domingo, 20 de maio de 2012

HISTÓRIAS QUE O MEU VELHO BAIRRO ENSINOU XX


…Apraz-me sentir, pelas manhãs, o vento fresco na cara. Ver o “dançar” das árvores e o entrelaçado da hera que, sempre arranco uma folha...
…Como as árvores que dão como frutos a amizade. Espero pacientemente, que o “tempo e o vento” as façam cair quando essas já estão podres.

O levantar cedo nunca foi para mim grande preocupação. Mesmo em pequeno, quando ao acordar, era lesto no arrebitar. Talvez pelo costume de minha mãe que, antes de sair para o trabalho, ficava com a certeza que o seu filho tomava o pequeno-almoço que preparara.

Era certo que as horas das aulas ainda não estavam por perto. O compasso da espera permitia fazer uma, ou outra, redacção a que estava obrigado. Caso contrário, fizesse chuva ou sol, fazia-me ao caminho.

As escolas (dos rapazes e das raparigas) ficavam por detrás da igreja, situadas na colina, lá bem no alto, do velho bairro. No seu caminho, tinha todo o tempo, para chutar as pedras soltas, da bonita escadaria, ladeada por ciprestes, que lhes dava o acesso. Olhar o “bailado” e o “sentir” da cumplicidade das árvores em que os seus frutos são os pássaros. Espreitar, os ninhos previamente, ou não, identificados. Responder aos seus cantares com o assobiar. Eram, no dia-a-dia, as rotinas dos meus trajectos.

Já na tropa, sobretudo em África, no país em que estive dois anos mobilizado, estes hábitos não se perderam. Acresciam a toda esta vivência de miúdo, outras realidades: O sumido canto dos galináceos existentes na tabanca, do piar das aves rapinas, o coaxar das rãs e, sobretudo, do cheiro da terra que pairava no ar. De manhã, bem cedo, tudo isto, como no passado, me encantava.

Agora, já a curvar as costas, proveniente da idade, ainda me levanto cedo. Mesmo quando aos fim-de-semana, o mais comum dos mortais gosta de estar enrolado, mais umas horas, nos cobertores.

É certo que, já não me faço ao caminho desabrigado da chuva, como fazia em pequenote. Quando o tempo permite, apraz-me sentir, pelas manhãs, o vento fresco na cara. Ver o “dançar” das árvores e o entrelaçado da hera que sempre arranco uma folha. Ouvir, como outrora, o “acordar” da passarada. Ver do seu jeito o banho, que sempre fazem nas poças existentes, repelindo repetidamente a água das pequenas asas. Gosto ainda de responder, como ontem, ao canto das rolas e ao assobio dos melros.

Nas presentes manhãs, é neste quadro que balançam os mais variados pensamentos. É neste quadro que arrumo as ideias do projecto da vida e, me penitencio dos erros cometidos. Procuro ser como as árvores em que os seus frutos são amizades. Ter uma relação de vida pacífica. Nunca fui apressado em sacudir as dúvidas do acaso quiçá destroçado. Espero pacientemente, que o “tempo e o vento”, as façam cair quando já estão podres.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Pelo o horror e pelo sacrificio e ainda em memória dos que tombaram nesta guerra estúpida e desnecessária

GUINE - NOVA SINTRA

                                 O PÃO QUE O DIABO AMASSOU


…Meu Capitão, eu tenho muito medo, não me deixe ir para Nova Sintra, tenho um mau pressentimento… -
…Vou falar com o Comandante, logo te digo…respondeu-lhe o Capitão.
…Então meu Capitão já tem resposta para mim? –
…Tenho! O Comandante não abre excepções. Vão todos.
…Ninguém fica para trás, olha que insisti bastante!
O Ramiro Neto morreu em Nova Sintra, a 13 de Maio de 1968.


Com “aviso prévio”. 7 Dias depois, aquando da primeira flagelação do inimigo (IN), às posições das nossas tropas (NT), estacionadas em Nova Sintra - Guiné, o nosso bravo camarada morreu. A morte foi originada pelo estilhaço de um rebentamento de uma granada de morteiro. Pensava ele estar protegido, na vala-abrigo que construíra, pela tampa de chapa de bidão.
O fragmento entrou pelo único buraco que deixou aberto. Foi a 13 de Maio de 1968.

