quarta-feira, 17 de outubro de 2012

FOI NUM DOMINGO DE OUTONO



 

O MEU PRIMEIRO ENCONTRO COM OS SUPANOS


Não sei precisar o dia que, ao telefone oiço uma voz muito familiar!
...Oh pai, a Lisa quer falar contigo, faz o favor de lhe ligar.
De pronto assim o fiz.
...Olha lá Pica Sinos, queres ir ao almoço convívio do pessoal da Supa, do teu tempo, é no próximo dia 14 de Outubro?

Instalada no Palacete Falcarreira, em Lisboa, mais propriamente na Rua do Salitre nº 136-1 º, a Casa do Ribatejo, tem, como todas as instituições no género, o objetivo engrandecer e prestigiar toda a região ribatejana.
Tem vindo a servir de ponto de encontro dos ribatejanos e amigos do Ribatejo a viver ou não na capital.

Não sei da motivação deste Encontro de Outono dos Supanos72/2012, neste tão nobre palacete, onde, a minha mulher, como boa ribatejana se sensibilizou e, muito, por estar em “sua casa”.
Também dizer que, foi com sentida satisfação ter recebido o convite para me juntar no almoço, com antigos colegas do “Pão de Açúcar”, eventos que, segundo me disseram, têm vindo a serem realizados há cerca de 13 anos.
Foi muito boa a tarde daquele domingo, 14 de Outubro de 2012.
Ter a oportunidade de ver, beijar e abraçar colegas que, há cerca de 4 décadas não tinha esse prazer, foi muito gratificante.


As conversas, as recordações, seguidas por um excelente menu da região ribatejana, certamente escolhido pelos organizadores foi tudo uma delícia.
O convívio foi muito animador e repleto de alegria.
Espero ser, numa próxima oportunidade, igualmente convidado.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

UM DIA DESTES APANHO O 28

…Oh pai! Porque não vamos dar uma volta no 28?
…No ponto de vista turístico é muito interessante!
…Os miúdos nunca andaram de electrico, eu, há muito, também não.
… Levamos a família, é capaz de ser giro!
…Alinhas?

Este convite fez-me lembrar os meus “passeios” por Lisboa, nos primeiros anos em trabalho na Robbilac, quando na função de paquete, na procura de obras em edifícios, sobretudo para restauro da pintura exterior.
Eramos 2 paquetes com esta função.
Eu e, o João Sequeira, percorríamos na maior parte a pé, a cidade em cruz. De Algés até aos Olivais, das Portas de Benfica ao Cais do Sodré, eram os nossos caminhos na procura das obrigatórias “balizas” em madeira que, a Camara Municipal mandava colocar, com vistas a sinalizar o espaço ocupado com a obra no edifício.

Tínhamos as trajectórias organizadas por rotas diárias. Se o meu camarada ia para o norte eu encontrava-me a sul.
Se no percurso lhe estava destinada a zona Este, eu estava situado a Oeste.
O giro visava os “cantos”, becos, azinhagas, ruas e avenidas da capital.
De quinze em quinze dias, as zonas eram trocadas o que, obrigava, fizesse chuva ou sol, num período de um mês, percorrer esta minha terra natal.
Objectivo: procurar as citadas e obrigatórias “balizas” em madeira, identificando o dono da obra, para posterior visita do vendedor, com vistas à promoção e venda dos materiais a utilizar.

Foi atrás referido que, a maioria do percurso, pelas ruas de Lisboa, era feito a pé.
É verdade.
Quando utilizava os “amarelos”, era na modalidade de “pendura”.
O dinheiro do custo dos bilhetes era-me ressarcido, a troco dos tickets que, entregava encontrados no chão.
Sempre dava para comprar uns cigarritos avulsos.
Tenho algumas saudades desse tempo.
Tenho saudades do “amarelo”.

Tlim, Tlim,
Vou aceitar o convite da minha filha Sofia.
Vou com a família apanhar o 28 e, “beijar” 4 (Castelo, São Vicente, Graça e Camões) das 7 colinas da cidade que me viu nascer.

