terça-feira, 10 de abril de 2012

TALVEZ NÃO SAIBAM (?) QUE A REVOLUÇÃO DE ABRIL DE 1974...

Na sequência do golpe militar de 28 de Maio de 1926, foi implementado em Portugal um regime autoritário e fascista. Em 1933 o regime é remodelado, auto-denominando-se Estado Novo. Oliveira Salazar, Presidente do Conselho de Ministros, até então Ministro das Finanças, passou a controlar o país não mais abandonando o poder até 1968.

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, que a comunidade internacional e a ONU, vinham a defender a implementação de uma política de descolonização em todo o mundo. O Estado português recusa-se a conceder a autodeterminação aos povos das regiões colonizadas. Salazar, praticando uma política de isolamento internacional sob o lema Orgulhosamente só, levou Portugal a sofrer consequências extremamente negativas a nível cultural, económico.

Em Março de 1961, no norte de Angola acaba por estalar uma sangrenta revolta. A chacina merece de Salazar a resposta …Para Angola rapidamente e em força….

O regime fascista, defensor de uma política colonialista, alimenta as fileiras da guerra colonial, já então espalhadas pela Guiné e por Moçambique, com o propósito de manter as chamadas províncias ultramarinas sob a bandeira portuguesa com o resultado de milhares de mortos entre os povos.

O ditador Salazar, doente e senil, foi afastado do Governo em 1968. Américo Tomás, então Presidente da República chamou, a 27 de Setembro deste mesmo ano, para o substituir, Marcelo Caetano. Este, em tempo afastado do Governo por Salazar, veio a seguir a mesma política, no que diz respeito às províncias ultramarinas.

Os militares portugueses começaram a revelar grande desgaste e mesmo desprestígio com a continuação da guerra colonial que, se mantinha há mais de dez anos, concluindo que não era militarmente que a questão do ultramar se resolveria.
As eleições legislativas, em Portugal, ocorridas em 1973, não trazem alterações nem melhorias visíveis.

Começam a organizar-se grupos conspiratórios entre os capitães do exército, motivados também por reivindicações de carácter corporativo por parte dos oficiais do quadro permanente, contra o regime e contra a manutenção da guerra.

Paralelamente alguns sectores das finanças e da economia, classes médias e movimentos operários, constituem um importante factor na contestação à política do regime e, apresentavam-se, então, concordantes quanto à independência das colónias que, acabaria por acontecer, pondo assim termo a uma guerra que se prolongou por 13 anos.

A constituição do MFA resulta de uma reunião clandestina no Monte Sobral, em Alcáçovas, sendo que a primeira reunião clandestina de capitães foi realizada na Guiné-Bissau a 21 de Agosto de 1973. A guerra colonial constituiu a motivação dominante deste movimento criado por militares dos três ramos das forças armadas; exercito, aviação e a marinha.

O Movimento estuda e planeia a execução do golpe de Estado. A 24 de Abril de 1974, desencadeia tomada de posições, a partir comando no quartel da Pontinha em Lisboa. Desenvolve acções após a canção “E depois do Adeus” de Paulo de Carvalho (23horas) emitida via rádio pelos Emissores Associados de Lisboa. E dá início a ocupações no terreno, a partir do segundo sinal com a transmissão da canção “Grândola Vila Morena” de Zeca Afonso (00,20horas do dia 25 Abril).

Com o amanhecer as pessoas começaram a juntar-se nas ruas, solidários com os soldados revoltosos; uma florista, do seu molho de cravos que transportava, colocou um na espingarda de um soldado, de seguida todos o fizeram ficando os cravos símbolo da revolução.

As forças da Escola Prática de Cavalaria, comandadas pelo Capitão Salgueiro Maia, fazem a ocupação do Terreiro do Paço em Lisboa. Mais tarde a do Quartel da GNR no Largo do Carmo, onde se encontra refugiado o chefe do Governo, Marcelo Caetano, rendendo-se final do dia.

No dia seguinte forma-se a Junta de Salvação Nacional, constituída por militares que, procederá a um governo de transição. O essencial do programa do MFA tem como pontos fundamentais. Democratizar, Descolonizar, Desenvolver.

Entre as medidas imediatas da revolução dos cravos, contam-se a extinção da PIDE/DGS e da censura. Os Sindicatos passam, na sua grande maioria, a ser livres, os partidos são legalizados e, os presos políticos libertados.

Desenvolvem-se medidas atinentes para acabar com a guerra e, de preparação da independência das colónias ultramarinas. Facto que ocorre entre Outubro de 1974 e Novembro de 1975.
Da Guiné-Bissau, o último contingente militar regressou a Lisboa em 15 de Outubro.

Hoje, Abril de 2012, Os sucessivos governos, por força de politicas de direita, muitos dos direitos conquistados com a revolução de Abril de 1974 e, amplamente consagrados na Constituição da Republica Portuguesa, foram retirados. Torna-se necessário mudar de governo, mudar de políticas, defender Abril.

25 Abril Sempre!

Raul Pica Sinos
Bibliografia: Centro Documentação 25 Abril da Universidade de Coimbra,
Dicionário Enciclopédia Wikipedia. Foto de Carlos Granja

domingo, 8 de abril de 2012

HISTÓRIAS DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS XVIII

…Eu direi que, embora qualquer local servisse, o sítio privilegiado, para os rapazes da minha geração, era o terreno de terra batida, por detrás da praça, a caminho do campo da bola. Aqui não havia “velhas” a chatear e, a mandar-nos calar, dos barulhos resultantes da algazarra motivada pela paixão da competição...

