sábado, 1 de setembro de 2012

O TROMBALAZANAS E OS MIUDOS DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS XXVI


…Direi mesmo que, dada a existente “familiaridade”, era fácil brincar e promover pequenas provocações, sobretudo com os primatas…
…Não era preocupante para a família, por umas horas, a ausência do(s) seu(s) rapaz(es)...
… À 2ª feira, o dia estava reservado para faltar à escola…
…Durou até que o guarda, híper zangado por lhe baixarem o “salário”, nos descobriu.



Estou seguro que, nos dias de hoje, as crianças com as idades compreendidas entre os 7 e os 13 anos, não têm as mesmas oportunidades na frequência, que, os miúdos do meu velho bairro das Furnas tiveram, no mesmo espaço da idade, quando das idas ao Jardim Zoológico.



São muito evidentes, os diferentes propósitos, se confrontados com o passado.
Ainda bem.
Actualmente as crianças, com as suas visitas ao Zoo, têm mais possibilidades de conhecer, em profundidade, toda a raridade do mundo animal, seus usos e costumes.
São-lhes indicados os longínquos países e, os seus verdadeiros habitats.
São acompanhados frequentemente com os familiares, professores, animadores culturais, etc.
Apadrinham animais, conversam e trocam opiniões com os tratadores.
Brincam com outras variedades de brinquedos.
Tudo é mais dinâmico do ponto de vista recreativo, cultural, educativo e ecológico.



Para nós, miúdos do velho bairro, o “Jaleco”, também fazia parte da nossa vida! Até de noite, já deitados, metia-nos respeito ouvir, quando o vento de feição, o rugir dos leões, o uivar dos lobos, o “chorar” das hienas ou o cantar dos pavões.
Sabíamos dos espécimes de animais existentes na sua vida de cativeiro.
Prontamente visitávamos os novos “habitantes”. Direi mesmo que, dada a existente “familiaridade”, era fácil brincar e promover pequenas provocações, sobretudo com os primatas.
Chamávamos os animais pelo nome que lhes era dado. Mas estávamos longe das explicações de zoologia, biologia e dos impactos que, hoje, aos miúdos é facultado.



Habituados que estávamos à “rua”, não constituía problema a distância entre o velho bairro e o jardim. Também não era preocupante para a família, por umas horas, a ausência do(s) seu(s) rapaz(es).
Vejo-me descer até meio da Rua das Furnas.
Vejo-me descer as escadas do muro da meia laranja e, minha frente verificar a majestosa entrada do jardim, ladeada por 2 lindas torres.
Descer a Travessa de S. Domingos de Benfica, era a alternativa. Á direita encontrávamos o Convento Franciscano de Santo António da Convalescença, que veio a albergar Escola Comercial de Pedro de Santarém.
O “jaleco” era vedado (é), por um gradeamento em ferro, na vertical, no feitio de lança (caçadores zulus?) que, distavam entre si 20cm a 25cm.
Este gradeamento estava pintado de verde (é). Acompanhava a Estrada de Benfica, desde as traseiras do Chafariz das Aguas-Boas, passava por Sete-Rios e, acabava no Jardim das Laranjeiras, em Palma.



Conta-me o Artur Amorim (o ti jaquina), da rua dos Salgueiros que, por vezes, à 2ª feira, o dia estava reservado para faltar à escola.
A ideia era ir ao encontro de um “familiar” muito especial. O trombalazanas como lhe chamava, no filme “Chapéus há muitos”, o Vasco Santana.
No caminho, manhã cedo, muito antes da abertura oficial, depois de se certificarem não haver guardas à vista, ele e, mais 2, infiltravam-se no “jaleco” pelo gradeamento – o Bica, da rua dos Plátanos, por gorduchito, depois de enfiada a cabeça, o corpo era empurrado –.
Progrediam no caminho, nada lhes importando os olhares efetuosos das diferentes espécies animalescas.
O dia era para usufruir dos “benefícios” das “transações monetárias.



Ou seja:
Para satisfação da população visitante, certamente para suporte das despesas da sua alimentação, o elefante, terá sido ensinado, a troco de uma moeda de 1 escudo, acionar um sino, preso numa parede na altura de 3 metros, tendo fixa uma corrente, com larga argola, onde enfiava a tromba e o fazia tocar.
Todas as moedas que não se ajustassem, a 1 escudo, eram rejeitadas pelo animal, mesmo aquelas de valor superior.



Porquê à 2ª feira? Pergunto!

…Porque era o dia a seguir aquele que, mais visitantes, o elefante tinha tido...
Assim:
…Enquanto eu, (diz o Ti Jaquina-Artur), mostrava uma moeda de 1 escudo ao elefante, possibilitava ao Bica e, ao Fernando Batista, da rua das Tílias saltar, sem medos, para a arena, com vistas a apanhar todas as moedas que, o trombalazanas, rejeitara...
…Durou até que o tratador e guarda, híper zangado por lhe baixarmos o “salário”, nos descobriu...
…Depois disso, a correria, a fugir do tratador, foi muita até ao jardim, mas….das Furnas...



Tirando a “aventura” atrás relatada, já foi referido que, o dia privilegiado da presença da rapaziada no Jardim Zoológico, eram os domingos.
Nesses dias, no chamado jardim dos pequeninos, desenvolviam-se jogos de diversas modalidades:
Corrida de sacos, salto à bolacha, corrida livre (50m), etc.
Também se brincava nas minúsculas casinhas ainda hoje existentes.
Aliás, para obviar a rapaziada entrar pelas grades que, acontecia com alguma frequência, participávamos sempre nos jogos, então promovidos por um existente animador.
Com as melhores classificações obtia-se, como prémio, ingressos grátis para a semana seguinte.
Outros, ainda tinham a oportunidade, quando o vigilante se distraía ou na ausência do mesmo, de usufruir de outros “prémios”, sobretudo os ovos dos cócós que, nos ninhos, por detrás das pequenas casinhas, abundavam. Ou ainda, “chinchar” nas laranjas e nas maças dependuradas nas árvores de frutos que, por perto estavam plantadas.