Fotos:
Perdidas no Google

domingo, 14 de outubro de 2012

HISTÓRIAS DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS (XXXI)


NÃO HAVIAM MULHERES, NA LUTA DO DIA-A-DIA, MAIS DEDICADAS
PELO BEM-ESTAR DAS FAMÍLIAS

No blog – (Histórias do meu velho Bairro das Furnas (IX)) – redigi um apontamento, narrando a luta das jovens mulheres, do meu velho Bairro das Furnas, pela sua emancipação, fundamentalmente no período dos anos 60.
É o meu ponto de vista!
Fui testemunha dos factos nessa década.
Ainda quanto à indumentária, é minha vontade acrescentar a esse meu apontamento, uma outra observação ao descrito no livro “O Nosso Bairro”, ora respeitante às mulheres não tão jovens, as suas responsabilidades com o lar, com os filhos, maridos e, com o trabalho.



Na presente análise, situo-me na época onde o regime defendia uma política fascista, social e económica que, a todos afectava, às mulheres duplamente.
Propagandeava-se que, para a sustentação de um lar estável, a função da mulher, esgotava-se no ato de dar à luz, na criação e na educação dos filhos.
Reclamar por trabalho fora de casa e, os mesmos direitos dos homens eram actos de rebeldia.
Por isso e, na senda, mesmo tendo em conta o regime sustentado, defendo convicto, neste meu pequeno sumário, que, não devo deixar passar, sem crítica, afirmações escritas de cariz algo duvidoso, atribuídas à generalidade das mulheres do meu velho Bairro.



No estudo das datas;
A autora do monograma inscrito no livro “O Nosso Bairro”, veio trabalhar para as Furnas em 1948, com a função de mestra da Casa de Trabalho das raparigas.
Tinha 20 anos de idade.
Infelizmente morreu em 1996.
Não deixo de referir que, durante 48 anos na observação do trabalho desenvolvido junto das mulheres jovens e, menos jovens, não observou a evolução, no tempo, das gentes do nosso Bairro.



Creio não haver dúvidas se, se referir que, o período da citada observação do trabalho, foi bem suficiente para emendar, reescrever, aprofundar e, investigar as realidades então vividas.
Lamento não o ter feito, porque ficaram para a história, afirmações incertas no monograma que, no geral, estão longe da realidade, são excessivas, algumas em desabono da vida e, da imagem das mulheres, por quem, pela autora, nutriam simpatia.



Também ressalvo não saber, se algumas/uns conterrâneas/os ficarão comigo “incomodadas/os”?
Escrevo sobre do que vi e, do que, procurei saber.
Sou sabedor das muitas simpatias das gentes do meu velho bairro para com a autora do monograma.
Também observei as razões dessas simpatias. Mas ninguém está acima das críticas, mesmo aqueles/as já impossibilitados/as de se justificarem ou defenderem.



Contudo, não é em vão e, sem razões, a atribuição na toponímia do novo Bairro, o seu nome, mas reafirmo; Não entender porque ao longo dos anos, não cotejou a evolução das gentes, com quem de perto e, por muitos anos acompanhou, como refere no prefácio do livro, a vereadora do pelouro da habitação social da C.M.L.

…Muito do desenvolvimento que tem caracterizado as Furnas é em grande parte fruto de um árduo trabalho e de muitas horas dedicadas pelos homens e mulheres que, lá vivem…

Este fragmento do prefácio foi escrito no ano de 2006, mas podia ter sido escrito 30/40 anos atrás, porque não deixava de ser verdadeiro.



As contradições:
Por um lado,
…Não há uma profissão dominante. Há entre os homens vários polícias, serralheiros, carpinteiros, operários especializados ou não, alguns empregados de escritório….
…Há também muitas mulheres a trabalhar fora do lar, especialmente como mulheres-a-dias, vendedeiras ambulantes, ou empregadas em fábricas….
…Os homens andam vestidos como todos os outros na cidade…



Por um outro lado,
…Na indumentária que cada um apresenta, influencia também muito, além dos vencimentos, a mão da mulher.
Se esta é desmazelada, ou não tem tempo, as crianças, o marido e ela própria andam muito pior vestidos, sujos, com nódoas….
Se ela é cuidadosa, toda a família brilha….