…Referir que para a construção das covas em terra batida, muitas vezes utilizavam-se os calcanhares. Quando o terreno era rijo, para o amolecer, uma mijadela (q.b.) auxiliaria...

Num destes dias, ao atravessar uma rua, deparo com um berlinde perdido no asfalto. Era um berlinde de dimensão e diâmetro acima dos normais. Bem bonito. Incorporava várias meias luas de cores diversas. Pelo respeito e pelo divertimento que, os bilas me ocasionaram no passado, enquanto menino, não resisti. Curvei-me e apanhei-o. Tenho-o guardado.

Creio não ser difícil encontrar berlindes nas ruas, sobretudo quando há colégios/escolas para miúdos por perto. Como eu me lembro, a caminho da minha escola primária, ou na volta para casa, da doidice por “jogatanas” com os bilas, sobretudo no jogo das 3 covinhas, que me “obrigou” várias vezes a chegar atrasado às aulas, tal não era a paixão.

Na verdade, o calor dado às brincadeiras, não ficava só pelos jogos dos berlindes nas diversas modalidades. Muitas outras brincadeiras ocupavam o tempo do recreio e, não menos apaixonantes, nomeadamente do peão. Também gostava muito de “andar/correr” com o arco, este, quando acionado com o auxílio de uma gancheta. E o gozo que dava corridas com os carros de lata, feitos com as caixas da graxa e das sardinhas que, construía. Rememoro os jogos; do lenço, da cabra-cega e da macaca, sem bem que, para com estes, a minha atração era menor.

Sobressalta-me, no momento que escrevo estas memórias, um misto de alegria e de nostalgia. Alegria; por relembrar as reinações, as arrelias, as quezilas, resultantes das competições com os “putos” do meu bairro. Nostalgia; por razões sentidas pelo brilho, ao “regressar”, no pensamento e na escrita, às brincadeiras do passado.

Voltando ao jogo das 3 covinhas (bilas), que, privilegiava, nunca é demais recordar que, algumas vezes, quem perdia e, não queria pagar o justo “tributo”, ganhava, por via disso, umas chapadas. Seguia-se; “um agarra aqui, um agarra acolá”, ou “um puxa camisola”, dando origem, não raras vezes, a estatelamentos, pelo chão, dos “beligerantes”.

O sururu era ainda pior, quando sujo e roto chegava a casa. No entanto, os desentendimentos com a rapaziada, (quando “aceites” as explicações), eram “sol” de pouca duração, mas… a diversão quase sempre era dada como acabada.

Para se jogar, raras eram as ruas, no velho Bairro das Furnas, que não tinham buracos construídos por rapazes e raparigas. Eu direi que, embora qualquer local servisse, o sítio privilegiado, para os rapazes da minha geração, era o terreno de terra batida, por detrás da praça, a caminho do campo da bola. Aqui não haviam “velhas” a chatear e, a mandar-nos calar, dos barulhos resultantes da algazarra, motivada pela paixão da competição. Quem se lembra, sabe que naquele sítio, no lado esquerdo desta larga vereda, acompanhavam algumas oliveiras e outras árvores de média dimensão. No clivo, estavam em construção alguns prédios na Rua das Furnas.

Quase todos os miúdos levavam os berlindes num pequeno saco de pano. Também possuía um. Tinha um atilho em cima, onde ao puxar, o saco ficava fechado. Dentro, transportava berlindes de todos os tamanhos e feitios. As cores e os nomes variavam; na generalidade e, em maior quantidade, chamavam-se guelas, mas ainda havia; os carolos que, eram mais “fortes”, com vistas a aguentarem melhor as piladas. Com o mesmo objetivo, as esferas de metal. Em menos quantidade e, bem guardados; os abafadores, as leiteiras, os olho-de-bois, etc..

As regras do jogo, das 3 covinhas, eram bem simples: Obviamente, em primeiro lugar, construíam-se as 3 covinhas que, distavam entre si um passo bem largo. Referir que, para a construção das covas em terra batida, muitas vezes utilizavam-se os calcanhares. Quando o terreno era rijo, para o amolecer, uma mijadela (q.b.) auxiliaria.

Prontas as covas, decidia-se quem seria o primeiro na competição. Como? Um de cada vez começava o jogo com o arremesso do bilas, tentando acertar na terceira cova na sua frente. No arremesso, os jogadores posicionavam-se, se quisessem, inquinados para a frente, mas nenhum dos pés, podia pisar a primeira cova. De todos os jogadores, aquele que conseguia colocar o bilas, mais perto do buraco, ou acertar dentro dele, jogava em primeiro lugar. O objetivo consistia em fazer um percurso de ida e volta e, terminar na cova onde se começara. Mas…

Se falhasse deixava o bilas onde parasse. Seguia outro jogador. Assim sucessivamente. Se se chegasse a “fazer” todos os buracos, ganhava-se. Era então pago ao ganhador o “tributo” combinado (geralmente 2 ou 3 bilas).

Como se “matava” ou ganhavam os bilas?