Fotos:
Perdidas pelo Google
Foto de topo: Entrada do Jardim, nas Estrada de Benfica
Foto nº 1 Trav. de S. Domingos de Benfica
Foto nº 2 o Trombalazanas
Foto nº 3 a moeda do que se escreve
Foto nº 4 uma casinha do jardim dos pequeninos

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

VAMOS AOS BANHOS…NAS FURNAS XXV

… Nunca os habitantes, do meu velho bairro, desprezaram a sua higiene e a higiene dos seus filhos…
…Quem precisava de lavar, sobretudo a cabeça, por dentro, eram os membros da Comissão de Acão Social e Administrativa dos Bairros Sociais…
...Tínhamos de primeiro tirar uma a senha que, variava no preço...
…Encavalitados ou suportados pelo encaixe das mãos de outros, espreitávamos as raparigas…
…Tudo isto tendo em conta a “falha da construção” da canalização para o duche de água quente...



Muitos furnianos têm vindo a escrever ou a comentar, com saudade, sobre as iniciativas produzidas, no antigo Salão de Festas. Teatro, dança, cinema, festins, bailaricos, etc., têm sido as actividades mais lembradas. Contudo, poucos, muito poucos, têm vindo a comentar, uma outra, não menos importante. Refiro-me às brincadeiras dos rapazes, no “espreita” às raparigas e, as broncas destas cenas, nos balneários e fora deles.



Segundo informações recolhidas, 6 anos depois da inauguração do Bairro (1946), o chamado balneário público das Furnas, foi construído, no ano de 1950. Esta “falha” na construção, veio a ser reparada pelo aproveitamento da arrecadação que, ocupava as traseiras do salão, “justificando” a Comissão de Acão Social e Administrativa dos Bairros Sociais:



…Os habitantes não se serviam dos chuveiros existentes, nas casas de banho, nas suas habitações, porque as mesmas, não tinham canalização para a água quente…
…E, a limpeza, a higiene, (do corpo) não podia ser desprezada, esquecida pelos moradores…



Direi: Como se isto fosse verdade!
No tempo, o regime considerava os habitantes das “casas desmontáveis” como “famílias de baixa condição social”. Logo, comparativamente com os habitantes de outros bairros sociais, impunha-lhes diferentes situações, para pior. O exemplo; os bairros do Alvito, Ajuda, Alvalade e do Caramão da Ajuda, etc., construídos pela mesma edilidade (C.M.L.). Afirmar que os habitantes não usavam os chuveiros para se lavarem, no mínimo foi “parvoíce”.



As casas de banho do velho bairro, num espaço estimado, por 3m de comprimento, por 1,50m de largo, comportavam um pequeno lavatório, com uma torneira amarela, uma sanita, sem sifão e, um chuveiro.



É certo historiar, narrando a falta da canalização, para o duche de água quente. Mas essa propositada insuficiência da implantação da tubagem, nunca impediu os homens e as mulheres do bairro, de tomarem banho. E mais… com água quente. Nunca os habitantes, do meu velho bairro, desprezaram a sua higiene e a higiene dos seus filhos.



No inverno, nos dias mais pequenos, os moradores com as profissões operárias e, não só, saiam muito cedo. Para se lavarem, aqueciam a água, numa panela, na máquina a petróleo. Vazavam a água ainda a ferver num alguidar de zinco, com o fundo em madeira, ou mesmo em pequenas banheiras, também de zinco, temperando a água q.b.



Por vezes, dada a exiguidade do espaço das casas de banho, os salpicos de água, iam “bater” no vidro do candeeiro a petróleo que, não raras as vezes estalavam. Convém referir que, as velhas casas só tinham luz eléctrica, no horário da iluminação pública. O candeeiro, no meio da sala de entrada, com o seu “faustoso” abajur branco, comportava uma lâmpada até 40W (?). Era proibidíssimo fazer puxadas da luz eléctrica para qualquer outra divisão.



Era hábito dos trabalhadores, num compartimento da sua lancheira, ou embrulhada num pano, debaixo de um dos braços, levarem roupa lavada, para a vestirem depois do banho, nas fábricas ou nas oficinas onde trabalhavam.



Lavrar em acta, dando a entender que, a falta da canalização para a água quente, era motivo para a falta da higiene das pessoas, eu direi que, quem precisava de lavar, a cabeça, por dentro, foi quem teve a ousadia de subescrever tal alegação.



Mas continuando:
Já foi referido que, o balneário do velho Bairro das Furnas ficava situado, nas traseiras do Salão de Festas. Funcionava aos sábados, entre as 8,30 horas e as 12,30 horas. Tínhamos de primeiro tirar uma a senha que, variava no preço. Miúdos/as, um escudo, adolescentes/adultos era, creio, mais caro.



No departamento, chamado de secretaria, também situado nas traseiras, com o livro de senhas na mão, de semblante sério, um homem que dava pelo nome de Garcia. Era o fiscal do bairro. Não se esquecia de avisar, sobretudo os miúdos/as, de que, não havia lugar a brincadeiras e, terem em conta o tempo no “molho” debaixo da água quente.



O balneário, comportava quatro divisórias para banho de duche, 4 esquentadores, colocados na parede entre elas e, 2 casas de banho. Todas as divisórias eram equipadas com portas. Tinha lavatório, acima um pequeno espelho. O equipamento e, o espaço, foi divido ao meio, por uma parede com abertura no cimo. Mais tarde, foi colocada, necessariamente, uma janela de bandeira. As portas das entradas para os balneários (homens/mulheres) ficavam nos laterais do palco.