Na zona operacional do comando do Batalhão de Artilharia (Bart1914), a tabanca de Tite, que ladeava a sul e a norte o aquartelamento das nossas tropas (NT), era o maior agregado populacional do perímetro operacional, seguindo-se as tabancas de Bissassema, Jabadá e Fulacunda, de entre as demais.
        Esta dispersão populacional, contornada por rios, bolanhas e matas, rica no cultivo orizícola, em pecuária (bovino) e, na suinicultura (suínos), possibilitava, ao inimigo (IN), grande mobilidade no desencadear das acções de guerrilha, na flagelação aos nossos aquartelamentos, e, no controlo demográfico e político-administrativo das populações.
        Consequentemente, ainda permitia sacar, dos habitantes, farto abastecimento em géneros, roupas (panos), e elevado recrutamento de carregadores para o transporte do material bélico.


Toda esta magnificência operacional do IN, obrigava a implementar, da nossa parte, um vasto e variado conjunto de operações de combate, e, simultaneamente desobstruir estradas e caminhos, há muito emaranhados por denso matagal, criar novos aquartelamentos na área, com foi o caso em Nova Sintra.
         Anulada a guerrilha nos trilhos. Desobstruídas as estradas e os caminhos, reparados, reconstruídos ou mesmo construídos os pontões, veio permitir utilizar meios, até aí impossibilitados, nomeadamente os carros de combate – Daimlers – (jeeps blindados) e, viaturas ligeiras e pesadas para transportes das tropas.


100 METROS QUADRADOS DE HORROR


Dos nossos opositores, todas estas acções não podiam ficar sem resposta. Detentores do território, organizados, bem armados e municiados, procuravam, energicamente, impedir a construção do aquartelamento, montando, para o efeito, novas emboscadas e, a colocação de dezenas de minas no terreno e granadas accionadas por fio de tropeçar. Destruíram, por várias vezes, os pontões já implantados, colocaram abatizes armadilhados e, organizaram obstáculos por grossos ramos de árvores, fortemente ligados ao solo com as extremidades aguçadas.

No entanto nada destas acções, viriam a impedir as NT de consolidar a presença no terreno. Chegados ao local, despejadas as viaturas, os trabalhos iniciaram-se a ritmo acelerado. Isolou-se o perímetro com o arame farpado, construíram-se valas-abrigos, a norte e a nascente, talvez com 2 metros de largo e 5 metros de comprimento e, as latrinas. Deu-se começo às fundações para os futuros pavilhões e, postos de guarnição para a defesa das posições. Começou-se também a limpar terreno com vistas a abertura da pista de aterragem.

Conta o Ex-Furriel Domingos Monteiro:
…As moscas e os mosquitos eram “personagens” deveras e muito incomodativas de dia. Á noite faziam desesperar com as sucessivas picadas, nem mesmo a roupa que trazíamos vestida as conseguia travar!
Acrescentando:
…As horas que passavam na escuridão daquela selva, mais pareciam dias. As chuvas também estiveram presentes. Quando, passados 7 dias de medos e incertezas, a 13 de Maio de 1968, pela calada da noite, o perímetro de terra e lama onde as NT se aquartelavam, com cerca de 100 m2, rodeado de arame farpado, é atacado, em força, por cerca de 100 homens. Causando às NT, 1 morto e 19 feridos graves que, muitos foram evacuados, nessas mesma noite, por helicópteros directamente para Bissau. Do lado contrário, as mortes confirmadas foram em número de 26 e feridos 31…
…Na manhã seguinte e durante o dia os trabalhos continuavam. No perímetro patrulharam-se as estradas e os caminhos, aqui ali rastos de sangue e material bélico ligeiro que, foi deixado para trás. Os nossos alimentos durante dias, foram as rações de combate. Na água que bebíamos colocávamos comprimidos para evitar as diarreias e febres…

Por sua vez o Carlos Leite (Reguila) refere:
…Na sucessão dos dias tudo era igual, o trabalho com as pás e com as picaretas calejava-me as mãos, o medo era constante, mas a disposição para a luta sobreponha-o…
…O cantarolar da passarada não me parecia ter o mesmo encanto…
…No terreno lamacento, alguns sapos, eram “sticados” pela pá ou com a picareta…
Refere ainda:
…Pelas noites dentro o sofrimento era maior…
…Aqui ali ouvia o ladrar dos cães…
…O vento ora forte ora brando, fazia-me confundir o “som” da selva...
…Ouvia as flagelações do IN a outros aquartelamentos e questionava-me; quando será, novamente, a nossa vez...que foram muitas…
…Eram nestes momentos que a falta da família e dos meus amigos mais se sentia…


Com “aviso prévio”, foi no breu da calada noite de vento brando que, o nosso amigo e querido camarada Neto morreu.
        A morte foi originada pelo estilhaço de um rebentamento de uma granada de morteiro. Pensava ele, na vala-abrigo que construíra, estar protegido pela tampa de chapa de bidão. O fragmento entrou pelo único buraco que deixou aberto. Foi a 13 de Maio de 1968.

