domingo, 10 de junho de 2012

TRADUZIA UMA PAISAGEM EXUBERANTE A COLINA DO VELHO BAIRRO DAS FURNAS XXII

… Raros são os testemunhos da importância deste espaço, outrora “salpicado” de oliveiras…
… Conseguia traduzir um misto de paz e sossego a quem o visitava...
… Fechava todo este panorama, uma linda escadaria...
… Muitos furnianos, felizmente o recordam com saudade…

Sabe-se que a construção, do velho bairro, foi dada como concluída em 1946. Recebe 3 três meses mais tarde, os primeiros habitantes. Foi edificado nos terrenos da chamada Quinta das Furnas, pertença da Camara Municipal de Lisboa (CML), conferindo, segundo o programa de Casas Desmontáveis, incerto na Lei 28912 de 1938, ao realojamento, de famílias de rendimento muito pobre.

O terreno onde foi erigido apresentava-se, a oriente, com uma colina “salpicada” de oliveiras. Quem entrava pela Azinhaga (rua) das Furnas, olhando o chão na sua frente, na direção ao sul, deparava um ligeiro declive, a “cair” para a aba da serra do Monsanto.

Não fora a destruição dos vitrais e do sino. Do espatifar de dezenas de fotografias históricas, por via de gente do alheio aquando a “visita”, às provisórias instalações do Centro Social, situado algures num sítio que, hoje se identifica como Rua Costa da Mota. Seria mais fácil construir esta breve resenha do lugar que, durante muitos anos, deixou observar todo um espaço que, conseguia traduzir um misto de paz e sossego a quem o visitava.

Que saiba, também ninguém, nos presentes dias, tem o panorama impresso, ou se quisermos a fotografia que, retrate, reproduza, no seu todo, o cenário arquitectónico construído no adro. A procura foi grande, inclusivamente nas instituições que, supunha-se haver testemunhos em arquivo. Refiro-me, ao espaço que sustentava a nossa Igrejinha e, o Cruzeiro que lhe fazia companhia

Segundo melhor opinião, até à data, raros foram os textos a descrever o enobrecimento, o valor histórico/devoto que, exortou durante anos, milhares de fiéis à oração e, à formação religiosa. Como raros foram os escritos, com os testemunhos da importância, para outros milhares de pessoas, que subiram ao alto, outrora “salpicado” de oliveiras, com vistas a observar todo um quadro paisagístico que proporcionava.

A foto, que, retrata todo o exterior da capela, foi reconstruída a partir de outras imagens, com ângulos diferentes. No entanto, apesar de não ser uma fotografia original, crê-se que, a fidelidade, resulta quase a 100%.

Na fachada da capelinha observava-se um vitral do feitio hexagonal, com a existência de uma cruz dourada ao meio. É bem visível o campanário com o sino. Sobre este, a cruz, era electrificada. Em dias festivos, ficava iluminada durante as noites.

Embora não seja visível, a larga porta de entrada, possuía, quer do lado esquerdo, quer do lado direito, 2 portas mais pequenas, dando acesso ao interior. Também nas traseiras, a cada um dos lados, existia, de dimensão idêntica, outras 2 portas, para acesso à sacristia e, a um pequeno cartório, que tinha como finalidade reuniões de organização com os fiéis.

Neste espaço, também visível a escola dos rapazes, apresentava-se sempre bem ajardinado, cuidado e limpo. Existia ainda um Cruzeiro. Este marco foi cenário de enumeras recordações, quer fotográficas, quer com as brincadeiras da pequenada. Era feito de pedra, com uma cruz em relevo, cravada com cimento, a toda a sua altura.

Fechava todo este quadro, uma linda escadaria. Era feita de pedra com vários lanços, dos quais, o ultimo, era ladeado com ciprestes. Conferindo-nos, ao contrário do seu simbolismo, um cenário encantador.