Íamos, geralmente sozinhos ao “duche”, mas quando havia muitos frequentadores, a cabine podia ser utilizada por mais um utente, possibilitando menos demorada a espera. Mas, outros, mais malandrotes, enquanto esperavam pela sua vez para tomarem o banho, não perdiam a oportunidade, encavalitados ou suportados pelo encaixe das mãos de outros, à altura dos joelhos e, à vez, apoiados na parede, sorrateiramente lá espreitavam, pela abertura, as raparigas algo “descobertas”. Logo prontamente denunciados pela contínua, resultante da gritaria e, do corrupio das meninas, para os chuveiros, com vistas a taparem os seios e as “vergonhas”. Aqui, quando identificado/s, o fiscal Garcia tomava necessariamente notas. Seguia-se a chamada da família do/s “abusador/s”. Reclamava maior disciplina e respeito, e, de seguida, passava uma multa e, anunciava o período da inibição da utilização do balneário ao prevaricador.



Por fim e, em jeito de conclusão direi que, a culpa disto tudo, foi originada pela “falha da construção” da canalização, para o duche de água quente, nas habitações do velho Bairro das Furnas.
E mais a sério, afirmar que, naquele tempo, aos senhores do regime, tudo servia para humilhar quem era pobre.



Bibliografia:
Página 74, do Livro “O Nosso Bairro”, monografia de Mª Lurdes Pais Gomes.
Fotos:
Perdidas pelo Google sem autores
Agosto de 2012

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

NA VELHA PRAÇA DO BAIRRO DAS FURNAS SÓ NÃO HAVIAM OS PREGÕES XXIV




… Os rapazes e, as raparigas no final do dia, vinham para o pequeno largo brincar …
…, Fui à mercearia comprar rebuçados dos bonecos da “bola”, na esperança que, a dita cuja, de catechu, saísse. Obviamente também me saiu na “rifa”…
… O chão apresentava-se sempre limpo, polvilhado de serradura, certamente para enxugar os pingos do “briol” que se perdiam…
…O açúcar, a farinha e o café, vendia-se aos gramas, embrulhados em cartuxos de papel grosso…
… Não fora ele a saltar e, a desactivar a marcha do cilindro, não sei se o pavilhão que sustentava a praça, “já era”…

A Praça, do velho Bairro das Furnas, tal como a recordo, ficava situada num pequeno largo a começar na enfiada do lote 19, da rua Raul Carapinha (Foto de topo). Melhor identificando, direi que, o prédio em referência foi construído na entrada do bairro. Edifício que veio a destruir o portão da quinta, parte do largo e, uma boa fracção do ajardinado. (ver fotos nºs 1 e 3)

Hoje, na empena desse edifício, está situado um pequeno parque do estacionamento de automóveis, sendo que, o edifício da praça começava a meio do início da rua, hoje, Costa Mota.

A “matriz” das praças, (em redor do velho bairro), ostentava, na sua frente, 2 lanços de canteiros com flores rasteiras, ladeados por sebes, quando cortadas ficavam à altura dos joelhos de um adulto.

Era proibido transpor as sebes. Pior ainda, pisar o que elas resguardavam!

Qual quê? Os rapazes e, as raparigas no final do dia, vinham para o pequeno largo brincar. Desafiavam tudo e todos. Não se achavam cansados/as, por vezes até ao raiar da noite, pela pratica do atletismo na modalidade dos “saltos” “altura”. Quem não ficava muito “animadas/os”, eras as flores dos canteiros e, os jardineiros que delas primorosamente cuidavam. (ver foto nº 4)

Relembro que, na frontaria do mercado, entre os já citados canteiros, existia uma ligeira rampa. Na frente, um outro edifício, comportando a Sala de Estudo, arrecadação dos materiais para suporte da jardinagem, uma casa de banho e ainda a sala da Mocidade.

As portas da praça escancaravam-se pela manhã cedo e, por detrás das grandes grades de correr, em ferro, existiam diversas bancas e secções a saber:

Na entrada as bancas com as frutas, hortaliças, nabiças, salsa, coentros, cabeças de nabo, cenouras, alfaces, tomates e muitos outros produtos hortícolas. Os caixotes, forrados a papel pardo, apresentavam-se expostos em “escada”. Eram as bancadas da Dª. Carmem e da Dª. Maria. (ver foto nº 2)

Percorrendo-a pelo lado direito, situava-se um canto de pequeno espaço. Aqui era o zona onde, a D.ª Fernanda, vendia uns coelhitos, umas galinhas, um ou outro galo e, ovos do dia.

Mais à frente, com a balança e, respectivos pesos em redor, existia um dos balcões, pertencendo ao do layout da mercearia do Ti Manel e do Ti Luís. Nesta secção da praça, também se podia entrar pelas portas existentes, no lado da empena do edifício, a sul. Direi mesmo, ser uma das portas, (ver foto nº 4) a entrada principal da mercearia, onde tinha confinante a taberna, com uma outra entrada.

Já que se refere a taberna, os homens que a frequentavam, emparceiravam-se ao balcão, para beber o “briol” dos pipos acostados em redor das paredes. Eram quase sempre aviados pelo empregado o Sr. António, homem alto e bem-parecido.

O chão apresentava-se sempre limpo, polvilhado de serradura, certamente para enxugar os pingos do “briol” que se perdiam, quer no aviar, quer no deglutir.

Ainda, na mercearia, os produtos estavam dispostos em sacas, tulhas e outros recipientes para sólidos, com vistas a serem vendidos a avulso (retalho), em pequenas quantidades. O dinheiro dos fregueses era muito pouco. O bacalhau era vendido à posta, já demolhado. O azeite aos decilitros. O açúcar, farinha e o café, eram vendidos aos gramas, embrulhados em papel grosso ou em cartuxos. Alguns produtos gordurosos, a exemplo; a manteiga e a banha, em exposição nas largas terrinas sobre o balcão, eram pesados e, entregues aos clientes embrulhados em papel vestal.