A contradição não está nos hábitos que eram (são) impostos à mulher.
Todos sabemos como no passado, a esmagadora maioria das mulheres era duplamente reclamada – no lar – pelos filhos, pelo marido e, duplamente explorada no trabalho.
Referir a mulher como “desmazelada” pela exibição das nódoas que, sistematicamente os maridos apresentavam na sua indumentária, é uma afirmação de elevada injustiça!
O homem onde quer que fosse, por força da sua profissão ou não, na fábrica, na oficina, no trabalho de rua, no escritório ou, na tasca, apresentava-se com a sua indumentária carregada de nódoas e, a “desmazelada” era a mulher.
Ao contrário, a mulher era “cuidadosa” se, o homem procurava trazer a sua indumentária sem nódoas.
Que raio!



Não consegui “decifrar” tal filosofia, a não ser que, muito tenha a ver com o escrito abaixo. Certamente por filosofias visando responder às exigências políticas do regime, com vistas a contrariar a luta das mulheres pela sua emancipação, pela igualdade dos mesmos direitos que, os homens usufruíam:



Refere a Mestra:
…A casa de trabalho, com as suas lições de corte e de costura, e com as novas noções que irão ser ministradas (por exigência politica) às rapariguinhas que a frequentam, sobre a economia doméstica e outros assuntos, certamente que irá ajudar a habilitar as futuras mulheres a mães para a nobre missão de educadoras e de donas de casa….



Como nota final acrescentar:
Nesta data procura-se reunir, um conjunto de textos de amigos/as, com vistas a fazer jus ao trabalho desta senhora que, sei ter granjeado nosso velho bairro das Furnas, diversas simpatias, junto da camadas jovem e não só.
Sou sabedor de diversas iniciativas que abraçou, sobretudo nos finais dos anos 60 e, durante a década de 70 que, ainda hoje a muitos/as deixa saudades.
Sei das suas muitas conversas com as raparigas na esfera do planeamento familiar que, em casa era proibitivo conversar.
Momentos altos foram as iniciativas do foro teatral que, dificilmente alguém, nos tempos seguintes as perdurou.
Será justo referir o relato deste trabalho no seu monograma.
Será justo também referir da obrigação de alguém o anexar.

Nota: imagem da mulher:
Fotomontagem de várias fotos perdidas no Google
da responsabilidade da furniana
Teresa Carvalho (Té)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A "MINHA" MEIA LARANJA DO JARDIM ZOOLÓGICO




JÁ NÃO BROTA O “SUMO” QUE OUTRORA BROTARA


Durante meio século, poucas foram as modificações verificadas na “minha” meia laranja!
Direi mesmo, no passado, produziu muito mais “sumo” que, nos dias de hoje.
Agora, votado praticamente ao desamparo, sujo e mal estruturado, está longe de ter a mesma importância, brio e vivacidade de outrora!


Foi dado, a este espaço, o nome Largo Dr. Manuel Emídio da Silva, individualidade de reconhecido mérito, responsável desde 1904, por diversos cargos na administração do Jardim Zoológico, inclusive o de Presidente 1934/36.
O Largo em referência dava acesso, ao que, foi classificado durante muitos anos, de importante “ponto de encontro da cultura”.
Quem visitasse o parque zoológico, maravilhava-se pela riqueza da sua vegetação e, da fauna, carregado de muitos animais exóticos, importados de todos os continentes do mundo.


Tal relevância, na cidade e no país, mereceu neste Largo, a construção de um desdobramento do ramal (raquete como lhe chamam os entendidos) das linhas dos carros eléctricos, na carreira nº 1-Benfica.
A nova carreira (1-A), começava nos Restauradores, passava pela Av. da Liberdade, S. Sebastião da Pedreira, terminando no citado largo. Não me ocorre o custo do bilhete para o transporte dos passageiros. A não ser o preço do “operário” que, faço referência mais abaixo.
Foi também autorizado o estacionamento para os táxis que, chegavam, sobretudo aos domingos, a esgotar a toma!


Na verdade, toda esta movimentação originava uma vida diferente.


A visita das gentes oriundas, dos mais diversos locais do país, conferia-lhe uma vivacidade que, no presente já não se verifica.
Por muitas pessoas que, hoje, por ali passem, com excepção dos indivíduos com idade mais antiga, dificilmente ajuizarão, saberão, quão importante foi no passado este Largo, para quem por perto vivia.
Nas décadas de 50/60, em redor da “meia-laranja”, os carris dos carros eléctricos.
Em paralelo existia a praça dos táxis.
Recordo, na pequena banca de madeira, na frente da majestosa entrada do Zoo, a Ti Leonor, a vender amendoins, tremoços e diversas guloseimas.