Imaginemos que no desenrolar do jogo, e depois de se fazer as 3 primeiras covas, eu acertava no buraco seguinte. Tinha o direito, com as piladas “matar” os berlindes que estivesse (ou não) mais próximos desse buraco. Para isso, era-me permitido utilizar um palmo da mão que, não raras vezes fazia “aumentar” o seu tamanho (o espaço passava de 15 para 20 cm). Seguia para o próximo buraco e, a cena repetia-se com os bilas mais próximos, se conseguisse conquistar o 6º buraco, o jogo acabava, ganhando a todos os bilas em competição.

Porque não um dia destes um grupo de “cotas” fazer uma partidinha com os bilas dos seus netos? Com uma condição: Quem derrotado, aceitar com fair play a derrota!

Raul Pica Sinos
Notas:
Texto com a participação de Teresa Carvalho (no relembrar nomes dos bilas e modalidades)
Foto do topónimo da criação do autor
Fotos Google, dos meninos a jogar (com montagem do autor) e berlindes

E o que já disseram as “maria-rapaz”!


Eu aceito essa jogatana, tenho "guelas" cá em casa, sempre fui uma Maria Rapaz e as melhores covas para se jogar ao “guelas” na minha zona, ficava praticamente em frente à minha casa, na rua das Tílias, onde existia uma Geradora de electricidade e à frente um espaço relativamente razoável onde existiam as 3 covas de jogo.
Tive sempre a sorte de conter um "abafador", lembraste como eram? Normais com as particularidades de ter uma risca preta que ia de um lado ao outro do guelas, ao trocarmos 3 vezes com o nosso abafador num dos berlindes de alguém, esse alguém ficava sem esse mesmo berlinde e automaticamente era nosso.
Eu não os guardava em nenhum saco, na minha geração, muito depois da tua, usávamos garrafas e ficávamos orgulhosos quando a conseguíamos encher até cá acima de “guelas”, sempre tive uma grande variedade tanto de cores como de tamanhos, os grandes lembro me de exibi-los com o maior orgulho como de um tufo se tratasse, comprei alguns na D. Olívia, outros e a grande maioria eram "abafados"....reguila eu!!!!
Mónica Carvalho
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Olá Raul
Tudo bem contigo e família.
Nós estamos bem graças a Deus. Sabes com quem eu jogava o bilas....com a Fátima Alves, irmã do Aníbal, (o Tripa ) na rua das Nogueiras, quando eu morava na rua dos salgueiros...dava-lhe cada puxão de cabelos que nem imaginas....era só a brincadeira não correr bem e pumba....ás vezes levava eu para não me armar em espertalhona.....
Belos tempos.
Uma bjoca
Fernanda Arsénio
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Meu Querido
De facto, o texto está absolutamente delicioso, e lembro-me agora que o outro jogo não era o círculo mas sim o "roda". Voltando ao teu texto; como seria de esperar, está um texto bestialmente bem escrito e como a exemplo de outros, transporta os seus leitores para o cenário da história.
Parabéns meu amigo
Jinho gd
Té (Teresa Carvalho)
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sábado, 31 de março de 2012

COMO ERA BONITO O COMPASSO, EM DOMINGO DE PÁSCOA, NO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS XVII

…Era pela manhã que se ouvia o som constante da sineta a anunciar o compasso, accionado pelo Sr. José – o jardineiro -. Com uma opa vermelha vestida.
Atrás, de traje igual, - o sacristão -, o Sr. Cristóvão, homem alto e de voz forte. Carregando na sua frente, de dimensão modesta, uma cruz, com o Jesus pregado...



…Creio que uma boa parte de quem não abria as portas, neste domingo de Páscoa, era fundamentalmente por vergonha da sua pobreza.
Estou convencido, por aquilo que assisti, que tais famílias não tinham sequer dinheiro para comer, quanto mais para dar dinheiro e amêndoas ao padre, que com elas durante o ano nada repartia...



Um conjunto de amigos foi chamado a um almoço, lá para os lados das Olaias, na casa da Nelinha. Esta grande amiga foi (é), uma das “Miúdas” da minha rua, do velho Bairro das Furnas que, um dia me fez um pronto “xó pra lá”, quando lhe procurei roubar um beijo, debaixo da figueira, que, existia no seu quintal. Mas deixemos isto para outra ocasião.



Continuando; Na chegada a casa, depois dos beijinhos e abraços e, certamente, tendo em conta a aproximação do período da Páscoa, alguém ofertou a esta querida amiga, um pacote com variados e diferentes tipos amêndoas.
O gesto foi muito admirado, dando para ver, as ditas cujas, “partirem”, de forma “acelerada”, do recipiente em que foram colocadas.



Bonita foi a controvérsia que originou na apreciação das diferentes variedades, de tão apreciado e gostoso produto de torrefacção ou caramelização de frutos secos, ou com outros recheios.

Dizia uma. Ah… gosto muita das amêndoas torradas…
Dizia outra…Eu gosto daquelas que têm no recheio licor ou chocolate…
Retorquiu outra….Ah… eu também gosto muito de amêndoas, mas não arrisco comê-las, só chupa-las, por via da minha placa dentária…



Mas, o mais importante, foi alguém se ter lembrado das amêndoas oferecidas ao padre, no período da Pascoa, nas casas quando benzidas, do nosso velho Bairro.