Como é bom recordar, quando nos dias de domingo, misturados com a paisagem, os cânticos que se ouviam, vindos da capela, entoados pelas raparigas e pelos rapazes, em coro, primorosamente ensaiados pela D. Mª de Lurdes.

Já no final da missa, não menos belo, em sinal de alegria, repicar do sino, accionado pelo sacristão Sr. Cristóvão, fazendo-o ouvir por quilómetros de distância.

Tenho como ideia que, não houve sensibilidade suficiente para se ter preservado, naquele ou noutro lugar, a capela e o cruzeiro do velho bairro. Outros o fizeram quanto à capela.

Todo este espaço, todo este cenário arquitectónico de outrora e, todas as recordações que encerrou, constitui um marco histórico da vida de muitos furnianos que, hoje, felizmente o recordam com saudade.

Bibliografia:
Discrição - Vitral da capela e do Cruzeiro - Livro “O nosso Bairro” – Mª Lurdes P. Gomes
Foto - Terreno Quinta das Furnas – Sapo.pt
Foto – Adro com a Capela e Cruzeiro – montagem da furniana Teresa Carvalho (Té)
Rememoração (partes) da furniana – Clarisse Caetano

domingo, 3 de junho de 2012

AS FESTIVIDADES EM HONRA DO STº ANTÓNIO NA CIDADE E NO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS XXI

…Como contente ficava, aquando menino, pela “ajuda” que, o seu nome (Stº António), prestou nos "ganhos” com a pedinchice, para comprar as gulosices, os bilas, as pevides, os tremoços e os amendoins...
…As bandeirinhas, em forma de triângulo, eram coladas numa comprida guita. O miolo do pão desfeito em água, com a farinha, era a cola utilizada...
…Também alguém não se esquecia de colher alcachofras em flor, para aferir, depois de queimadas no fogaréu, se tornavam a florir...

Adorado pelo povo, sobretudo o de Lisboa, Stº António era (é) conhecido como o protetor dos pobres, do auxílio na busca de pessoas ou objetos perdidos. Amigo nas causas do coração, nomeadamente no auxílio às moças solteiras a encontrar noivo.
As festas na cidade, visam, homenagear este alfacinha de “gema” tão amigo do povo. E é nos bairros populares que teem maior expressão. Estas festividades desenvolvem-se por vários dias, mas é na noite de 12 para o dia 13 de Junho, o feriado municipal em sua honra, que se verifica maior frequência das gentes nos arraiais montados.
Não faltam os vasos, de tamanhos variados, com os manjericos. São enfeitados com cravos e, pequenas bandeiras de papel que, ostentam frases/rimas/quadras bem populares e brejeiras para se oferecer aos namorados ou para “interesses do coração”.
Ao som das músicas dos quintetos e das charangas, “embrulhados” nos cheiros das sardinhas, das fêveras e dos pimentos assados, tudo regado com vinho a granel, sangria ou cerveja. O povo não perde a oportunidade de dançar ao ritmo das músicas populares com trechos bem conhecidos. Na ressaca não falta na malga de barro, bem quentinho, o tradicional caldo verde.

O manjerico comprado
Não é melhor que, o que dão.
Põe o manjerico ao lado
E dá-me o teu coração.

Como recordo as noites passadas, nas antigas festividades em honra do Stº António e, dos outros Santos Populares. Também relembro, aquando moço, as alegrias e o contentamento nas noites perdidas em folia,  no meu velho Bairro das Furnas, mas também nos mais variados bairros da cidade.
Como contente ficava, aquando menino, pela “ajuda” que, o seu nome (Stº António) prestou nos "ganhos” com a pedinchice, para comprar as gulosices, os bilas, as pevides, os tremoços e os amendoins.