…Olha o balão! É prá menina e pró menino. Olha o balão! Apregoava o seu filho “carregado” de balões de cores garridas, deambulando de um lado para o outro na estrada.
O “Estica” vestido de fato e, kiko branco. Vendia uma gulosice de cores diversas que, tinha o mesmo nome, transportada numa pequena mala, mais parecendo de viagem. O rebuçado já comprido, quando ao chupá-lo estendia-se até ao ponto de se poder dobrar.
“Olha o Estica” apregoava ele repetidamente.

“Século” ou “Noticias” também apregoava, com a sacola ao ombro, bem cheia de jornais, todos os dias, bem cedo, o Ti Zé jornaleiro. Pai do saudoso José Augusto, avô da Cristina e da Mónica Costa.
Como era simpático este Homem, bem amigo dos miúdos.
Pequeno só na altura.
Nas tardes, com a chegada dos vespertinos, “dispensava-me”, sempre meia dúzia de jornais, para os vender nos carros eléctricos, a circular na linha de Benfica.
Tem cuidado dizia-me ele. E eu como resposta cantarolava. “Olha o Popular”, “Olha o Popular”, imitando-o no seu pregão.
Era a oportunidade de andar na pendura no “americano”, sem levar com o alicate do “pica bilhetes” nas mãos.
Como fruto do “esforço” do trabalho sempre me dava, 20 ou 30 centavos, permitindo-me adquirir, à Ti Leonor, uma mão cheia de amendoins e pevides.
Que saudades do Ti Zé.


Recordo o pessoal na esquina do largo, no café “Jardim”, do Gonçalves, mais tarde pertença do Manuel.
Na frente da sua porta, sentados nas caixas da graxa, o “Digatim” e “Porto”, estalando a bom estalo com o pano no sapato do cliente, quando lhe puxava o lustro.
Freguesia ao fim-de-semana não lhes faltava.
Já no final da década, lá dentro do café, existia uma caixa de discos “Jukebox”, onde os jovens colocavam moedas para a fazer funcionar, possibilitando ouvir as músicas e as canções na “berra”.Elvis Peslay, Paul Anka, Little Richard, entre outros.


Ao lado deste café, uma tasca, segue-se o lugar das frutas e hortaliças da Ti Maria e, a petisqueira Caravana.
Mais tarde e, logo ao lado, surge o restaurante “Coral”.
Situado na outra esquina, apresentava-se já o café “Riviera”. Antes, no mesmo local, a tasca do Flores, onde também se vendia carvão ao fundo da mesma.

O primeiro carro eléctrico a partir do Largo era às 5 horas. O carro eléctrico, classificado “para operários”, funcionava ente as 5 e as 7 horas da manhã.
O preço do bilhete custava então 6 tostões.
Era mais caro fora daquelas horas. Ia sempre cheio.
De 15 em 15 minutos partiam. Os horários eram religiosamente respeitados. Algo que, o rapaz, por vezes não honrava por tarde acordar.
Não foram raros os momentos que, saturado da espera do tempo para as saídas dos carros eléctricos nos horários seguintes, sem rebuço, imitava o assobio do “apito de marinheiro” que, o expedidor usava para dar o sinal ao guarda-freio, quando chegada hora da partida.
Quando “pegava”, era digno de se ver o espanto de expedidor, tendo em conta a “desobediência” do condutor.
Apitando o assobio de forma desordenada, o expedidor fazia parar o carro eléctrico, já situado na estrada de Benfica

…. Onde vai? Dizia o expedidor
…. Não mandou partir? Respondia o colega

A risada não se fazia esperar.

Após os jogos no estádio do S.L.Benfica, era costume, os espectadores deslocarem-se, a pé, na direcção da estação do metro em Sete-Rios.
Quando o Benfica perdia, os largatões, não se esqueciam de aparecerem, na porta do café “Jardim”, para abespinharem os benfiquistas.
Antes, acendiam uma ou mais velas, em sinal de “luto” que, colocavam nas águias existentes, no cimo dos pedestais laterais da entrada do Jardim.

Hoje, são diferentes os tempos.