Dá cada dia ao homem novo alento
De conquistar o bem que lhe é negado
Dá a conquista um puro sentimento
As balas dão o sangue derramado


domingo, 29 de abril de 2012

NA MINHA RUA DOS PLATANOS TAMBÉM HAVIA FADO. ESTE É CANTADO POR LUIS SILVA XIX

Este "miúdo" cresceu e viveu comigo na minha Rua dos Plátanos no velho Bairro das Furnas.
Andou comigo na escola primária, partilhamos muitas brincadeiras com os demais miúdos.
Seu pai, o Sr. Desidério, assim como o seu tio Camacho, eram amantes do fado. O primeiro tocava guitarra com primor.
Não era difícil ouvir, sobretudo aos fins de semana, a sua guitarra trinar. Acordes que seu tio Camacho acompanhava.
Este "miúdo" que, cresceu e viveu comigo na mesma rua, não podia também deixar de cantar o fado e aqui vos deixo um video da minha autoria, com um dos mais belos fados deste meu amigo de infância.
Obrigado Luís

sexta-feira, 27 de abril de 2012

A MINHA FRUSTADA “FUGA” DA GUINÉ


Os 20 dias “desenfiados” não foram fáceis. Era muito o medo derivado à situação que criei! Com a agravante de, por uma ou duas vezes, chegaram perguntas do género …“quando regressas ao mato (Tite)?”... Perguntas feitas por graduados em passagem por Bissau.

Já sem os “ossitos” e, tirados os pontos, era vê-lo enfiado na lancha de borracha a toda a velocidade pelo Geba acima, mais bem amedrontado que no primeiro dia que cheguei.

O Capitão médico que esteve comigo deslocado em Tite, na Guiné-Bissau, era um homem de estrutura corpulenta e, parecia ter entre os 45/50 anos de idade. Apresentava-se todos ao dias indignado, não só por em desacordo com a guerra, mas sobretudo incomodado por ter sido obrigado a deixar para trás mulher e 2 filhos e, uma vida profissional estabilizada.

Acontece que, mais ou menos a meio da comissão, desconhecendo as razões das dores nos joelhos, resolvi questionar o meu camarada doutor que, segundo a sua observação, sem rebuço me disse: …As tuas dores derivam de ramificações ósseas (exostoses), que anatomicamente, nada têm a ver com o teu esqueleto. Acrescentando, …sem a operação, há o risco, com o crescimento das mesmas, da perfuração dos tecidos da carne…

Decorria o mês de Setembro do ano de 1968, recebo uma mensagem criptada e confidencial, dando nota que o Capitão médico, aquartelado em Tite, … tinha guia de marcha para se apresentar no Quartel-general (QG), em Bissau, aditando …a fim de ser indigitado diretor do Hospital Militar….

Dias passados, voltei a falar com o médico, perguntando-lhe …Doutor, quando estiver em funções no Hospital Militar, trata do meu problema…?

…Aguarda pela chamada...disse. Chamada esta que, não demorou 15 dias após a designação das novas funções.
Já em Bissau, no dia antes do internamento, encontrei-me com o médico, à noite, na esplanada do café Portugal. Convivemos bebendo umas cervejas. Discutimos problemas políticos; a saturação da guerra, no regresso a casa, etc. Pedindo-lhe, oportunistamente, a passagem de uma guia de marcha para ser operado em Lisboa.

A sorrir disse o médico …por minha vontade ias já camarada...

Concluindo: …Pica Sinos, sabes que nós, no hospital em Bissau, amputamos/cortamos, todos os dias e, em quantidade, dedos, braços e pernas, diz-me; … que justificação existe para não cortar, os teus “pequenitos ossitos” aqui em Bissau?
Fiquei ….”Lixado”! Embora soubesse que o meu camarada médico e, diretor do hospital, tinha razão, mas…
Operado ao primeiro joelho, uma semana depois da convalescença, na manhã de 01 de Novembro de 1968, foi-me passada guia de marcha para regressar a Tite. O documento anexo referia que, os pontos seriam retirados em 10 dias, no mato, na enfermaria do quartel. E que passados mais 10 dias teria que apresentar novamente no hospital, em Bissau, a fim de ser operado ao outro joelho.