Uma vez consegui “rapinar” 5 escudos, do porta-moedas da minha mãe. Fui à mercearia comprar rebuçados dos bonecos da “bola”. A lata meio cheia, praticamente se esgotou. Tinha esperança que a dita cuja, de catechu, me saísse. Não conto, para além da bola, o que me saiu na “rifa”, mas é óbvia a adivinhação.

Continuando:
A seguir ao balcão da mercearia, estava situada a padaria. Sendo caixeira uma outra Dª. Fernanda. Esta senhora era a mulher do Sr. Alberto, chefe da polícia municipal.

Aqui o pão, não estava, como hoje está, sujeito ao trigo de baixa qualidade. O seu fabrico era de modo tradicional, não industrializado. Era cozido no forno a lenha. Dificilmente, nos dias de hoje, se encontra pão com a qualidade que, a D.ª Fernanda vendia.

Ao lado da padaria, ficava a bancada do peixe, onde sobressaía, por serem sempre frescas e mais económicas, espécimes que, davam pelo nome de “chicharros” (carapau grande), “joaquinzinhos” (carapau muito pequeno), “petingas” (sardinha pequena) e os cachuchos de porte médio. Elvira era o nome da senhora peixeira.

Também havia um talho. Comercializava “miudezas”. Tinha paredes meias com a secção da D.ª Elvira. O cortador, foi de primeiro, o Sr. António, depois, o Sr. Mário. Creio saber, por via do que se passava em minha casa, serem as carnes mais vendidas, aquelas que se podiam cozinhar guisadas. Ora com batatas, ora com massa ou ainda com feijão branco ou encarnado: Como exemplo; refiro a “dobrada”, a “fressura” e os “pés de carneiro”. Também vendia iscas, corações e mioleiras, produtos bem mais acessíveis à bolsa dos pobres.

Dada a volta completa ao interior da praça dizer que, no seguimento das secções referidas, havia uma arrecadação onde os pracistas guardavam alguns artigos, sobretudo aqueles que vendiam os produtos hortícolas.

Mas…o que a maioria não sabe; é que um dia, por ocasião do alcatroamento do arruamento por detrás deste grande edifício, diante o deslumbramento dos miúdos quererem ver a funcionar o cilindro que esmagava o alcatrão (qual monstro de máquina), pularam para dentro da “locomotiva” e, puseram-na em marcha. Seguindo-se, metros à frente, várias tentativas para o fazer parar, mas sem êxito.

Atento à brincadeira, à sombra das existentes oliveiras e, a almoçar, estava o operário condutor. Não fora ele a saltar e, a desactivar a marcha do cilindro, não sei se o pavilhão que sustentava a praça, “já era”, com consequências imprevisíveis.

Rememorações:
Texto:
Identificação de parte das personagens. Clarisse Caetano

Cedência de fotos:
Foto nº 1, Irmã Inês, entrada do Bairro.
Foto nº 2, Ana Cristina Vaz, entrada da Praça.
Foto nº 3. Raul PSinos, Ajardinado da entrada do Bairro.
Foto nº 4. Ana Cristina Vaz, Sebe existente na frente da Praça
Agosto do 2012

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

HISTÓRIAS DO MEU BAIRRO VELHO DAS FURNAS XXIII

OLHA LÁ OH ZÉ. A “BICHA” JÁ ALIVIOU A TRIPA?
FAZIA-ME JEITO UM POUCO DE ESTRUME PARA ESPALHAR
NA TERRA ONDE TENHO AS FLORES!



…A carroça do “pitrolino” que percorria o velho bairro, nas quintas-feiras passava à minha porta. Este era o dia da semana que, permitia à D. Georgina, minha mãe, e não só, adquirir um ou mais dos artigos que vendia…
…Gostava de ver aquela bonita égua, com a cor do pelo em tons cinzentos e brancos…
…Na memória ainda relembro a “Maria Alice”, já cansada, a subir a pequena ladeira da Rua das Tílias, ao encontro da cocheira…



Esta linda égua, quando pelas pessoas passava, levantava ligeiramente o focinho parecendo procurar uma mão caridosa que lhe fizesse um afago.
Anda “Mª Alice”! Dizia, um dos irmãos “pitrolinos”, depois de aviar a freguesia que, se abeirava à carroça.
De seguida, em nova partida, com um sopro, um deles tocava a pequena corneta de cor amarela, dependurada no pescoço por uma corrente.



“Maria Alice” era o nome da égua do “pitrolino”!
Passava pelas tardes, sempre, na minha rua a puxar a carroça cheia de infusas, caixas e garrafões, contendo diversos artigos líquidos e sólidos que, os seus donos comercializavam pelas ruas da zona de Palma e, pelos bairros circundantes.
O armazém destes vendedores de porta a porta, estava situado no Largo, onde também estava (está) a sede do Sport Futebol Palmense.



Para os habituais circuitos diários, a “Maria Alice”, saía cedo. Obediente, lá andava, vaidosa, ostentando os seus fortes membros e, a crina comprida e bem penteada. A enfeitar o pescoço a guizeira. A amiúde a sacudia, fazendo tilintar, não só os guizos, como também e um pequeno sino de bronze, já negro pelo tempo.
Se a memória não me falha, eram 2 as vezes que a carroça do “pitrolino” visitava o meu velho bairro. Nas quintas-feiras, pelas tardes, passava na frente da minha casa. Era o dia da semana que, permitia à D. Georgina, minha mãe e, não só, adquirir um ou mais artigos - petróleo, álcool (azul), azeite, vinagre, aguardente, barras de sabão azul e branco e o amarelo, etc., - que então vendiam por porta a porta.



Como eu gostava de ver aquela bonita égua, com a cor do pelo em tons cinzentos e brancos. Logo que ouvia o soar da corneta no princípio da rua, deixava o que porventura estava a fazer, e esperava-a junto à cancela do meu quintal.
Sabia que a minha mãe iria, seguramente, fazer parar a carroça, para comprar um ou outro artigo, ou pagar algo ao “rol”. Era a oportunidade que tinha de lhe fazer festas e, pelas escondidas dar-lhe a comer uma folha das couves-galegas existentes no meu pequeno quintal.
Prendia-me nos olhares das mulheres, a verem medir, uma, o pedido do petróleo para o candeeiro ou para o fogão. Uma outra, segurando o funil e a garrafa do azeite, aguardando pela sua vez. Arrepiava-me quando via cortar, as barras de sabão (azul e amarelo) com um “facalhão” de meter medo.