Com a construção da nova entrada do Jardim Zoológico, na frente da estação do metropolitano e, com o desenvolvimento deste importante transporte, a importância do Largo, já não se faz sentir como outrora.
Com a falência do “americano” no circuito da carreira 1-A, os carris foram retiradas, assim como a paragem dos táxis.
A velha, mas sempre majestosa, entrada do Jardim Zoológico, na frente do Largo foi fechada.
Mais recentemente, na restauração das torres, o relevo das paredes não foi respeitado, em clara ofensa à sua antiga arquitectura.
Verificar as suas cúpulas sem brilho, e amolgadas pelo tempo, não faz sentido.
Ao que parece só as ervas daninhas lhe fazem companhia.


No muro que acompanha o círculo, foi retirado o painel alusivo à Revolução do 25 de Abril de 1974.
O quiosque já não é utilizado por degradado e abandonado há anos.
Já não se verifica a estima e a vivência de outrora!
No entanto creio ser o tempo de algo ser reparado e respeitado!

È urgente dar mais vida à “nossa” meia-laranja!


Não sei se a existência dos caixotes do lixo, na linha de corte com a Estrada de Benfica, mesmo na frente da majestosa entrada do Zoo, será o “monumento” mais indicado, para glorificar os tempos e as pessoas do passado?

Foto do Largo:
Montagem da responsabilidade do autor.
Foto do Ti Zé jornaleiro:
Cedência da neta Mónica Costa.
Foto do bilhete operário:
Luís Cruz-Filipe
Foto das torres do Zoo:
Da responsabilidade do autor.
Mural:
Foto cedida pelo criador do mural

sábado, 29 de setembro de 2012

HISTÓRIAS DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS (XXX)



A LUTA DAS “MIUDAS” PELA SUA EMANCIPAÇÃO (I)

…A emancipação da mulher, era um perigo para a imagem e o bom nome da família…
…O trabalho era para o homem, a casa para a mulher!
…Era chegado o tempo de substituir as saias plissadas pelas saias lisas e ligeiramente ajustadas ao corpo...
…Tenho saudades de ver as raparigas da minha idade, quando se deslocavam para os seus trabalhos, apressadas, bem cedo…



No limiar dos 5 anos da existência do meu blog, http://raulpicasinos.blogspot.pt/, alguns interessantes retratos da minha vivência, mas também, acontecimentos de antanho, com as gentes do meu velho Bairro das Furnas, já foram descritos. Mas há um (entre outros) que, reputo de grande significado e, a minha mente, ainda não descercou.



Refiro-me às miúdas que, comigo cresceram, e partilharam dias de alegria, quiçá affairs, mas também arrufos, necessariamente enquadrando, no texto, as influências do foro social e económicas então impostas.



No regime do Estado Novo, foi desenvolvido o conceito para que, pais e maridos continuassem a considerar a emancipação da mulher, um perigo para a imagem e o bom nome da família.
A mulher era a principal responsável, pela criação e, da educação dos filhos.
Também na defesa do “seu” homem, mas subalternizada perante “ o chefe da família”.
Depois tinha que estar remetida ao silêncio do lar.



Propagandeava-se que não era socialmente correcto, desenvolver atitudes que almejassem a mulher fora de casa.
O trabalho era para o homem, a casa para a mulher!
Para um lar estável, a função da mulher, esgotava-se no ato de dar à luz, na criação e na educação dos filhos.



Na década de 60 foi mais visível, não ser essa a posição, para o seu futuro, da mulher portuguesa:
É visível nos sucessivos actos que, a mulher jovem recusa tais juízos.
Não estava no seu horizonte ficar apenas como “dona de casa”.
Tem outras ambições.
Ouvir todos os dias, na Rádio Renascença, o “Clube das Donas de Casa”, está fora de questão.
Procura engajar trabalho, nas fábricas ou nos serviços.
Luta de forma a desmitificar a ideia do homem e, do estado, ao afirmarem que, com a emancipação, não ser capaz de gerir as três funções; a vida doméstica, a educação dos filhos e o trabalho.
Luta pela igualdade nos direitos, por melhores condições de vida que, sistematicamente lhes são sonegadas.