No trono do Stº António
Todo o dia vou ficar
Vou pedir tostõezinhos
Para guloseimas comprar

Por esta ocasião, as ruas do velho bairro, eram ornamentadas por bandeirinhas de papel. Para a construção e montagem dos enfeites, dias antes, a população organizava-se, miúdos/as e graúdos/os todos ajudavam.
As bandeirinhas, em forma de triângulo, eram coladas numa comprida guita. O miolo do pão desfeito em água, com a farinha, era a cola utilizada. Estas correntezas de bandeirinhas, de cores diversas, colocavam-se cruzadas, ou não, na frontaria das casas atravessando a rua.
Na maioria das janelas e nas portas, sobretudo nos quintais virados para a frente, haviam vasos com manjericos. A minha rua – a dos Plátanos – quer no princípio, quer no fim, era ornamentada com folhas de palmeira cortadas do arbusto, existente na frente da casa da D. Estrela.

Na rua atravessa a bandeirinha
A janela tem o manjerico
Para um dia seres minha
Vou pedir-te o namorico

Na minha adolescência, nos bailes, eram férteis os “affaires” com as raparigas. Que saudades dos bailaricos ornamentados e decorados com balões de variadas cores. Havia um arraial logo na entrada do bairro, no pequeno largo na frente da praça e, lá ficava montado até as festas, em honra dos 3 Santos populares. Também era comum “visitar” os arraiais montados nos vizinhos bairros, das Águas Boas, do Calhau, e, do Bairro do Grandela.
Mais espigadote a festança também era dividida pelos largos, becos, vielas e ruas de outros tantos bairros desta minha cidade que é Lisboa.

Como me dava gozo (e trabalheira) recolher a madeira com vistas a acender as fogueiras. Por essa ocasião a ansiedade na espera pela noite era muita. Também alguém não se esquecia de colher alcachofras em flor, para aferir, depois de queimadas no fogaréu, se tornavam a florir. Quando não fôra assim, era sinal que, o amor por quem se desejava, não tinha reciprocidade. Bem tristes ficavam as raparigas. Enquanto os rapazes malandrecos…

Ou ela não usa calças
Ou as tem na lavadeira
Dei por isso ontem à noite
Quando saltava à fogueira

domingo, 20 de maio de 2012

HISTÓRIAS QUE O MEU VELHO BAIRRO ENSINOU XX


…Apraz-me sentir, pelas manhãs, o vento fresco na cara. Ver o “dançar” das árvores e o entrelaçado da hera que, sempre arranco uma folha...
…Como as árvores que dão como frutos a amizade. Espero pacientemente, que o “tempo e o vento” as façam cair quando essas já estão podres.

O levantar cedo nunca foi para mim grande preocupação. Mesmo em pequeno, quando ao acordar, era lesto no arrebitar. Talvez pelo costume de minha mãe que, antes de sair para o trabalho, ficava com a certeza que o seu filho tomava o pequeno-almoço que preparara.

Era certo que as horas das aulas ainda não estavam por perto. O compasso da espera permitia fazer uma, ou outra, redacção a que estava obrigado. Caso contrário, fizesse chuva ou sol, fazia-me ao caminho.

As escolas (dos rapazes e das raparigas) ficavam por detrás da igreja, situadas na colina, lá bem no alto, do velho bairro. No seu caminho, tinha todo o tempo, para chutar as pedras soltas, da bonita escadaria, ladeada por ciprestes, que lhes dava o acesso. Olhar o “bailado” e o “sentir” da cumplicidade das árvores em que os seus frutos são os pássaros. Espreitar, os ninhos previamente, ou não, identificados. Responder aos seus cantares com o assobiar. Eram, no dia-a-dia, as rotinas dos meus trajectos.

Já na tropa, sobretudo em África, no país em que estive dois anos mobilizado, estes hábitos não se perderam. Acresciam a toda esta vivência de miúdo, outras realidades: O sumido canto dos galináceos existentes na tabanca, do piar das aves rapinas, o coaxar das rãs e, sobretudo, do cheiro da terra que pairava no ar. De manhã, bem cedo, tudo isto, como no passado, me encantava.