Na noite desse dia, 1 de Novembro de 1968, ao saber que o aquartelamento, em Tite, estava a ser alvo de mais uma flagelação, desloquei-me à muralha do rio Geba, não conseguindo descrever com exatidão, o meu sentimento, ao saber da sorte dos meus camaradas naquela hora.

Infelizmente era hábito, muitos dos militares que paravam à noite pelos cafés, em Bissau, correrem para a paredão do rio Geba, no intuito de observarem os clarões e os estrondos dos rebentamentos, quando o aquartelamento era flagelado. O “espetáculo era sofrido, amargo, triste e revoltante”.

No dia seguinte sou conhecedor que os resultados foram devastadores, quer em termos corporais, (1 morto e 3 feridos graves evacuados) quer em termos materiais que, consequentemente me tirou toda a vontade/coragem para regressar a Tite.

Dito e feito, nessa mesma manhã em vez de apanhar o bote que me levava ao Enxudé, porto de mar que servia Tite, dirigi-me novamente ao hospital e pedi ao Cabo Silva (enfermeiro da área ortopédica) se podia passar as 20 noites naquela enfermaria, até me operarem ao segundo joelho?
Ao concordar, passei a….“Desenfiado”. (termo em calão que se aplica ao militar quando em falta no agrupamento)

Não se tornou difícil estar na situação de faltoso no quartel. O hospital não deu informação no aquartelamento do meu estado clinico e, eu dei nota que estava no quartel dos adidos à aguardar a marcação da segunda operação. A justificação foi aceite pela chefia hierárquica das transmissões e, era o que mais me interessava.

Tinha agora um segundo problema…. As refeições.
Podia dormir no hospital, mas comida “cá tinha”.
Valeram-me, quando não tinha dinheiro, os “putos do pé descalço” da minha infância – (o Tony, do Bº Grandela e, o Mané, de Campolide) – .
O primeiro enfiou-me durante 8 dias no “refeitório” de uma lancha de desembarque (LDG) da marinha que, estava ancorada em Bissau e, cujo comandante estava em férias em Lisboa.
O segundo, no resto do tempo, foi no refeitório da Policia Militar no Quartel-general.

Não se pense que os 20 dias “desenfiados” foram fáceis. Era muito o medo derivado à situação que criei! Com a agravante de, por uma ou duas vezes, chegaram perguntas do género …“quando regressas ao mato (Tite)?”... Perguntas feitas por graduados em passagem por Bissau. Mas como me viam coxo lá iam “engolindo”.
Concluindo: Dias depois, já sem os “ossitos” e, tirados os pontos, era vê-lo enfiado na lancha de borracha a toda a velocidade pelo Geba acima, mais bem amedrontado que no primeiro dia que cheguei.

Foto: Antigo hospital em Bissau, agora em ruinas

terça-feira, 10 de abril de 2012

TALVEZ NÃO SAIBAM (?) QUE A REVOLUÇÃO DE ABRIL DE 1974...

Na sequência do golpe militar de 28 de Maio de 1926, foi implementado em Portugal um regime autoritário e fascista. Em 1933 o regime é remodelado, auto-denominando-se Estado Novo. Oliveira Salazar, Presidente do Conselho de Ministros, até então Ministro das Finanças, passou a controlar o país não mais abandonando o poder até 1968.

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, que a comunidade internacional e a ONU, vinham a defender a implementação de uma política de descolonização em todo o mundo. O Estado português recusa-se a conceder a autodeterminação aos povos das regiões colonizadas. Salazar, praticando uma política de isolamento internacional sob o lema Orgulhosamente só, levou Portugal a sofrer consequências extremamente negativas a nível cultural, económico.

Em Março de 1961, no norte de Angola acaba por estalar uma sangrenta revolta. A chacina merece de Salazar a resposta …Para Angola rapidamente e em força….

O regime fascista, defensor de uma política colonialista, alimenta as fileiras da guerra colonial, já então espalhadas pela Guiné e por Moçambique, com o propósito de manter as chamadas províncias ultramarinas sob a bandeira portuguesa com o resultado de milhares de mortos entre os povos.

O ditador Salazar, doente e senil, foi afastado do Governo em 1968. Américo Tomás, então Presidente da República chamou, a 27 de Setembro deste mesmo ano, para o substituir, Marcelo Caetano. Este, em tempo afastado do Governo por Salazar, veio a seguir a mesma política, no que diz respeito às províncias ultramarinas.