Na generalidade, é assim que irrompem, na adolescência, as miúdas do meu velho bairro.
Não sem críticas, de gentes que sustentavam as orientações do regime (na grande parte das vezes injustas) e, por quem por perto as rodeava.
Disso é paradigma o que está descrito, na página 97, da monografia da Dª. Mª de Lurdes, no livro o “Nosso Bairro”:



…As raparigas, principalmente as que estão empregadas em modistas ou fabricas, preocupam-se muito com o luxo (*) do seu vestuário, especialmente aos domingos, quando vão passear, ou ao cinema….
…Não é raro encontrar por vezes uma rapariga muito bem vestida e calçada, com a linha moderna, das costureiras da cidade, ao lado da mãe muito mais modesta…
…Como os vencimentos não são grandes, a alimentação é muitas vezes descuidada em favor do luxo (*), chegando a privar-se de certos alimentos essenciais e comendo deficientemente, apenas para matar a fome, para poderem fazer uma permanente ou comprar uns sapatos novos, ou uma carteira….
…Algumas mães há, que também reagem quando as filhas ainda novinhas querem começar a pintar-se, ou a fazer permanentes, mas pouco e pouco vão cedendo, e as filhas acabam por fazer o que querem….
…O luxo das actrizes revelados na tela (cinema) enche-as de desejo de as imitarem, e de darem nas vistas pelo seu aspecto exterior, e então as tranças são cortadas e o rosado das faces é trocado pelo rouge….
…Os vencimentos ganhos durante um mês ou uma semana de trabalho são depois gastos rapidamente dum dia para o outro, em objectos por vezes muito dispensáveis, sem irem ajudar ao menos um pouco, no orçamento familiar…



A maior parte destas afirmações são a prova provada dos ventos de mudança e, da luta das mulheres jovens do meu velho Bairro das Furnas, no caminho da sua emancipação.
Honram a família, mas não querem ficar apenas remetidas ao lar, como as suas mães ficaram. Sentem-se no direito de ter as mesmas oportunidades dos homens.



No que vem redigido, por exemplo na moda, corresponde à realidade a influência da música, do cinema e da televisão na juventude feminina.
Mas não confundamos a árvore com a floresta!
Uma coisa é a luta das mulheres pela sua emancipação, pela igualdade nos direitos, por melhores condições de vida.
Outra coisa é, dar a entender que as raparigas, em geral, “largavam tudo e todos” para satisfação dos seus “caprichos”.



É certo que eram visíveis novos cuidados com a sua imagem.
Algumas, empregadas em grandes e médias empresas de serviços, tinham que ter cuidados redobrados com o seu vestuário, mas daqui ao luxo, ia uma grande distância.
Para a generalidade, era chegado o tempo, de substituir uma ou outra peça de roupa de fancaria mais pobre.
Era chegado o tempo de substituir as saias plissadas pelas saias lisas e ligeiramente ajustadas ao corpo.
As blusas, sobretudo feitas pelas operárias costureiras, apresentavam-se já com as influências europeia, mais modernas, ligeiros decotes, golas largas e, à cave.
Muitas passaram a usar as chamadas meias de vidro, com os sapatos com um 2/3cm de salto. Mas, dadas as dificuldades económicas da família e, pelos parcos vencimentos resultantes do trabalho. A maioria das miúdas do meu bairro calçava, os mesmos sapatos rasos, aos domingos, que, usavam durante os dias da semana.



Infelizes dos cabeleireiros/as existentes no velho bairro.
A Julieta, moradora na rua das Oliveiras e, o saudoso Zé Lobo, morador na rua dos Freixos, rezavam a todos os santinhos para terem, amiúde, muitos clientes. Só nos dias de casamento ou nos dias do bailarico tinham essa sorte.



Tenho saudades de ver as raparigas da minha idade, quando se deslocavam para os seus trabalhos, apressadas, bem cedo, de modo a não perderem o elétrico operário que, partia da “meia-laranja”.
Como eram bonitas as miúdas do meu bairro, aos domingos, de véu pelos ombros ou na cabeça e, de missal na mão, no caminho da capela!
Graciosas e elegantes nos dias de casamento. Algumas quiçá “emproadas”, pela oportunidade de estrear nova indumentária!
Como divertidas eram e, algo aliviadas de antiquados preconceitos, por ocasião dos bailaricos que se realizavam no bairro, nas coletividades em redor, quando no caminho, a pé, para assistirem a um filme, nas matines de domingo, no cinema Bélgica, em Palma, ou ainda em passeio pela Mata de S. Domingos! Vaidosas q.b., porque não?