Agora, já a curvar as costas, proveniente da idade, ainda me levanto cedo. Mesmo quando aos fim-de-semana, o mais comum dos mortais gosta de estar enrolado, mais umas horas, nos cobertores.

É certo que, já não me faço ao caminho desabrigado da chuva, como fazia em pequenote. Quando o tempo permite, apraz-me sentir, pelas manhãs, o vento fresco na cara. Ver o “dançar” das árvores e o entrelaçado da hera que sempre arranco uma folha. Ouvir, como outrora, o “acordar” da passarada. Ver do seu jeito o banho, que sempre fazem nas poças existentes, repelindo repetidamente a água das pequenas asas. Gosto ainda de responder, como ontem, ao canto das rolas e ao assobio dos melros.

Nas presentes manhãs, é neste quadro que balançam os mais variados pensamentos. É neste quadro que arrumo as ideias do projecto da vida e, me penitencio dos erros cometidos. Procuro ser como as árvores em que os seus frutos são amizades. Ter uma relação de vida pacífica. Nunca fui apressado em sacudir as dúvidas do acaso quiçá destroçado. Espero pacientemente, que o “tempo e o vento”, as façam cair quando já estão podres.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Pelo o horror e pelo sacrificio e ainda em memória dos que tombaram nesta guerra estúpida e desnecessária

GUINE - NOVA SINTRA

                                 O PÃO QUE O DIABO AMASSOU


…Meu Capitão, eu tenho muito medo, não me deixe ir para Nova Sintra, tenho um mau pressentimento… -
…Vou falar com o Comandante, logo te digo…respondeu-lhe o Capitão.
…Então meu Capitão já tem resposta para mim? –
…Tenho! O Comandante não abre excepções. Vão todos.
…Ninguém fica para trás, olha que insisti bastante!
O Ramiro Neto morreu em Nova Sintra, a 13 de Maio de 1968.


Com “aviso prévio”. 7 Dias depois, aquando da primeira flagelação do inimigo (IN), às posições das nossas tropas (NT), estacionadas em Nova Sintra - Guiné, o nosso bravo camarada morreu. A morte foi originada pelo estilhaço de um rebentamento de uma granada de morteiro. Pensava ele estar protegido, na vala-abrigo que construíra, pela tampa de chapa de bidão.
O fragmento entrou pelo único buraco que deixou aberto. Foi a 13 de Maio de 1968.

Na zona operacional do comando do Batalhão de Artilharia (Bart1914), a tabanca de Tite, que ladeava a sul e a norte o aquartelamento das nossas tropas (NT), era o maior agregado populacional do perímetro operacional, seguindo-se as tabancas de Bissassema, Jabadá e Fulacunda, de entre as demais.
        Esta dispersão populacional, contornada por rios, bolanhas e matas, rica no cultivo orizícola, em pecuária (bovino) e, na suinicultura (suínos), possibilitava, ao inimigo (IN), grande mobilidade no desencadear das acções de guerrilha, na flagelação aos nossos aquartelamentos, e, no controlo demográfico e político-administrativo das populações.
        Consequentemente, ainda permitia sacar, dos habitantes, farto abastecimento em géneros, roupas (panos), e elevado recrutamento de carregadores para o transporte do material bélico.


Toda esta magnificência operacional do IN, obrigava a implementar, da nossa parte, um vasto e variado conjunto de operações de combate, e, simultaneamente desobstruir estradas e caminhos, há muito emaranhados por denso matagal, criar novos aquartelamentos na área, com foi o caso em Nova Sintra.
         Anulada a guerrilha nos trilhos. Desobstruídas as estradas e os caminhos, reparados, reconstruídos ou mesmo construídos os pontões, veio permitir utilizar meios, até aí impossibilitados, nomeadamente os carros de combate – Daimlers – (jeeps blindados) e, viaturas ligeiras e pesadas para transportes das tropas.