Uma vez ouvi alguém dizer:
…Olha lá oh Zé. A “bicha” já aliviou a tripa? Fazia-me jeito um pouco de estrume para espalhar na terra onde tenho as flores…
De facto não havia reclamações quando a “Maria Alice” aliviava “as tripas” pelo chão. Depressa os excrementos eram apanhados, ainda quentes, por alguém e, aproveitados para estrumar as pequenas poções de terra dos quintais.
Ao contrário, acontecia com as “mijadelas” que, 2 baldes de água não chegavam para as lavar.
Que o diga a Fernanda Arsénio, pois rezava a todos os santinhos para que, a “Maria Alice”, não o fizesse à sua porta na Rua dos Choupos.



Os tempos são outros. Já não temos o “pitrolino” à porta. Pelo telefone ou pela NET, é possível encomendar o rol das necessidades de qualquer casa e, ser entregue por um qualquer carro da distribuição, de uma grande superfície comercial.
Mas na minha memória relembro, no fim das tardes, já por vezes no raiar das noites, a “Maria Alice” já cansada, puxada pelas rédeas em jeito de ajuda, a subir a pequena ladeira da Rua das Tílias, (hoje Rua Padre Carlos dos Santos).
Por fim, com a carga aliviada, lá ia com os seus donos, ao encontro da cocheira.

Foto Google

domingo, 17 de junho de 2012

OH MEU LINDO SÃO JOÃO



São João santo bonito
Bem bonito que ele é
Com os seus caracóis d’oiro
E seu cordeirinho ao pé

Dizem que o São João é o santo que mais se festeja na Europa e que, durante muito tempo era dos três santos populares, que a igreja, por causa da sua fama de sedutor, menos confiava.

Também se diz, que o Povo, ao São João, este também com a fama de casamenteiro, sempre lhe dispensou grande admiração, sobretudo nas camadas mais jovens. A popularidade, aproximação e veneração eram de tal ordem que, era comum ser tratado por tu, posição bem invulgar há época.

As festividades em honra do São João destacam-se, pela sua sumptuosidade e, grandiosidade popular, sobretudo nas Cidades do Porto, em Braga, em Almada, em Guimarães, em Portimão e, em muitas outras cidades e vilas de norte a sul do país.

São João vem ver as moças
Bem bonitas que elas são
São ainda mais bonitas
Na noite de São João

Jovem e, já menos jovem, nos meses de Junho, por estas ocasiões, era como se diz …um virote… Não havia bairro ou arraial em Lisboa que, o rapaz, não os abrilhantasse com a sua presença e, satisfação. No entanto, por outras razões, há 2 datas bem marcadas, que, por muitos anos que viva não as vou esquecer, é a sexta-feira do dia de 23 de Junho de 1972 e, a terça-feira do dia 24 de Junho de 1980.

Pelas 16 horas, daquela sexta-feira, véspera de São João, do ano de 1972, nasce na Associação dos Empregados do Comércio, na Freguesia de S. Lourenço, em Lisboa, a minha filha Sofia e, nessa mesma noite, “doido” de alegria, festejei tal acontecimento no arraial, num Largo ali bem perto, o do Largo da Graça. Foi bonito e muito gratificante, verificar o gesto de gente desonhecida, em meu redor, a aplaudir e dar-me os parabéns, quando de braços levantados lhes anunciei o acontecimento.

O outro acontecimento verificou-se pelas 09 horas, numa terça-feira, dia de São João, mas 8 anos mais tarde (1980). Nasceu no Hospital de Stª Maria, na Freguesia do Campo Grande, em Lisboa, a minha filha Catarina. Desta vez não fui para um qualquer arraial da minha cidade natal, na medida em que, não só por razões dos festejos dos anos da filha Sofia, mas também pelo vaivém, durante a noite, casa/hospital/casa/hospital até à hora do nascimento. Mas a alegria nesse dia e, nos dias que se seguiram obviamente bonitos e cheios de alegria. 

Aos meus neto/as (Luis, Inês e Lara) dizer, que, não houve para mim e, naturalmente para a vossa avó, em todos os anos, melhores noites de São João!

domingo, 10 de junho de 2012

TRADUZIA UMA PAISAGEM EXUBERANTE A COLINA DO VELHO BAIRRO DAS FURNAS XXII

… Raros são os testemunhos da importância deste espaço, outrora “salpicado” de oliveiras…
… Conseguia traduzir um misto de paz e sossego a quem o visitava...
… Fechava todo este panorama, uma linda escadaria...
… Muitos furnianos, felizmente o recordam com saudade…

Sabe-se que a construção, do velho bairro, foi dada como concluída em 1946. Recebe 3 três meses mais tarde, os primeiros habitantes. Foi edificado nos terrenos da chamada Quinta das Furnas, pertença da Camara Municipal de Lisboa (CML), conferindo, segundo o programa de Casas Desmontáveis, incerto na Lei 28912 de 1938, ao realojamento, de famílias de rendimento muito pobre.

O terreno onde foi erigido apresentava-se, a oriente, com uma colina “salpicada” de oliveiras. Quem entrava pela Azinhaga (rua) das Furnas, olhando o chão na sua frente, na direção ao sul, deparava um ligeiro declive, a “cair” para a aba da serra do Monsanto.

Não fora a destruição dos vitrais e do sino. Do espatifar de dezenas de fotografias históricas, por via de gente do alheio aquando a “visita”, às provisórias instalações do Centro Social, situado algures num sítio que, hoje se identifica como Rua Costa da Mota. Seria mais fácil construir esta breve resenha do lugar que, durante muitos anos, deixou observar todo um espaço que, conseguia traduzir um misto de paz e sossego a quem o visitava.