Redigir que, comiam deficientemente a favor do luxo excessivo (*), não constitui verdade! Como também não deixa de ser exagerada a expressão:

……Os vencimentos ganhos durante um mês ou uma semana de trabalho, são depois gastos rapidamente dum dia para o outro, em objectos por vezes muito dispensáveis, sem irem ajudar ao menos um pouco, no orçamento familiar…



Salvo melhor opinião era bem o contrário que, eu observara!
A esmagadora maioria das raparigas que trabalhavam, tinham por costume e por respeito, entregar em casa todo o salário recebido!
Só depois as suas mães ou pais lhes devolviam, uns parcos escudos que, religiosamente poupavam para satisfação de uma ou outra necessidade, ou de um ou outro “desejo”.
A estima pelos seus pais era muita! O desrespeito pela família e, pela casa, não se colocava. Estava fora de qualquer questão.



Em jeito de conclusão referir que, em Portugal, a década de 60, marcou uma ampla evolução das mulheres e na sociedade portuguesa.
A década de 70, com a problemática e o avanço da guerra colonial e não só, troce, para as mulheres significativos avanços nas conquistas, em campos até aí dominados pelos homens e, onde imperava alguma misoginia.
Sublinhar que, foi sobretudo através da luta que, as mulheres souberam encontrar os caminhos com vistas a libertarem-se do rótulo de antigamente.



As miúdas do velho Bairro das Furnas disso foram exemplo.

Notas:
O Bold, os tracejados e os (*), são da responsabilidade do autor
Imagem:
Morte de Catarina Eufémia de José Dias Coelho
Foto manequim:
Perdida no Google

sábado, 22 de setembro de 2012

RECORDANDO AMIGOS XXIX

…Logo quando o teu pai chegar, para te castigar, vou fazer-lhe queixa…
…Vai saber do teu grande disparate...

Com a face algo ruborizada, foram as expressões da senhora Dª Graviolina, ao saber que, a sua filha se sentava, por vezes, num muro a arremessar pequenas pedras às ratazanas, que, se escondiam no silvado em redor de um existente caneiro por perto da sua casa.
Pela tarde, com o pai, fechados no quarto, a “ralhação” para servir de exemplo à aprendiza caçadora, às suas duas outras irmãs e, ainda fazer jus às inquietações da sua mãe, é substituída, por um fraterno afago nos seus lisos e belos cabelos, com a seguinte pergunta:

…então conta lá como foi?..

Recordando os dois em voz baixa, rindo, por iguais brincadeiras do seu pai enquanto menino e moço.
Ao saírem do quarto, faziam por não esquecer o semblante bem carregado, para que, a restante família fosse sabedora da “descompostura” então “aplicada”.

Refiro-me à Teresa Carvalho, a Té, moradora na Rua dos Salgueiros. Resultado de um ligeiro apanhado de uma conversa, em relembre, de histórias com os/as miúdos/as do meu velho Bairro das Furnas.
Esta moça, extremamente divertida, amiga do seu amigo e, generosa. Está sempre disponível na cooperação de eventos da sua especialidade profissional e, não só.
Extremosa mãe de um rapaz, o Gui. É uma das três filhas da Sr.ª Dª Graviolina e do saudoso Georgino. Gino como lhe chamavam os amigos. Operário, serralheiro mecânico de profissão.
Homem de educação superior.
Excelente pai e, estimado por todos que, com ele tiveram o privilégio de conviver.

Mas tudo isto a propósito…
Esta furniana de gema, cuja estima e, respeito que, é muito, é especialista em designer. Surpreendeu-me, em passado recente, pela oferta de várias fotos montagens da minha pessoa, em cenários e temas só ser possível por alguém com a imaginação fértil, nas diferentes filosofias da programação visual. E que muito lhe agradeço.
O que Té não sabia e, só agora o denuncio, uma das imagens que projectou, cá o rapaz, enquanto adolescente tinha também por hobby o fascínio pelos toiros, não tanto como cavaleiro, mas antes como forcado.