100 METROS QUADRADOS DE HORROR


Dos nossos opositores, todas estas acções não podiam ficar sem resposta. Detentores do território, organizados, bem armados e municiados, procuravam, energicamente, impedir a construção do aquartelamento, montando, para o efeito, novas emboscadas e, a colocação de dezenas de minas no terreno e granadas accionadas por fio de tropeçar. Destruíram, por várias vezes, os pontões já implantados, colocaram abatizes armadilhados e, organizaram obstáculos por grossos ramos de árvores, fortemente ligados ao solo com as extremidades aguçadas.

No entanto nada destas acções, viriam a impedir as NT de consolidar a presença no terreno. Chegados ao local, despejadas as viaturas, os trabalhos iniciaram-se a ritmo acelerado. Isolou-se o perímetro com o arame farpado, construíram-se valas-abrigos, a norte e a nascente, talvez com 2 metros de largo e 5 metros de comprimento e, as latrinas. Deu-se começo às fundações para os futuros pavilhões e, postos de guarnição para a defesa das posições. Começou-se também a limpar terreno com vistas a abertura da pista de aterragem.

Conta o Ex-Furriel Domingos Monteiro:
…As moscas e os mosquitos eram “personagens” deveras e muito incomodativas de dia. Á noite faziam desesperar com as sucessivas picadas, nem mesmo a roupa que trazíamos vestida as conseguia travar!
Acrescentando:
…As horas que passavam na escuridão daquela selva, mais pareciam dias. As chuvas também estiveram presentes. Quando, passados 7 dias de medos e incertezas, a 13 de Maio de 1968, pela calada da noite, o perímetro de terra e lama onde as NT se aquartelavam, com cerca de 100 m2, rodeado de arame farpado, é atacado, em força, por cerca de 100 homens. Causando às NT, 1 morto e 19 feridos graves que, muitos foram evacuados, nessas mesma noite, por helicópteros directamente para Bissau. Do lado contrário, as mortes confirmadas foram em número de 26 e feridos 31…
…Na manhã seguinte e durante o dia os trabalhos continuavam. No perímetro patrulharam-se as estradas e os caminhos, aqui ali rastos de sangue e material bélico ligeiro que, foi deixado para trás. Os nossos alimentos durante dias, foram as rações de combate. Na água que bebíamos colocávamos comprimidos para evitar as diarreias e febres…

Por sua vez o Carlos Leite (Reguila) refere:
…Na sucessão dos dias tudo era igual, o trabalho com as pás e com as picaretas calejava-me as mãos, o medo era constante, mas a disposição para a luta sobreponha-o…
…O cantarolar da passarada não me parecia ter o mesmo encanto…
…No terreno lamacento, alguns sapos, eram “sticados” pela pá ou com a picareta…
Refere ainda:
…Pelas noites dentro o sofrimento era maior…
…Aqui ali ouvia o ladrar dos cães…
…O vento ora forte ora brando, fazia-me confundir o “som” da selva...
…Ouvia as flagelações do IN a outros aquartelamentos e questionava-me; quando será, novamente, a nossa vez...que foram muitas…
…Eram nestes momentos que a falta da família e dos meus amigos mais se sentia…


Com “aviso prévio”, foi no breu da calada noite de vento brando que, o nosso amigo e querido camarada Neto morreu.
        A morte foi originada pelo estilhaço de um rebentamento de uma granada de morteiro. Pensava ele, na vala-abrigo que construíra, estar protegido pela tampa de chapa de bidão. O fragmento entrou pelo único buraco que deixou aberto. Foi a 13 de Maio de 1968.