Como era bonito o compasso (andamento), no domingo de Pascoa, no velho Bairro das Furnas!
Lembro-me que, uma semana antes, começavam os preparativos do povo. Os muros e as escadas das velhas casas eram caiados. Os ripados dos quintais, virados para a frente, eram arranjados e pintados quanto bastasse. Aproveitava-se para podar as flores. Tudo que era restolho ou lixo era retirado. Uma ou outra peça de roupa, a custo, quiçá ao rol, era comprada.



Ao tempo, todos primavam por vestir o que melhor conservavam. Aproveitando para estrear, nesse domingo, uma ou outra peça de roupa. As janelas eram engalanadas com colchas e outras coberturas das camas, por sinal bem garridas. Os crentes, tudo bem tratavam para receberem nas suas casas, Jesus pregado na cruz.



Era pela manhã que se ouvia o som constante da sineta, a anunciar o compasso, acionada pelo Sr. José – o jardineiro -. Que trazia vestida uma opa vermelha.
A atrás, de traje igual, - o sacristão -, o Sr. Cristóvão, homem alto e de voz forte. Carregando na sua frente, de dimensão modesta, a cruz com o Jesus pregado.
O padre vinha atrás acompanhado de 2 miúdos. Estes, vestidos com trajes em acordo com a cerimónia. Um transportava o incensário, o outro, transportava o balde da água benta, lá dentro o espargidor. O padre apresentava-se de batina branca, com as mãos escondidas pela estola, de cor verde, colocadas sobre a barriga.
Adultos e miúdos, estes, bem desinquietos, finalizavam o cortejo.



As casas, cujos donos as queriam ver abençoadas, tinham a portas abertas. O sinal que era dado ao sacristão, para o sacerdote entrar.
No interior da casa, sobre a mesa, havia sempre um prato com algum dinheiro e, amêndoas.



Aleluia, Aleluia… dizia o padre.
Estendendo a cruz para permitir que o crente beijasse os pés do Senhor.
Aleluia, Aleluia… repetia o sacristão.
Seguia-se a bênção, ao mesmo tempo que o seu ajudante movimentava o incensário, purificando o lar com o incenso queimado, proveniente de uma qualquer árvore aromática.
Por fim, o dinheiro era recolhido pelo padre. Na rua, as amêndoas oferecidas, eram atiradas aos miúdos que, se empurravam para as apanhar.



As portas das casas que se encontravam fechadas, a este costume religioso, havia sempre vizinhos algo criticadores, dizendo não raras as vezes:



…Olha aquele não é crente…
…Aqueles ali são contra a igreja…
…Caramba…a porta abre-se a toda a gente…
…Olha …aquele, não deixa a mulher e a filha beijar o Jesus…



Creio que uma boa parte de quem não abria as portas, neste domingo de Páscoa, era fundamentalmente por vergonha da sua pobreza.
Estou convencido, por aquilo que assisti, que tais famílias não tinham sequer dinheiro para comer, quanto mais para dar dinheiro e amêndoas ao padre, que com elas, durante o ano nada repartia.



Assim era, o compasso no Domingo de Pascoa, no meu velho Bairro das Furnas.



Nota: Agradeço à Clarisse Caetano, à Helena Ferraz e à Manuela Silva as dicas que me deram, pois essas dicas o texto não seria tão “rico” em termos históricos.



A foto do cruzeiro foi montada, pois tinha pessoas na sua frente. Mais uma vez agradeço à Clarisse Caetano por permitir as alterações na foto que dispensou.

sexta-feira, 23 de março de 2012

HISTÓRIAS DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS XVI

…É PÁ…ESTE É O MEU O RÁDIO…
…Mais tarde, venho a perceber que, ao instalarem o dito copo, bem cheio de água, em cima do aparelho de rádio, não só permitia cortar as interferências da locução da distante Rádio Moscovo, como, eventualmente, não seria detectada (a locução), pelas carrinhas de escuta da polícia política (PIDE)...

…É com muita pena que, o rádio, já não tenha reparação. Mas, digo-te Raul, …enquanto viva, será considerado e estimado, como no passado foi por 3 homens, do meu velho Bairro das Furnas…
Na oportunidade de uma agradável conversa, com a sempre amável Clarisse Caetano, grande amiga desde a infância, irmã do Alípio e do Cataré, não menos amigos, que, quando em miúdos, moravam, no nosso velho Bairro das Furnas, mais precisamente na casa de esquina, ao meio da Rua Eng.º Gomes de Amorim, que tinha o nº 23.
Como quem come cerejas, conversa puxa, conversa, de entre muitas lembranças de cenas por nós vividas ou, conhecidas de antanho, uma história acontece.

Sabes Raul….Deixa que te diga; Eu era muito pequenina. Talvez tivesse 7/8 anos de idade. Mas já me dava, para interrogar a minha querida mãe. Resposta não as tinha na maior parte das vezes, sobretudo quando as respostas se tornavam, para ela, complicadas.

Como ficava curiosa, quando ouvia, em alguns dias da semana, já noite dentro, o meu pai (também) Raul, com o Sr. Manuel da Julvira e, ainda, com o Sr. Desidério, que morava na rua dos Plátanos e tocava guitarra, a conversarem baixinho…

…Em outros dias, também via que, um deles (creio que era apenas o Sr. Desidério) lia livros e jornais que, depois, religiosamente os guardava...
…Ainda, dias havia, não percebia o porquê, que, junto ao velho rádio, com o volume do som muito baixo, estes 3 homens atrás citados, com os ouvidos quase “colados” ao mesmo, optavam por ouvir alguém com a “voz”, algo roufenha, a troco da música.