Que saiba, também ninguém, nos presentes dias, tem o panorama impresso, ou se quisermos a fotografia que, retrate, reproduza, no seu todo, o cenário arquitectónico construído no adro. A procura foi grande, inclusivamente nas instituições que, supunha-se haver testemunhos em arquivo. Refiro-me, ao espaço que sustentava a nossa Igrejinha e, o Cruzeiro que lhe fazia companhia

Segundo melhor opinião, até à data, raros foram os textos a descrever o enobrecimento, o valor histórico/devoto que, exortou durante anos, milhares de fiéis à oração e, à formação religiosa. Como raros foram os escritos, com os testemunhos da importância, para outros milhares de pessoas, que subiram ao alto, outrora “salpicado” de oliveiras, com vistas a observar todo um quadro paisagístico que proporcionava.

A foto, que, retrata todo o exterior da capela, foi reconstruída a partir de outras imagens, com ângulos diferentes. No entanto, apesar de não ser uma fotografia original, crê-se que, a fidelidade, resulta quase a 100%.

Na fachada da capelinha observava-se um vitral do feitio hexagonal, com a existência de uma cruz dourada ao meio. É bem visível o campanário com o sino. Sobre este, a cruz, era electrificada. Em dias festivos, ficava iluminada durante as noites.

Embora não seja visível, a larga porta de entrada, possuía, quer do lado esquerdo, quer do lado direito, 2 portas mais pequenas, dando acesso ao interior. Também nas traseiras, a cada um dos lados, existia, de dimensão idêntica, outras 2 portas, para acesso à sacristia e, a um pequeno cartório, que tinha como finalidade reuniões de organização com os fiéis.

Neste espaço, também visível a escola dos rapazes, apresentava-se sempre bem ajardinado, cuidado e limpo. Existia ainda um Cruzeiro. Este marco foi cenário de enumeras recordações, quer fotográficas, quer com as brincadeiras da pequenada. Era feito de pedra, com uma cruz em relevo, cravada com cimento, a toda a sua altura.

Fechava todo este quadro, uma linda escadaria. Era feita de pedra com vários lanços, dos quais, o ultimo, era ladeado com ciprestes. Conferindo-nos, ao contrário do seu simbolismo, um cenário encantador.

Como é bom recordar, quando nos dias de domingo, misturados com a paisagem, os cânticos que se ouviam, vindos da capela, entoados pelas raparigas e pelos rapazes, em coro, primorosamente ensaiados pela D. Mª de Lurdes.

Já no final da missa, não menos belo, em sinal de alegria, repicar do sino, accionado pelo sacristão Sr. Cristóvão, fazendo-o ouvir por quilómetros de distância.

Tenho como ideia que, não houve sensibilidade suficiente para se ter preservado, naquele ou noutro lugar, a capela e o cruzeiro do velho bairro. Outros o fizeram quanto à capela.

Todo este espaço, todo este cenário arquitectónico de outrora e, todas as recordações que encerrou, constitui um marco histórico da vida de muitos furnianos que, hoje, felizmente o recordam com saudade.

Bibliografia:
Discrição - Vitral da capela e do Cruzeiro - Livro “O nosso Bairro” – Mª Lurdes P. Gomes
Foto - Terreno Quinta das Furnas – Sapo.pt
Foto – Adro com a Capela e Cruzeiro – montagem da furniana Teresa Carvalho (Té)
Rememoração (partes) da furniana – Clarisse Caetano

domingo, 3 de junho de 2012

AS FESTIVIDADES EM HONRA DO STº ANTÓNIO NA CIDADE E NO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS XXI

…Como contente ficava, aquando menino, pela “ajuda” que, o seu nome (Stº António), prestou nos "ganhos” com a pedinchice, para comprar as gulosices, os bilas, as pevides, os tremoços e os amendoins...
…As bandeirinhas, em forma de triângulo, eram coladas numa comprida guita. O miolo do pão desfeito em água, com a farinha, era a cola utilizada...
…Também alguém não se esquecia de colher alcachofras em flor, para aferir, depois de queimadas no fogaréu, se tornavam a florir...

Adorado pelo povo, sobretudo o de Lisboa, Stº António era (é) conhecido como o protetor dos pobres, do auxílio na busca de pessoas ou objetos perdidos. Amigo nas causas do coração, nomeadamente no auxílio às moças solteiras a encontrar noivo.
As festas na cidade, visam, homenagear este alfacinha de “gema” tão amigo do povo. E é nos bairros populares que teem maior expressão. Estas festividades desenvolvem-se por vários dias, mas é na noite de 12 para o dia 13 de Junho, o feriado municipal em sua honra, que se verifica maior frequência das gentes nos arraiais montados.
Não faltam os vasos, de tamanhos variados, com os manjericos. São enfeitados com cravos e, pequenas bandeiras de papel que, ostentam frases/rimas/quadras bem populares e brejeiras para se oferecer aos namorados ou para “interesses do coração”.
Ao som das músicas dos quintetos e das charangas, “embrulhados” nos cheiros das sardinhas, das fêveras e dos pimentos assados, tudo regado com vinho a granel, sangria ou cerveja. O povo não perde a oportunidade de dançar ao ritmo das músicas populares com trechos bem conhecidos. Na ressaca não falta na malga de barro, bem quentinho, o tradicional caldo verde.

O manjerico comprado
Não é melhor que, o que dão.
Põe o manjerico ao lado
E dá-me o teu coração.

Como recordo as noites passadas, nas antigas festividades em honra do Stº António e, dos outros Santos Populares. Também relembro, aquando moço, as alegrias e o contentamento nas noites perdidas em folia,  no meu velho Bairro das Furnas, mas também nos mais variados bairros da cidade.
Como contente ficava, aquando menino, pela “ajuda” que, o seu nome (Stº António) prestou nos "ganhos” com a pedinchice, para comprar as gulosices, os bilas, as pevides, os tremoços e os amendoins.