Os militares portugueses começaram a revelar grande desgaste e mesmo desprestígio com a continuação da guerra colonial que, se mantinha há mais de dez anos, concluindo que não era militarmente que a questão do ultramar se resolveria.
As eleições legislativas, em Portugal, ocorridas em 1973, não trazem alterações nem melhorias visíveis.

Começam a organizar-se grupos conspiratórios entre os capitães do exército, motivados também por reivindicações de carácter corporativo por parte dos oficiais do quadro permanente, contra o regime e contra a manutenção da guerra.

Paralelamente alguns sectores das finanças e da economia, classes médias e movimentos operários, constituem um importante factor na contestação à política do regime e, apresentavam-se, então, concordantes quanto à independência das colónias que, acabaria por acontecer, pondo assim termo a uma guerra que se prolongou por 13 anos.

A constituição do MFA resulta de uma reunião clandestina no Monte Sobral, em Alcáçovas, sendo que a primeira reunião clandestina de capitães foi realizada na Guiné-Bissau a 21 de Agosto de 1973. A guerra colonial constituiu a motivação dominante deste movimento criado por militares dos três ramos das forças armadas; exercito, aviação e a marinha.

O Movimento estuda e planeia a execução do golpe de Estado. A 24 de Abril de 1974, desencadeia tomada de posições, a partir comando no quartel da Pontinha em Lisboa. Desenvolve acções após a canção “E depois do Adeus” de Paulo de Carvalho (23horas) emitida via rádio pelos Emissores Associados de Lisboa. E dá início a ocupações no terreno, a partir do segundo sinal com a transmissão da canção “Grândola Vila Morena” de Zeca Afonso (00,20horas do dia 25 Abril).

Com o amanhecer as pessoas começaram a juntar-se nas ruas, solidários com os soldados revoltosos; uma florista, do seu molho de cravos que transportava, colocou um na espingarda de um soldado, de seguida todos o fizeram ficando os cravos símbolo da revolução.

As forças da Escola Prática de Cavalaria, comandadas pelo Capitão Salgueiro Maia, fazem a ocupação do Terreiro do Paço em Lisboa. Mais tarde a do Quartel da GNR no Largo do Carmo, onde se encontra refugiado o chefe do Governo, Marcelo Caetano, rendendo-se final do dia.

No dia seguinte forma-se a Junta de Salvação Nacional, constituída por militares que, procederá a um governo de transição. O essencial do programa do MFA tem como pontos fundamentais. Democratizar, Descolonizar, Desenvolver.

Entre as medidas imediatas da revolução dos cravos, contam-se a extinção da PIDE/DGS e da censura. Os Sindicatos passam, na sua grande maioria, a ser livres, os partidos são legalizados e, os presos políticos libertados.

Desenvolvem-se medidas atinentes para acabar com a guerra e, de preparação da independência das colónias ultramarinas. Facto que ocorre entre Outubro de 1974 e Novembro de 1975.
Da Guiné-Bissau, o último contingente militar regressou a Lisboa em 15 de Outubro.

Hoje, Abril de 2012, Os sucessivos governos, por força de politicas de direita, muitos dos direitos conquistados com a revolução de Abril de 1974 e, amplamente consagrados na Constituição da Republica Portuguesa, foram retirados. Torna-se necessário mudar de governo, mudar de políticas, defender Abril.

25 Abril Sempre!

Raul Pica Sinos
Bibliografia: Centro Documentação 25 Abril da Universidade de Coimbra,
Dicionário Enciclopédia Wikipedia. Foto de Carlos Granja

domingo, 8 de abril de 2012

HISTÓRIAS DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS XVIII

…Eu direi que, embora qualquer local servisse, o sítio privilegiado, para os rapazes da minha geração, era o terreno de terra batida, por detrás da praça, a caminho do campo da bola. Aqui não havia “velhas” a chatear e, a mandar-nos calar, dos barulhos resultantes da algazarra motivada pela paixão da competição...

…Referir que para a construção das covas em terra batida, muitas vezes utilizavam-se os calcanhares. Quando o terreno era rijo, para o amolecer, uma mijadela (q.b.) auxiliaria...

Num destes dias, ao atravessar uma rua, deparo com um berlinde perdido no asfalto. Era um berlinde de dimensão e diâmetro acima dos normais. Bem bonito. Incorporava várias meias luas de cores diversas. Pelo respeito e pelo divertimento que, os bilas me ocasionaram no passado, enquanto menino, não resisti. Curvei-me e apanhei-o. Tenho-o guardado.