…Isto hoje está com muitas interferências…Dizia o meu pai.
…Oh Julieta… Oh Julieetaaaa… trás um copo com água...

A Julieta, como sabes, era o nome da minha adorada mãe. De princípio ainda pensava, que o meu pai o pedia para beber a água. Não era. O então copo com água era, para ser colocado bem cheio em cima do rádio.
Mais tarde, venho a perceber que, ao instalarem o dito copo, bem cheio de água, em cima do aparelho de rádio, não só permitia cortar as interferências da locução da distante Rádio Moscovo, como, eventualmente, não seria detectada (a locução), pelas carrinhas de escuta da polícia política (PIDE).
O pouco volume do som do velho rádio, também visava não permitir as escutas dos bufos, que, abundavam no Bairro. Diga-se…também estes, sempre na espreita de movimentos, protestos e posturas, das gentes contra o regime.

Uma vez…Raul…ouvi dizer em surdina, que, os “polícias” sem farda, tinham acabado de prender uma jornalista muito famosa entre os trabalhadores portugueses (Maria Lamas). Observei que o meu pai, calceteiro de profissão, ficou triste e deveras zangado.
Repetidamente dizia aos filhos:

…Não digam na rua, seja a quem for, do que se passa cá em casa…
…Cuidado com “esta” aqui ao lado…querendo identificar a D. Virgínia, mãe da Celeste.

Era verdade, que todo este secretismo me deixava curiosa, mas nós filhos, nada dizíamos… Nem sequer percebíamos o que se passava. No meu caso o interesse era, preferencialmente, dado às brincadeiras com as bonecas de trapo. Os meus irmãos começaram a trabalhar, no caso do Alípio, como ajudante de caixeiro e, o Cataré, como mecânico de automóveis e, não estavam nada interessados no que o meu pai escutava ou ouvia ler.

Uma outra vez,
acrescenta a minha interlocutora, o meu irmão Alípio, pelo susto que lhes pregou (aos 3 homens) ao entrar de “rompão”, sem prévio e qualquer aviso, pela porta de acesso à minha casa pelo quintal, deu azo a que o meu pai, em espontânea gritaria, com a aparente concordância das assíduas visitas. Dissesse:

…Se tornas a fazer isso, podes crer que te dou um enxerto que jamais te esquecerás na tua vida…
…Tu, (virando-se para a minha querida mãe) não o defendas, senão…

Infelizmente o meu pai morreu muito novo. E com a sua morte, tudo em minha casa se modificou. O velho rádio desapareceu, certamente entregue a algum prestamista ou penhorista, servindo o dinheiro apurado para fazer face à vida que passou a ser mais sofrida.
Também as visitas, daqueles que foram (eram) seus amigos, acabaram. Certamente não deixaram de ouvir a rádio Moscovo e, de ler jornais e livros que, os educavam politicamente, mas se a ouviam e o faziam, era em outra casa, não na minha!
Também… Raul…,a D. Julieta, minha querida mãe, anos mais tarde me abandona fisicamente.

Contudo a vida continua. Quando já mulher, casada e mãe de um filho, a vida já me é menos madrasta. Sou feliz. Trabalhava no já extinto Fundo Fomento da Habitação, lá para os lados da Av. 5 de Outubro.
Saía do emprego por volta das 17,30 horas e, como sempre gostei de andar a pé, sobretudo nas tardes frescas do verão, aproveitava, ao atravessar as ruas e avenidas, espreitar, observar, como quem não tivesse qualquer pressa, tudo o que as montras dos estabelecimentos comerciais ofereciam, aos passantes como eu.
Como animada e cativante estava a narração, não tive coragem de interromper esta “miúda” do meu velho bairro, mesmo quando observei que, os seus olhos irradiavam mais brilho.
Olha Raul! …Se a memória não me falha, 3/4 anos depois do 25 de Abril de 1974, num qualquer dia útil que, não sei precisar, já no final de uma tarde em que o sol teimava em não “fugir”, quis o destino, deparar, na montra do alfarrabista, misturado com outros artigos de variadas quinquilharias, algo que, durante muitos anos, me foi familiar e, considerado na minha velha casa uma preciosidade pelos 3 homens aqui já referidos.

Virada para a montra, com a mistura de dúvidas, os meus olhos brilharam de espanto com o que acabara de presenciar. Na minha casa, quando miúda, havia um rádio igual. E reparei, que este, também tinha 1 dos seus botões que não se enquadrava, por desigual dos restantes. Será o mesmo?

Olha! …Não fui de modas e pergunto ao velho caixeiro:
…Posso ver aquele rádio?
Agora, curiosíssima, vejo disfarçada, no tampo do velho rádio, de cor de nogueira clara e já debotada, a nódoa feita pelo copo de água, que, ali em tempos, o meu pai colocava. Também, lá estavam as válvulas, as mesmas válvulas grandes e pequenas, que eu tanto cobiçava. É pá…Era o meu rádio!