No trono do Stº António
Todo o dia vou ficar
Vou pedir tostõezinhos
Para guloseimas comprar

Por esta ocasião, as ruas do velho bairro, eram ornamentadas por bandeirinhas de papel. Para a construção e montagem dos enfeites, dias antes, a população organizava-se, miúdos/as e graúdos/os todos ajudavam.
As bandeirinhas, em forma de triângulo, eram coladas numa comprida guita. O miolo do pão desfeito em água, com a farinha, era a cola utilizada. Estas correntezas de bandeirinhas, de cores diversas, colocavam-se cruzadas, ou não, na frontaria das casas atravessando a rua.
Na maioria das janelas e nas portas, sobretudo nos quintais virados para a frente, haviam vasos com manjericos. A minha rua – a dos Plátanos – quer no princípio, quer no fim, era ornamentada com folhas de palmeira cortadas do arbusto, existente na frente da casa da D. Estrela.

Na rua atravessa a bandeirinha
A janela tem o manjerico
Para um dia seres minha
Vou pedir-te o namorico

Na minha adolescência, nos bailes, eram férteis os “affaires” com as raparigas. Que saudades dos bailaricos ornamentados e decorados com balões de variadas cores. Havia um arraial logo na entrada do bairro, no pequeno largo na frente da praça e, lá ficava montado até as festas, em honra dos 3 Santos populares. Também era comum “visitar” os arraiais montados nos vizinhos bairros, das Águas Boas, do Calhau, e, do Bairro do Grandela.
Mais espigadote a festança também era dividida pelos largos, becos, vielas e ruas de outros tantos bairros desta minha cidade que é Lisboa.

Como me dava gozo (e trabalheira) recolher a madeira com vistas a acender as fogueiras. Por essa ocasião a ansiedade na espera pela noite era muita. Também alguém não se esquecia de colher alcachofras em flor, para aferir, depois de queimadas no fogaréu, se tornavam a florir. Quando não fôra assim, era sinal que, o amor por quem se desejava, não tinha reciprocidade. Bem tristes ficavam as raparigas. Enquanto os rapazes malandrecos…

Ou ela não usa calças
Ou as tem na lavadeira
Dei por isso ontem à noite
Quando saltava à fogueira

domingo, 20 de maio de 2012

HISTÓRIAS QUE O MEU VELHO BAIRRO ENSINOU XX


…Apraz-me sentir, pelas manhãs, o vento fresco na cara. Ver o “dançar” das árvores e o entrelaçado da hera que, sempre arranco uma folha...
…Como as árvores que dão como frutos a amizade. Espero pacientemente, que o “tempo e o vento” as façam cair quando essas já estão podres.

O levantar cedo nunca foi para mim grande preocupação. Mesmo em pequeno, quando ao acordar, era lesto no arrebitar. Talvez pelo costume de minha mãe que, antes de sair para o trabalho, ficava com a certeza que o seu filho tomava o pequeno-almoço que preparara.

Era certo que as horas das aulas ainda não estavam por perto. O compasso da espera permitia fazer uma, ou outra, redacção a que estava obrigado. Caso contrário, fizesse chuva ou sol, fazia-me ao caminho.

As escolas (dos rapazes e das raparigas) ficavam por detrás da igreja, situadas na colina, lá bem no alto, do velho bairro. No seu caminho, tinha todo o tempo, para chutar as pedras soltas, da bonita escadaria, ladeada por ciprestes, que lhes dava o acesso. Olhar o “bailado” e o “sentir” da cumplicidade das árvores em que os seus frutos são os pássaros. Espreitar, os ninhos previamente, ou não, identificados. Responder aos seus cantares com o assobiar. Eram, no dia-a-dia, as rotinas dos meus trajectos.

Já na tropa, sobretudo em África, no país em que estive dois anos mobilizado, estes hábitos não se perderam. Acresciam a toda esta vivência de miúdo, outras realidades: O sumido canto dos galináceos existentes na tabanca, do piar das aves rapinas, o coaxar das rãs e, sobretudo, do cheiro da terra que pairava no ar. De manhã, bem cedo, tudo isto, como no passado, me encantava.

Agora, já a curvar as costas, proveniente da idade, ainda me levanto cedo. Mesmo quando aos fim-de-semana, o mais comum dos mortais gosta de estar enrolado, mais umas horas, nos cobertores.

É certo que, já não me faço ao caminho desabrigado da chuva, como fazia em pequenote. Quando o tempo permite, apraz-me sentir, pelas manhãs, o vento fresco na cara. Ver o “dançar” das árvores e o entrelaçado da hera que sempre arranco uma folha. Ouvir, como outrora, o “acordar” da passarada. Ver do seu jeito o banho, que sempre fazem nas poças existentes, repelindo repetidamente a água das pequenas asas. Gosto ainda de responder, como ontem, ao canto das rolas e ao assobio dos melros.

Nas presentes manhãs, é neste quadro que balançam os mais variados pensamentos. É neste quadro que arrumo as ideias do projecto da vida e, me penitencio dos erros cometidos. Procuro ser como as árvores em que os seus frutos são amizades. Ter uma relação de vida pacífica. Nunca fui apressado em sacudir as dúvidas do acaso quiçá destroçado. Espero pacientemente, que o “tempo e o vento”, as façam cair quando já estão podres.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Pelo o horror e pelo sacrificio e ainda em memória dos que tombaram nesta guerra estúpida e desnecessária

GUINE - NOVA SINTRA

                                 O PÃO QUE O DIABO AMASSOU


…Meu Capitão, eu tenho muito medo, não me deixe ir para Nova Sintra, tenho um mau pressentimento… -
…Vou falar com o Comandante, logo te digo…respondeu-lhe o Capitão.
…Então meu Capitão já tem resposta para mim? –
…Tenho! O Comandante não abre excepções. Vão todos.
…Ninguém fica para trás, olha que insisti bastante!
O Ramiro Neto morreu em Nova Sintra, a 13 de Maio de 1968.