Dá cada dia ao homem novo alento
De conquistar o bem que lhe é negado
Dá a conquista um puro sentimento
As balas dão o sangue derramado


domingo, 29 de abril de 2012

NA MINHA RUA DOS PLATANOS TAMBÉM HAVIA FADO. ESTE É CANTADO POR LUIS SILVA XIX

Este "miúdo" cresceu e viveu comigo na minha Rua dos Plátanos no velho Bairro das Furnas.
Andou comigo na escola primária, partilhamos muitas brincadeiras com os demais miúdos.
Seu pai, o Sr. Desidério, assim como o seu tio Camacho, eram amantes do fado. O primeiro tocava guitarra com primor.
Não era difícil ouvir, sobretudo aos fins de semana, a sua guitarra trinar. Acordes que seu tio Camacho acompanhava.
Este "miúdo" que, cresceu e viveu comigo na mesma rua, não podia também deixar de cantar o fado e aqui vos deixo um video da minha autoria, com um dos mais belos fados deste meu amigo de infância.
Obrigado Luís

sexta-feira, 27 de abril de 2012

A MINHA FRUSTADA “FUGA” DA GUINÉ


Os 20 dias “desenfiados” não foram fáceis. Era muito o medo derivado à situação que criei! Com a agravante de, por uma ou duas vezes, chegaram perguntas do género …“quando regressas ao mato (Tite)?”... Perguntas feitas por graduados em passagem por Bissau.

Já sem os “ossitos” e, tirados os pontos, era vê-lo enfiado na lancha de borracha a toda a velocidade pelo Geba acima, mais bem amedrontado que no primeiro dia que cheguei.

O Capitão médico que esteve comigo deslocado em Tite, na Guiné-Bissau, era um homem de estrutura corpulenta e, parecia ter entre os 45/50 anos de idade. Apresentava-se todos ao dias indignado, não só por em desacordo com a guerra, mas sobretudo incomodado por ter sido obrigado a deixar para trás mulher e 2 filhos e, uma vida profissional estabilizada.

Acontece que, mais ou menos a meio da comissão, desconhecendo as razões das dores nos joelhos, resolvi questionar o meu camarada doutor que, segundo a sua observação, sem rebuço me disse: …As tuas dores derivam de ramificações ósseas (exostoses), que anatomicamente, nada têm a ver com o teu esqueleto. Acrescentando, …sem a operação, há o risco, com o crescimento das mesmas, da perfuração dos tecidos da carne…

Decorria o mês de Setembro do ano de 1968, recebo uma mensagem criptada e confidencial, dando nota que o Capitão médico, aquartelado em Tite, … tinha guia de marcha para se apresentar no Quartel-general (QG), em Bissau, aditando …a fim de ser indigitado diretor do Hospital Militar….

Dias passados, voltei a falar com o médico, perguntando-lhe …Doutor, quando estiver em funções no Hospital Militar, trata do meu problema…?

…Aguarda pela chamada...disse. Chamada esta que, não demorou 15 dias após a designação das novas funções.
Já em Bissau, no dia antes do internamento, encontrei-me com o médico, à noite, na esplanada do café Portugal. Convivemos bebendo umas cervejas. Discutimos problemas políticos; a saturação da guerra, no regresso a casa, etc. Pedindo-lhe, oportunistamente, a passagem de uma guia de marcha para ser operado em Lisboa.

A sorrir disse o médico …por minha vontade ias já camarada...

Concluindo: …Pica Sinos, sabes que nós, no hospital em Bissau, amputamos/cortamos, todos os dias e, em quantidade, dedos, braços e pernas, diz-me; … que justificação existe para não cortar, os teus “pequenitos ossitos” aqui em Bissau?
Fiquei ….”Lixado”! Embora soubesse que o meu camarada médico e, diretor do hospital, tinha razão, mas…
Operado ao primeiro joelho, uma semana depois da convalescença, na manhã de 01 de Novembro de 1968, foi-me passada guia de marcha para regressar a Tite. O documento anexo referia que, os pontos seriam retirados em 10 dias, no mato, na enfermaria do quartel. E que passados mais 10 dias teria que apresentar novamente no hospital, em Bissau, a fim de ser operado ao outro joelho.