E pronto… Raul. Como deves calcular, custasse o que custasse, o meu velho rádio tinha que vir para a minha nova casa do meu novo Bairro das Furnas.
Hoje, não consigo ouvir a Rádio Moscovo, não porque não gostasse de a ouvir.
Com muita pena minha, o rádio, já não tem reparação. Mas, digo-te Raul, enquanto eu viva, será considerado e estimado, como foi por aqueles 3 homens no passado.

quinta-feira, 22 de março de 2012

A MINHA VIAGEM Á GUINÉ

A PARTIDA
Este parte,Aquele parte,

E todos,Todos se vão,
Oh terra ficas sem homens,
Que possam cortar o pão.

Corria o mês de Março de 1967, no Centro Cripto do Quartel-general (QG), em Lisboa, entre três cabos e dois sargentos, quis o destino, que fosse eu a decifrar a mensagem que ditava a minha mobilização para a Guiné, ficando incorporado no Batalhão de Artilharia 1914, composto por três Companhias Operacionais e uma de Comando e Serviços, já em trânsito no Regimento de Artilharia Costa (RAC), em Parede, Carcavelos.
Não me espantou! A situação era mais que previsível para os jovens militares da minha idade.

Dou a notícia em casa à minha mãe, à namorada, hoje minha mulher. Com o meu pai, na altura internado no Centro de Saúde do Telhal, despedi-me com um abraço e um beijo, sabendo que era incerto encontrá-lo de novo com vida, por mim, que parto para o incerto, ou por ele, tendo em conta a sua debilitada saúde.

Após o curto período de férias, a 7 de Abril de 1967, um dia antes do embarque, já no quartel em Parede, entre dezenas de militares, procuro o op. cripto Justo, companheiro das noites de Lisboa, também ele mobilizado, na Companhia de Comando no mesmo Batalhão. Conheço o furriel de transmissões de nome Cavaleiro.
Aqui, além uma outra cara já conhecida. É-me indicado o Sargento a quem tenho que me apresentar.
…Onde andou rapaz? ….Não fez a instrução de aperfeiçoamento operacional (IAO), devia cá estar há um mês…!
Pergunte no QG….(Quartel General), foi a minha resposta.

Depois, foi arrumar na bagagem o camuflado distribuído e sair para jantar.Dia 8 de Abril de 1967, no cais de Alcântara, em Lisboa, despeço-me da família que me acompanhou ao embarque. Segue-se a formatura. Um emproado oficial superior e sua comitiva fazem a revista da praxe, o embarque das tropas sucede-lhe. Ao som da fanfarra militar e do acenar dos lenços, o paquete Uíge largou amarras. A Torre de Belém fica para trás, a ponte sobre o Tejo já não se vê, a terra é coisa sumida, os olhos há muito que estão rasos de água.
Tive a sorte de não ser colocado nos lugares do navio que outrora eram destinados às cargas. O meu camarote suportava oito beliches duplos. Não tive preferência da cama, uma qualquer me serviu para descansar e dormir.
As refeições foram tomadas em refeitórios, outrora salas de jantar para passageiros em 3ª classe.
Os lugares destinados às outras praças, os porões, eram degradantes. As mesas de madeira que tinham lotação para uma vintena de militares, estavam colocadas ao comprimento dos porões. Os beliches, também em madeira, acompanhava-os na altura. Os vomitados do enjoo eram constantes, a limpeza deveras precária, que, em conjunto com a falta do banho diário, o cheiro era nauseante, asfixiante. O barulho dos motores, etc., o ambiente naqueles locais era insuportável.


Durante os oito dias (mais três que o normal por avaria num dos motores) que a viagem durou, foi neste contexto que, os jovens militares, fizeram a sua vida no navio.
Inconformados com o destino, no convés, uns passeavam, outros conversavam e, ainda outros, jogavam ou viam jogar às cartas.
Uma ou duas vezes fizemos exercícios de salvamento em caso de naufrágio. Os peixes voadores, que, quase sempre acompanharam o barco, eram também motivo de entretenimento.

No dia 14 do mesmo mês, chegamos já noite alta e, amedrontados, ao destino para o qual fomos obrigatoriamente mobilizados. O pior estava para vir……a guerra.
Aqui o sofrimento a todos tocou!

O REGRESSO
NEM TODOS, E DIFERENTES

Tens em troca órfãos e órfãs
E campos de solidão
E mães que não têm filhos
Filhos que não têm pais

A tarde já vai alta.
Sem fanfarra e sem lenços a acenar, soa a sirene do navio. São menos os que partem naquela primeira segunda-feira do mês de Março de 1969. Não são os mesmos (meninos) homens de outrora, a guerra tornou-os diferentes.

Ficam para trás as águas barrentas, o navio já vai distante. Na ânsia da partida, não tive tempo para me despedir daquela terra de cor vermelha, do seu cheiro, das árvores centenárias, dos pássaros, das bolanhas, dos nenúfares, do seu magnífico pôr-do-sol, do silêncio das noites estreladas, do seu povo. Imagem que a guerra não conseguirá apagar.

Dos ausentes, em tempo, “Em nome da Pátria”, através de um qualquer oficial subalterno, naquela que foi sua morada, a notícia da morte. A família e os amigos choram a sua sorte.Com a data de cinco meses antes, a mim, e aos demais que me acompanham nesta turbulenta “viagem”, é-me entregue um “papel verde”.
“O Comandante Militar atesta o seu apreço pelos serviços prestados á Pátria na Província da Guiné”.
Aos caídos em combate ao meu lado, aos que ficaram para a vida inteira mutilados ou estropiados, não sei se a “Pátria” também lhes atestou o seu apreço.


