não acabou aqui. Depois de feitas as contas, e saldadas com o fiscal Costa, eram “ajustadas” outras contas lá em casa. E durante alguns dias, ficávamos, com as orelhas a arder e não só, e no “banco” sem jogar.

Como eu gostava de abraçar, hoje, os rapazes do meu velho Bairro das Furnas.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O MEU BAIRRO DAS FURNAS E AS BICICLETAS X

OS MENINOS SABIAM ANDAR DE BICICLETA--IÔÔH

Era vermo-nos vaidosos e felizes por termos, mais uma vez, a oportunidade de andar de bicicleta. A alegria foi de tal forma que não deu para verificar que as horas passaram mais depressa.

Não sei se ainda existe, no Campo Grande (Lisboa), o espaço que era dedicado à rapaziada da minha geração visando ou proporcionando a aprendizagem e o uso das bicicletas. Assim como, não sei se ainda existe um outro espaço contínuo, reservado a mais velhos com vistas a aprender ou praticar o uso de motociclos.

Lembro que as bicicletas, na maior parte, eram velhas e apenas com um travão na roda traseira. Excepção para as que eram consideradas de corrida.
Os motociclos eram da marca Famel (entre outras marcas), predominando a pintura de cor prateada. Só eram cedidos a quem tivesse mais de 15 anos e deixasse como garantia o bilhete de identidade.

O aluguer das bicicletas, tinham, quando eu menino, valor diverso em função do modelo e do tempo de utilização. Alugar uma pequena bicicleta, no tempo de uma hora, pagava-se então 5 escudos. O aluguer das “aceleras” era bem mais caro. Que inveja e tristeza me faziam os “motoqueiros”, quando da sua passagem bem barulhenta.

O meu salário quando comecei a trabalhar, aos 11 anos, era cerca 2$50 por dia, dinheiro que no final da semana era entregue à minha mãe.
Como podia ter dinheiro para alugar, por uma hora, a bicicleta que tanto cobiçava?
Não era fácil. Só possível se juntado aos tostões das gorjetas, o dia de salário que minha mãe me dava, e ainda um ou outro centavo do troco que rapinava quando ia aos recados.

No meu Bairro das Furnas, a esmagadora maioria dos moradores era de condição pobre. Nós, miúdos, brincávamos com os brinquedos que fabricávamos. Éramos muitos solidários. Facilmente trocávamos os brinquedos, os nossos carros de esferas. A bola de catechu que tinha saído nos “bonecos da bola”, era emprestada a todos quando em desafios. Cedíamos os bilhetes do eléctrico/autocarro repetidos na colecção, por vezes em troca de nada. Quem não tinha bilas, peão ou caricas, não deixava de jogar.

Um dia, um menino com dinheiro suficiente para alugar, durante uma hora, as tão cobiçadas bicicletas do Campo Grande, pela tarde, resolveu por pés a caminho, não só no propósito de alugar uma, mas também decidido a traçar um percurso para longe da pista que lhe estava normalmente reservada.

A chegada do menino ao bairro, foi de festa para todos aqueles que o esperavam. E um a um, deram uma voltinha pelo meu velho bairro.
Era vermo-nos vaidosos e felizes por termos, mais uma vez, a oportunidade de andar de bicicleta. A alegria foi de tal forma que não deu para verificar que as horas passaram mais depressa.
Aflito, o menino, procurou saber por todos os “ciclistas”, se havia dinheiro suficiente para cobrir a despesa, que o tempo extra acumulou. Todos ficaram calados. Não havia!

Então o menino, sem qualquer rebuço, propõe:
Malta, vamos esperar que o dono das bicicletas as recolha e abandone o local.
Depois é só colocar a bicicleta no devido lugar e pirar.
Dito e feito. Já noite, perto da pista vazou-se um pneu da bicicleta e, os 2 ou 3 meninos da aventura, deixaram o velocípede encostado numa qualquer árvore das muitas existentes no Campo Grande. Obviamente, que o tempo extra da posse nunca foi pago, até porque a bicicleta “avariou”.




fotos: Gloog