Creio não ser difícil encontrar berlindes nas ruas, sobretudo quando há colégios/escolas para miúdos por perto. Como eu me lembro, a caminho da minha escola primária, ou na volta para casa, da doidice por “jogatanas” com os bilas, sobretudo no jogo das 3 covinhas, que me “obrigou” várias vezes a chegar atrasado às aulas, tal não era a paixão.

Na verdade, o calor dado às brincadeiras, não ficava só pelos jogos dos berlindes nas diversas modalidades. Muitas outras brincadeiras ocupavam o tempo do recreio e, não menos apaixonantes, nomeadamente do peão. Também gostava muito de “andar/correr” com o arco, este, quando acionado com o auxílio de uma gancheta. E o gozo que dava corridas com os carros de lata, feitos com as caixas da graxa e das sardinhas que, construía. Rememoro os jogos; do lenço, da cabra-cega e da macaca, sem bem que, para com estes, a minha atração era menor.

Sobressalta-me, no momento que escrevo estas memórias, um misto de alegria e de nostalgia. Alegria; por relembrar as reinações, as arrelias, as quezilas, resultantes das competições com os “putos” do meu bairro. Nostalgia; por razões sentidas pelo brilho, ao “regressar”, no pensamento e na escrita, às brincadeiras do passado.

Voltando ao jogo das 3 covinhas (bilas), que, privilegiava, nunca é demais recordar que, algumas vezes, quem perdia e, não queria pagar o justo “tributo”, ganhava, por via disso, umas chapadas. Seguia-se; “um agarra aqui, um agarra acolá”, ou “um puxa camisola”, dando origem, não raras vezes, a estatelamentos, pelo chão, dos “beligerantes”.

O sururu era ainda pior, quando sujo e roto chegava a casa. No entanto, os desentendimentos com a rapaziada, (quando “aceites” as explicações), eram “sol” de pouca duração, mas… a diversão quase sempre era dada como acabada.

Para se jogar, raras eram as ruas, no velho Bairro das Furnas, que não tinham buracos construídos por rapazes e raparigas. Eu direi que, embora qualquer local servisse, o sítio privilegiado, para os rapazes da minha geração, era o terreno de terra batida, por detrás da praça, a caminho do campo da bola. Aqui não haviam “velhas” a chatear e, a mandar-nos calar, dos barulhos resultantes da algazarra, motivada pela paixão da competição. Quem se lembra, sabe que naquele sítio, no lado esquerdo desta larga vereda, acompanhavam algumas oliveiras e outras árvores de média dimensão. No clivo, estavam em construção alguns prédios na Rua das Furnas.

Quase todos os miúdos levavam os berlindes num pequeno saco de pano. Também possuía um. Tinha um atilho em cima, onde ao puxar, o saco ficava fechado. Dentro, transportava berlindes de todos os tamanhos e feitios. As cores e os nomes variavam; na generalidade e, em maior quantidade, chamavam-se guelas, mas ainda havia; os carolos que, eram mais “fortes”, com vistas a aguentarem melhor as piladas. Com o mesmo objetivo, as esferas de metal. Em menos quantidade e, bem guardados; os abafadores, as leiteiras, os olho-de-bois, etc..

As regras do jogo, das 3 covinhas, eram bem simples: Obviamente, em primeiro lugar, construíam-se as 3 covinhas que, distavam entre si um passo bem largo. Referir que, para a construção das covas em terra batida, muitas vezes utilizavam-se os calcanhares. Quando o terreno era rijo, para o amolecer, uma mijadela (q.b.) auxiliaria.

Prontas as covas, decidia-se quem seria o primeiro na competição. Como? Um de cada vez começava o jogo com o arremesso do bilas, tentando acertar na terceira cova na sua frente. No arremesso, os jogadores posicionavam-se, se quisessem, inquinados para a frente, mas nenhum dos pés, podia pisar a primeira cova. De todos os jogadores, aquele que conseguia colocar o bilas, mais perto do buraco, ou acertar dentro dele, jogava em primeiro lugar. O objetivo consistia em fazer um percurso de ida e volta e, terminar na cova onde se começara. Mas…

Se falhasse deixava o bilas onde parasse. Seguia outro jogador. Assim sucessivamente. Se se chegasse a “fazer” todos os buracos, ganhava-se. Era então pago ao ganhador o “tributo” combinado (geralmente 2 ou 3 bilas).