Agora, as mesas e beliches, nos porões do Uíge, pelo seu uso, não se notam que são de madeira, negra é a sua cor. Os vomitados do enjoo já não importam. A limpeza precária e a falta do banho diário, o barulho dos motores, pouco ou nada incómoda. Repete-se a vida no convés. Só nas conversas se observam exceções, são de contentamento e alegria.
Todos acordam cedo naquela manhã de 9 de Março, a brisa do mar gela-me a cara, os meus olhos já avistam a terra que me viu nascer. Uns choram, outros abraçam-se, procuro um lugar, como muitos, na amurada do navio. Já vejo o “meu” rio Tejo e os “cacilheiros”. Todos estrategicamente se calam, para após a passagem da ponte, dizerem em uníssono……JÁ PASSOU.

O navio prepara-se para atracar, aqui, além vêm-se cartazes….Estou aqui Manuel….., Leiria. Esperamos por ti…….Família Santos. Aqui……Massarelos Presente. Os gritos de alegria com o desembarque comovem. Mães, Pais, Filhos, Mulheres, Noivas, Amigos, todos se abraçam. A nuvem negra parece ter passado e, o sofrimento acabado.

Quartel do RAL 1 nos Olivais. O aeroporto de Lisboa está por perto, entregamos o que resta dos fardamentos. Despeço-me dos meus camaradas com um até breve. Vou para casa onde a família me espera. A guerra, essa, estupidamente, durou mais cinco anos.

Nota: As quadras foram (são) cantadas pelo Zéca Afonso
Não sei de quem é a letra.

domingo, 11 de março de 2012

DUAS HISTÓRIAS DE UM DIVERTIDO MIUDO DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS XV

Naquele sábado à noite, actuava no Sete-Rios, uma banda, cujo vocalista era uma jovem bem bonita e muito graciosa no acompanhamento musical. Encantava tudo e todos, mas falhava no rock-and-roll. Musicas que nós queríamos ouvir e dançar. Sobretudo o João Alfaro.
A mãe do João dava pelo nome de Maria Alfaro. Para os vizinhos era conhecida por “Maria do Carvão”. Teve 4 filhos. 2 Meninas e 2 Rapazes – a Lurdes, o João, o Vítor e a Clara Alfaro -. Esta última filha, ainda não era nascida aquando das ocorrências mais à frente traduzidas. Esta Senhora, enquanto moradora no Bairro da Boavista, era vendedora de carvão, razão pela qual, quando veio morar para o Bairro das Furnas, é identificada por “Maria do Carvão”. Tinha casa na Rua dos Freixos, mais propriamente 2 casas abaixo onde morava o barbeiro e, também “enfermeiro”, o Eugénio.

As datas dos acontecimentos, infelizmente, já não me ocorrem, mas seguramente foi na década dos anos 60. Ouvia-se na rádio, frequentemente, o Joselito a cantar. Miúdo de nacionalidade espanhola, que encantou tudo e todos com a sua voz. Um dos seus grandes êxitos foi a “Campanera”. Que muitos, miúdos e graúdos, o acompanhavam a cantarolar.

O João Alfaro, meu grande amigo, companheiro de escola, também adorava cantar. Quem se lembra dele em miúdo, sabe do que escrevo. O João andava sempre a cantarolar e, não se pense que cantava mal. À época, a sua voz, acompanhava bem o timbre melódico das canções de êxito popular. Não me é difícil recordar este “puto”, a imitar o Joselito, quando cantava a Campanera.

Uma das vezes, o palco da cantoria, foi na entrada do velho bairro, mais propriamente no jardim da praça. O João apresentava-se em jeito e na “pose de artista”. Ora com as mãos bem perto do peito, ora, uma delas, fechada, junto à boca a “substituir o microfone”.
Foi muito gratificante vê-lo a “actuar” para nós amigos e companheiros. No final do “espectáculo”, entre risos e aplausos, vaidoso, sorridente de alegria, com uma vénia, agradeceu. Que saudades meu velho!

Por qué has pintado en tus ojeras
La flor del lírio real?
Por qué te hás puesto de seda
Jay, campanera! Por qué será?



Numa outra vez, o êxito foi muito maior. Já tínhamos 17/18 anos. Passou-se no Sete-Rios, clube situado num velho edifício, em Sete-Rios, onde naquela época, proliferavam os bailaricos, sobretudo aos fins-de-semana. Edifício que hoje sustenta alguma nostalgia ao verificar-se todo emparedado e ao abandono.
Parece que estou a ver todo o seu interior.
Logo na entrada, a sala. Muitas cadeiras em seu redor a acompanharem as paredes. Ao fundo um alto palco. Também havia alguns grandes espelhos pendurados.

Estávamos no auge do rock-and-roll, o Elvis Presley era o “grande” ídolo da rapaziada. Todos gostávamos de dançar ao ritmo das suas músicas.
Naquele sábado à noite, actuava, no Sete-Rios, uma banda, cujo vocalista era uma jovem bem bonita e muito graciosa no acompanhamento musical. Encantava tudo e todos, mas falhava no rock-and-roll.