Na noite desse dia, 1 de Novembro de 1968, ao saber que o aquartelamento, em Tite, estava a ser alvo de mais uma flagelação, desloquei-me à muralha do rio Geba, não conseguindo descrever com exatidão, o meu sentimento, ao saber da sorte dos meus camaradas naquela hora.

Infelizmente era hábito, muitos dos militares que paravam à noite pelos cafés, em Bissau, correrem para a paredão do rio Geba, no intuito de observarem os clarões e os estrondos dos rebentamentos, quando o aquartelamento era flagelado. O “espetáculo era sofrido, amargo, triste e revoltante”.

No dia seguinte sou conhecedor que os resultados foram devastadores, quer em termos corporais, (1 morto e 3 feridos graves evacuados) quer em termos materiais que, consequentemente me tirou toda a vontade/coragem para regressar a Tite.

Dito e feito, nessa mesma manhã em vez de apanhar o bote que me levava ao Enxudé, porto de mar que servia Tite, dirigi-me novamente ao hospital e pedi ao Cabo Silva (enfermeiro da área ortopédica) se podia passar as 20 noites naquela enfermaria, até me operarem ao segundo joelho?
Ao concordar, passei a….“Desenfiado”. (termo em calão que se aplica ao militar quando em falta no agrupamento)

Não se tornou difícil estar na situação de faltoso no quartel. O hospital não deu informação no aquartelamento do meu estado clinico e, eu dei nota que estava no quartel dos adidos à aguardar a marcação da segunda operação. A justificação foi aceite pela chefia hierárquica das transmissões e, era o que mais me interessava.

Tinha agora um segundo problema…. As refeições.
Podia dormir no hospital, mas comida “cá tinha”.
Valeram-me, quando não tinha dinheiro, os “putos do pé descalço” da minha infância – (o Tony, do Bº Grandela e, o Mané, de Campolide) – .
O primeiro enfiou-me durante 8 dias no “refeitório” de uma lancha de desembarque (LDG) da marinha que, estava ancorada em Bissau e, cujo comandante estava em férias em Lisboa.
O segundo, no resto do tempo, foi no refeitório da Policia Militar no Quartel-general.

Não se pense que os 20 dias “desenfiados” foram fáceis. Era muito o medo derivado à situação que criei! Com a agravante de, por uma ou duas vezes, chegaram perguntas do género …“quando regressas ao mato (Tite)?”... Perguntas feitas por graduados em passagem por Bissau. Mas como me viam coxo lá iam “engolindo”.
Concluindo: Dias depois, já sem os “ossitos” e, tirados os pontos, era vê-lo enfiado na lancha de borracha a toda a velocidade pelo Geba acima, mais bem amedrontado que no primeiro dia que cheguei.

Foto: Antigo hospital em Bissau, agora em ruinas

terça-feira, 10 de abril de 2012

TALVEZ NÃO SAIBAM (?) QUE A REVOLUÇÃO DE ABRIL DE 1974...

Na sequência do golpe militar de 28 de Maio de 1926, foi implementado em Portugal um regime autoritário e fascista. Em 1933 o regime é remodelado, auto-denominando-se Estado Novo. Oliveira Salazar, Presidente do Conselho de Ministros, até então Ministro das Finanças, passou a controlar o país não mais abandonando o poder até 1968.

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, que a comunidade internacional e a ONU, vinham a defender a implementação de uma política de descolonização em todo o mundo. O Estado português recusa-se a conceder a autodeterminação aos povos das regiões colonizadas. Salazar, praticando uma política de isolamento internacional sob o lema Orgulhosamente só, levou Portugal a sofrer consequências extremamente negativas a nível cultural, económico.

Em Março de 1961, no norte de Angola acaba por estalar uma sangrenta revolta. A chacina merece de Salazar a resposta …Para Angola rapidamente e em força….

O regime fascista, defensor de uma política colonialista, alimenta as fileiras da guerra colonial, já então espalhadas pela Guiné e por Moçambique, com o propósito de manter as chamadas províncias ultramarinas sob a bandeira portuguesa com o resultado de milhares de mortos entre os povos.