Como se “matava” ou ganhavam os bilas?

Imaginemos que no desenrolar do jogo, e depois de se fazer as 3 primeiras covas, eu acertava no buraco seguinte. Tinha o direito, com as piladas “matar” os berlindes que estivesse (ou não) mais próximos desse buraco. Para isso, era-me permitido utilizar um palmo da mão que, não raras vezes fazia “aumentar” o seu tamanho (o espaço passava de 15 para 20 cm). Seguia para o próximo buraco e, a cena repetia-se com os bilas mais próximos, se conseguisse conquistar o 6º buraco, o jogo acabava, ganhando a todos os bilas em competição.

Porque não um dia destes um grupo de “cotas” fazer uma partidinha com os bilas dos seus netos? Com uma condição: Quem derrotado, aceitar com fair play a derrota!

Raul Pica Sinos
Notas:
Texto com a participação de Teresa Carvalho (no relembrar nomes dos bilas e modalidades)
Foto do topónimo da criação do autor
Fotos Google, dos meninos a jogar (com montagem do autor) e berlindes

E o que já disseram as “maria-rapaz”!


Eu aceito essa jogatana, tenho "guelas" cá em casa, sempre fui uma Maria Rapaz e as melhores covas para se jogar ao “guelas” na minha zona, ficava praticamente em frente à minha casa, na rua das Tílias, onde existia uma Geradora de electricidade e à frente um espaço relativamente razoável onde existiam as 3 covas de jogo.
Tive sempre a sorte de conter um "abafador", lembraste como eram? Normais com as particularidades de ter uma risca preta que ia de um lado ao outro do guelas, ao trocarmos 3 vezes com o nosso abafador num dos berlindes de alguém, esse alguém ficava sem esse mesmo berlinde e automaticamente era nosso.
Eu não os guardava em nenhum saco, na minha geração, muito depois da tua, usávamos garrafas e ficávamos orgulhosos quando a conseguíamos encher até cá acima de “guelas”, sempre tive uma grande variedade tanto de cores como de tamanhos, os grandes lembro me de exibi-los com o maior orgulho como de um tufo se tratasse, comprei alguns na D. Olívia, outros e a grande maioria eram "abafados"....reguila eu!!!!
Mónica Carvalho
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Olá Raul
Tudo bem contigo e família.
Nós estamos bem graças a Deus. Sabes com quem eu jogava o bilas....com a Fátima Alves, irmã do Aníbal, (o Tripa ) na rua das Nogueiras, quando eu morava na rua dos salgueiros...dava-lhe cada puxão de cabelos que nem imaginas....era só a brincadeira não correr bem e pumba....ás vezes levava eu para não me armar em espertalhona.....
Belos tempos.
Uma bjoca
Fernanda Arsénio
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Meu Querido
De facto, o texto está absolutamente delicioso, e lembro-me agora que o outro jogo não era o círculo mas sim o "roda". Voltando ao teu texto; como seria de esperar, está um texto bestialmente bem escrito e como a exemplo de outros, transporta os seus leitores para o cenário da história.
Parabéns meu amigo
Jinho gd
Té (Teresa Carvalho)
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sábado, 31 de março de 2012

COMO ERA BONITO O COMPASSO, EM DOMINGO DE PÁSCOA, NO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS XVII

…Era pela manhã que se ouvia o som constante da sineta a anunciar o compasso, accionado pelo Sr. José – o jardineiro -. Com uma opa vermelha vestida.
Atrás, de traje igual, - o sacristão -, o Sr. Cristóvão, homem alto e de voz forte. Carregando na sua frente, de dimensão modesta, uma cruz, com o Jesus pregado...



…Creio que uma boa parte de quem não abria as portas, neste domingo de Páscoa, era fundamentalmente por vergonha da sua pobreza.
Estou convencido, por aquilo que assisti, que tais famílias não tinham sequer dinheiro para comer, quanto mais para dar dinheiro e amêndoas ao padre, que com elas durante o ano nada repartia...



Um conjunto de amigos foi chamado a um almoço, lá para os lados das Olaias, na casa da Nelinha. Esta grande amiga foi (é), uma das “Miúdas” da minha rua, do velho Bairro das Furnas que, um dia me fez um pronto “xó pra lá”, quando lhe procurei roubar um beijo, debaixo da figueira, que, existia no seu quintal. Mas deixemos isto para outra ocasião.