Eu dançava com uma empregada doméstica linda de “morrer”. Quando acabei, procuro oferecer à minha companheira, no bar, que se situava no lado esquerdo da entrada, algo refrescante. Mais à frente, reparo que o João, estava junto do palco a falar com a vocalista, certamente, pensando eu, a protestar tendo em conta a falha por não se ouvir tocar as canções/músicas do “ídolo”. ...Quanto... enganado estava.

O João queria cantar. O João Alfaro, para além de querer mostrar os seus dotes, queria colmatar, naquela noite de sábado, a falha da vocalista em termos do rock-and-roll. E o seu protesto não foi em vão. No intervalo foi vê-lo no palco a dançar e a cantar à capela:

A-wop-boh-a-loo-wop-a-woh-bam-boom
Tutty frutty, ah, rutty
Tutty frutty, ah, rutty
Tutty frutty, ah, rutty

Muito bom. A restante letra foi cantada num “inglês” cuja tradução não existia e ainda hoje não existe. Mas que foi muito apreciado e aplaudido, não tenham a menor das dúvidas.
Era um miúdo muito divertido do meu velho Bairro das Furnas.
Aquele abraço companheiro. Tenho saudades de te ver.

Raul Pica Sinos
Nota: A foto do João Alfaro é no tempo da escola primária

domingo, 29 de janeiro de 2012

FOI DIFERENTE A MINHA 1ª COMUNHÃO NO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS XIV

Enrolados pela encosta abaixo, o fato ora branquinho, passou a ter a cor castanha do barro, com laivos da cor verde, por estampada alguma relva por onde rebolamos.

Já por outras ocasiões contei aos meus botões, que recordar cenas passadas no meu velho Bairro das Furnas, quando na minha meninice e adolescência, surge em mim uma paz de espírito difícil de descrever. Não questiono porquê, sei que me sinto bem. E por isso….de quando em quando, escrevo….

Na época dos meus 7/8 anos de idade, havia um “puto”, com a alcunha de “Pisco”, (aqui recordado com saudade e respeito) que na escola comigo andou. Morava no nº 3 da minha Rua dos Plátanos. Tinha como vizinhas, na casa da parte de cima, a Beatriz, e na casa da parte debaixo, a Nazaré. Esta, a irmã do Meca, era atleta na modalidade do atletismo no Clube Futebol “Os Belenenses”. Gente talvez com mais 8/10 anos de idade.

O António Manuel Soares, o “Pisco”, era um “puto” pequeno e de estrutura esguia, daí a alcunha. Rapazola bem reguila. Decerto não mais que os outros, mas sempre disposto a defender-se, ao “bilhete”, dos demais, quando as coisas não lhe corriam de feição. Também “gozão” ou “pirraceiro”, quando algo, nos outros, aos seus olhos saiam do “natural”. Mas apesar de tudo éramos muito amigos.

No velho Bairro das Furnas, a esmagadora maioria dos seus habitantes era de fé católica e casados pela igreja. Aliás; o ser casado pela igreja, era uma condição para o usufruto da habitabilidade, mas isto é outra história. Consequentemente, com os filhos, havia a prática para além de os baptizar, os incentivar, através da organização cristã existente, na prática da educação católica – catequese – não só para receberem a 1ª comunhão, mas também, mais tarde, a crisma. Assim, todos os anos, era rotina haver um destes eventos. Estes jovens, quando ao receberem a 1ª comunhão, tinham como condição, apresentarem-se solenemente vestidos com roupa branca e, transportar na mão uma vela adornada de fita azul.

Como estava feliz a D. Georgina, minha querida mãe, no dia da minha 1ª comunhão. Não posso precisar se a roupa que eu trajava era emprestada, ou se foi comprada por via de algo necessariamente “emprestado” na frequente casa de penhores. Uma coisa é certa. O contentamento da minha mãe, contradizia com o meu descontentamento. Que “seca”! Todo aquele aparato envolvente ao acto, não estava de acordo com a minha forma de estar. Não me sentia bem dentro daquele traje branco. De tal forma me sentia incomodado que, para fugir aos olhares de todo aquele aglomerado de gente que assistiu à solene cerimónia, o meu trajecto de regresso a casa, não teve em conta a bela escadaria da igreja, mas sim o carreiro de terra batida que, existia por detrás da escola dos rapazes e, que dava acesso ao campo da bola, onde hoje existe o chamado Bairro dos Sargentos.

Oh…Azar dos azares. Mais ou menos a meio do citado carreiro, cruzara-se comigo o nosso “Pisco” que, não perde a oportunidade de me gozar a bom gozar…Olha o branquinho! Olha o rajá….Fruta oh chocolate….Olha… pareces o Estica…Rindo a bom rir da vestimenta cá do rapaz!
Zangado que eu estava, daqui ao estalo no “Pisco” foi um ápice! Enrolados pela encosta abaixo, o fato ora branquinho, passou a ter a cor castanha do barro, com laivos da cor verde, por estampada alguma relva por onde rebolamos. Não vale a pena descrever o que se passou em minha casa. A cena foi de tal forma contundente que, por muitos anos que viva não a vou esquecer.

Descansa em paz meu amigo e miúdo da minha Rua dos Plátanos.

A foto é o "Pisco" na idade escolar