O ditador Salazar, doente e senil, foi afastado do Governo em 1968. Américo Tomás, então Presidente da República chamou, a 27 de Setembro deste mesmo ano, para o substituir, Marcelo Caetano. Este, em tempo afastado do Governo por Salazar, veio a seguir a mesma política, no que diz respeito às províncias ultramarinas.

Os militares portugueses começaram a revelar grande desgaste e mesmo desprestígio com a continuação da guerra colonial que, se mantinha há mais de dez anos, concluindo que não era militarmente que a questão do ultramar se resolveria.
As eleições legislativas, em Portugal, ocorridas em 1973, não trazem alterações nem melhorias visíveis.

Começam a organizar-se grupos conspiratórios entre os capitães do exército, motivados também por reivindicações de carácter corporativo por parte dos oficiais do quadro permanente, contra o regime e contra a manutenção da guerra.

Paralelamente alguns sectores das finanças e da economia, classes médias e movimentos operários, constituem um importante factor na contestação à política do regime e, apresentavam-se, então, concordantes quanto à independência das colónias que, acabaria por acontecer, pondo assim termo a uma guerra que se prolongou por 13 anos.

A constituição do MFA resulta de uma reunião clandestina no Monte Sobral, em Alcáçovas, sendo que a primeira reunião clandestina de capitães foi realizada na Guiné-Bissau a 21 de Agosto de 1973. A guerra colonial constituiu a motivação dominante deste movimento criado por militares dos três ramos das forças armadas; exercito, aviação e a marinha.

O Movimento estuda e planeia a execução do golpe de Estado. A 24 de Abril de 1974, desencadeia tomada de posições, a partir comando no quartel da Pontinha em Lisboa. Desenvolve acções após a canção “E depois do Adeus” de Paulo de Carvalho (23horas) emitida via rádio pelos Emissores Associados de Lisboa. E dá início a ocupações no terreno, a partir do segundo sinal com a transmissão da canção “Grândola Vila Morena” de Zeca Afonso (00,20horas do dia 25 Abril).

Com o amanhecer as pessoas começaram a juntar-se nas ruas, solidários com os soldados revoltosos; uma florista, do seu molho de cravos que transportava, colocou um na espingarda de um soldado, de seguida todos o fizeram ficando os cravos símbolo da revolução.

As forças da Escola Prática de Cavalaria, comandadas pelo Capitão Salgueiro Maia, fazem a ocupação do Terreiro do Paço em Lisboa. Mais tarde a do Quartel da GNR no Largo do Carmo, onde se encontra refugiado o chefe do Governo, Marcelo Caetano, rendendo-se final do dia.

No dia seguinte forma-se a Junta de Salvação Nacional, constituída por militares que, procederá a um governo de transição. O essencial do programa do MFA tem como pontos fundamentais. Democratizar, Descolonizar, Desenvolver.

Entre as medidas imediatas da revolução dos cravos, contam-se a extinção da PIDE/DGS e da censura. Os Sindicatos passam, na sua grande maioria, a ser livres, os partidos são legalizados e, os presos políticos libertados.

Desenvolvem-se medidas atinentes para acabar com a guerra e, de preparação da independência das colónias ultramarinas. Facto que ocorre entre Outubro de 1974 e Novembro de 1975.
Da Guiné-Bissau, o último contingente militar regressou a Lisboa em 15 de Outubro.

Hoje, Abril de 2012, Os sucessivos governos, por força de politicas de direita, muitos dos direitos conquistados com a revolução de Abril de 1974 e, amplamente consagrados na Constituição da Republica Portuguesa, foram retirados. Torna-se necessário mudar de governo, mudar de políticas, defender Abril.

25 Abril Sempre!

Raul Pica Sinos
Bibliografia: Centro Documentação 25 Abril da Universidade de Coimbra,
Dicionário Enciclopédia Wikipedia. Foto de Carlos Granja