Continuando; Na chegada a casa, depois dos beijinhos e abraços e, certamente, tendo em conta a aproximação do período da Páscoa, alguém ofertou a esta querida amiga, um pacote com variados e diferentes tipos amêndoas.
O gesto foi muito admirado, dando para ver, as ditas cujas, “partirem”, de forma “acelerada”, do recipiente em que foram colocadas.



Bonita foi a controvérsia que originou na apreciação das diferentes variedades, de tão apreciado e gostoso produto de torrefacção ou caramelização de frutos secos, ou com outros recheios.

Dizia uma. Ah… gosto muita das amêndoas torradas…
Dizia outra…Eu gosto daquelas que têm no recheio licor ou chocolate…
Retorquiu outra….Ah… eu também gosto muito de amêndoas, mas não arrisco comê-las, só chupa-las, por via da minha placa dentária…



Mas, o mais importante, foi alguém se ter lembrado das amêndoas oferecidas ao padre, no período da Pascoa, nas casas quando benzidas, do nosso velho Bairro.



Como era bonito o compasso (andamento), no domingo de Pascoa, no velho Bairro das Furnas!
Lembro-me que, uma semana antes, começavam os preparativos do povo. Os muros e as escadas das velhas casas eram caiados. Os ripados dos quintais, virados para a frente, eram arranjados e pintados quanto bastasse. Aproveitava-se para podar as flores. Tudo que era restolho ou lixo era retirado. Uma ou outra peça de roupa, a custo, quiçá ao rol, era comprada.



Ao tempo, todos primavam por vestir o que melhor conservavam. Aproveitando para estrear, nesse domingo, uma ou outra peça de roupa. As janelas eram engalanadas com colchas e outras coberturas das camas, por sinal bem garridas. Os crentes, tudo bem tratavam para receberem nas suas casas, Jesus pregado na cruz.



Era pela manhã que se ouvia o som constante da sineta, a anunciar o compasso, acionada pelo Sr. José – o jardineiro -. Que trazia vestida uma opa vermelha.
A atrás, de traje igual, - o sacristão -, o Sr. Cristóvão, homem alto e de voz forte. Carregando na sua frente, de dimensão modesta, a cruz com o Jesus pregado.
O padre vinha atrás acompanhado de 2 miúdos. Estes, vestidos com trajes em acordo com a cerimónia. Um transportava o incensário, o outro, transportava o balde da água benta, lá dentro o espargidor. O padre apresentava-se de batina branca, com as mãos escondidas pela estola, de cor verde, colocadas sobre a barriga.
Adultos e miúdos, estes, bem desinquietos, finalizavam o cortejo.



As casas, cujos donos as queriam ver abençoadas, tinham a portas abertas. O sinal que era dado ao sacristão, para o sacerdote entrar.
No interior da casa, sobre a mesa, havia sempre um prato com algum dinheiro e, amêndoas.



Aleluia, Aleluia… dizia o padre.
Estendendo a cruz para permitir que o crente beijasse os pés do Senhor.
Aleluia, Aleluia… repetia o sacristão.
Seguia-se a bênção, ao mesmo tempo que o seu ajudante movimentava o incensário, purificando o lar com o incenso queimado, proveniente de uma qualquer árvore aromática.
Por fim, o dinheiro era recolhido pelo padre. Na rua, as amêndoas oferecidas, eram atiradas aos miúdos que, se empurravam para as apanhar.



As portas das casas que se encontravam fechadas, a este costume religioso, havia sempre vizinhos algo criticadores, dizendo não raras as vezes:



…Olha aquele não é crente…
…Aqueles ali são contra a igreja…
…Caramba…a porta abre-se a toda a gente…
…Olha …aquele, não deixa a mulher e a filha beijar o Jesus…



Creio que uma boa parte de quem não abria as portas, neste domingo de Páscoa, era fundamentalmente por vergonha da sua pobreza.
Estou convencido, por aquilo que assisti, que tais famílias não tinham sequer dinheiro para comer, quanto mais para dar dinheiro e amêndoas ao padre, que com elas, durante o ano nada repartia.



Assim era, o compasso no Domingo de Pascoa, no meu velho Bairro das Furnas.



Nota: Agradeço à Clarisse Caetano, à Helena Ferraz e à Manuela Silva as dicas que me deram, pois essas dicas o texto não seria tão “rico” em termos históricos.



A foto do cruzeiro foi montada, pois tinha pessoas na sua frente. Mais uma vez agradeço à Clarisse Caetano por permitir as alterações na foto que dispensou.