Com “aviso prévio”. 7 Dias depois, aquando da primeira flagelação do inimigo (IN), às posições das nossas tropas (NT), estacionadas em Nova Sintra - Guiné, o nosso bravo camarada morreu. A morte foi originada pelo estilhaço de um rebentamento de uma granada de morteiro. Pensava ele estar protegido, na vala-abrigo que construíra, pela tampa de chapa de bidão.
O fragmento entrou pelo único buraco que deixou aberto. Foi a 13 de Maio de 1968.

Na zona operacional do comando do Batalhão de Artilharia (Bart1914), a tabanca de Tite, que ladeava a sul e a norte o aquartelamento das nossas tropas (NT), era o maior agregado populacional do perímetro operacional, seguindo-se as tabancas de Bissassema, Jabadá e Fulacunda, de entre as demais.
        Esta dispersão populacional, contornada por rios, bolanhas e matas, rica no cultivo orizícola, em pecuária (bovino) e, na suinicultura (suínos), possibilitava, ao inimigo (IN), grande mobilidade no desencadear das acções de guerrilha, na flagelação aos nossos aquartelamentos, e, no controlo demográfico e político-administrativo das populações.
        Consequentemente, ainda permitia sacar, dos habitantes, farto abastecimento em géneros, roupas (panos), e elevado recrutamento de carregadores para o transporte do material bélico.


Toda esta magnificência operacional do IN, obrigava a implementar, da nossa parte, um vasto e variado conjunto de operações de combate, e, simultaneamente desobstruir estradas e caminhos, há muito emaranhados por denso matagal, criar novos aquartelamentos na área, com foi o caso em Nova Sintra.
         Anulada a guerrilha nos trilhos. Desobstruídas as estradas e os caminhos, reparados, reconstruídos ou mesmo construídos os pontões, veio permitir utilizar meios, até aí impossibilitados, nomeadamente os carros de combate – Daimlers – (jeeps blindados) e, viaturas ligeiras e pesadas para transportes das tropas.


100 METROS QUADRADOS DE HORROR


Dos nossos opositores, todas estas acções não podiam ficar sem resposta. Detentores do território, organizados, bem armados e municiados, procuravam, energicamente, impedir a construção do aquartelamento, montando, para o efeito, novas emboscadas e, a colocação de dezenas de minas no terreno e granadas accionadas por fio de tropeçar. Destruíram, por várias vezes, os pontões já implantados, colocaram abatizes armadilhados e, organizaram obstáculos por grossos ramos de árvores, fortemente ligados ao solo com as extremidades aguçadas.

No entanto nada destas acções, viriam a impedir as NT de consolidar a presença no terreno. Chegados ao local, despejadas as viaturas, os trabalhos iniciaram-se a ritmo acelerado. Isolou-se o perímetro com o arame farpado, construíram-se valas-abrigos, a norte e a nascente, talvez com 2 metros de largo e 5 metros de comprimento e, as latrinas. Deu-se começo às fundações para os futuros pavilhões e, postos de guarnição para a defesa das posições. Começou-se também a limpar terreno com vistas a abertura da pista de aterragem.

Conta o Ex-Furriel Domingos Monteiro:
…As moscas e os mosquitos eram “personagens” deveras e muito incomodativas de dia. Á noite faziam desesperar com as sucessivas picadas, nem mesmo a roupa que trazíamos vestida as conseguia travar!
Acrescentando:
…As horas que passavam na escuridão daquela selva, mais pareciam dias. As chuvas também estiveram presentes. Quando, passados 7 dias de medos e incertezas, a 13 de Maio de 1968, pela calada da noite, o perímetro de terra e lama onde as NT se aquartelavam, com cerca de 100 m2, rodeado de arame farpado, é atacado, em força, por cerca de 100 homens. Causando às NT, 1 morto e 19 feridos graves que, muitos foram evacuados, nessas mesma noite, por helicópteros directamente para Bissau. Do lado contrário, as mortes confirmadas foram em número de 26 e feridos 31…
…Na manhã seguinte e durante o dia os trabalhos continuavam. No perímetro patrulharam-se as estradas e os caminhos, aqui ali rastos de sangue e material bélico ligeiro que, foi deixado para trás. Os nossos alimentos durante dias, foram as rações de combate. Na água que bebíamos colocávamos comprimidos para evitar as diarreias e febres…

Por sua vez o Carlos Leite (Reguila) refere:
…Na sucessão dos dias tudo era igual, o trabalho com as pás e com as picaretas calejava-me as mãos, o medo era constante, mas a disposição para a luta sobreponha-o…
…O cantarolar da passarada não me parecia ter o mesmo encanto…
…No terreno lamacento, alguns sapos, eram “sticados” pela pá ou com a picareta…
Refere ainda:
…Pelas noites dentro o sofrimento era maior…
…Aqui ali ouvia o ladrar dos cães…
…O vento ora forte ora brando, fazia-me confundir o “som” da selva...
…Ouvia as flagelações do IN a outros aquartelamentos e questionava-me; quando será, novamente, a nossa vez...que foram muitas…
…Eram nestes momentos que a falta da família e dos meus amigos mais se sentia…


Com “aviso prévio”, foi no breu da calada noite de vento brando que, o nosso amigo e querido camarada Neto morreu.
        A morte foi originada pelo estilhaço de um rebentamento de uma granada de morteiro. Pensava ele, na vala-abrigo que construíra, estar protegido pela tampa de chapa de bidão. O fragmento entrou pelo único buraco que deixou aberto. Foi a 13 de Maio de 1968.

Dá cada dia ao homem novo alento
De conquistar o bem que lhe é negado
Dá a conquista um puro sentimento
As balas dão o sangue derramado