Certa vez, na Azinhaga do Ribatejo, terra do José Saramago e, vizinha da terra natal dos pais da minha mulher, o Pombalinho, era dia de festa em honra do santo padroeiro.
Por primos da minha mulher fui convidado a assistir, não só aos diferentes eventos, como em especial à tradicional festa brava, considerada como um dos momentos mais altos do programa, a que chamam de “picaria”.

Vejo-me a ser conduzido a uma cerca redonda, à qual os espanhóis chamam de “tentadero”. Era feita de varas de pau compridas, de carroças e de carros de bois, não só para servir de bancadas aos aficionados, de abrigo a alguns “pingados” eufórico pelo néctar da “uva” e, determinados a desafiar a bravura dos animais, como também delimitar o espaço destinado às “lides tauromáquicas”.
No entanto apercebi-me que, o convite adicionava o desafio ao “menino de Lisboa”, a mostrar (como os naturais) a sua valentia na frente de tão corpulentos e bravos bichos.

O prémio para quem conseguisse pegar, a mais corpulenta vaca, era de 500$00 escudos, cuja nota estava enrolada num pequeno saco de pano no cachaço do animal.
Estava fora de questão agarrar a vaca pelos cornos, não havia “grupo de forcados” em número suficiente.
A “sorte” seria agarrar a vaca de cernelha, tendo um dos primos a servir de rabejador.
Analisado os prós e, os contras, pareceu-me fácil a tarefa. Não só para ganhar o dinheiro, mas sobretudo para mostrar que o “menino de Lisboa” era tão valente ou mais, como aqueles que se tinham emprestado a organizar o desafio ao “empertigado e musculado alfacinha”.

Num ápice, num determinado salto para a “arena”, em “paço de ganso” para a necessária surpresa, dirijo-me pela direita à corpulenta vaca, por modo a não ser possível avistar-me.
Quando faltavam 2 metros para o sucesso, não é que a vaca vira a “cara”, olha para mim e, para o meu parceiro rabejador, “pensando certamente o que é que estes querem” e, sem demoras, a descarada investe, originando uma fuga desenfreada. Valeu-me na defesa a cerca construída com as citadas varas de pau.

O “menino de Lisboa” honrou a sua terra. A sua a valentia ficou provada e brindada em “vivas e olés”, várias vezes, numa tasca por perto.
Só quem não ficou lá muito contente, foi a Ti Georgina, minha mãe. Teve que lavar a baba da vaca colada nas calças, por duas vezes, mostrando que foi por um triz que não houve “voo picado” em tão belo e divertido dia.

Foto nº1:
Escolha do autor da página da Teresa Carvalho
Foto nº2:
Foto montagem com a imagem do autor da autoria da Teresa Carvalho
Foto nº3:
Perdida no Google

sábado, 15 de setembro de 2012

HISTÓRIAS DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS XXVIII



                                                    A CHINCHADA
...Só era fértil, neste terreno bravio inclinado e árido, as ervas daninhas…
… Ao invés, os terrenos dos quintais, na sua esmagadora maioria apresentavam-se bem aproveitados…
… Também não sendo raro que, não tivessem mais de uma árvore de fruta...
… Estimulando a apetência ao mais pacato dos miúdos…
… A noite era o período mais apropriado para as “operações de assalto”...



Todo aquele que gosta da sua vida estima o seu passado! Não sou o autor da expressão, no entanto direi haver muito boa gente com opinião inversa.
Não é o meu sentimento.
Lembro o passado para reviver as coisas boas porque passei. Aquelas que me deram gozo. As menos boas também, pouco, relembro, sobretudo para delas, hoje, fazer juízo.



Na mesma senda referir, da existência na minha humilde biblioteca, a monografia escrita pela Sr.ª Dª Mª de Lurdes P. Gomes, que, não me canso de a ler.
Esta monografia está descrita no livro com o título “ O Nosso Bairro” que, em boa hora, diversos furnianos intervieram na sua composição e publicação. Destaco, na qualidade de autores, o Sr. Leodegário Chaves Nascimento e o Sr. José Fernando Cardoso da Silva (Dr.).
É uma monografia que traduz um desmedido valor histórico.
Define de forma clara as exigências da “civilidade social, económica e política” do regime de Salazar e Caetano.



É uma boa opção lê-lo.
Possibilita aferir e, confrontar a vida passada com a vida de hoje. O que passaram os pais e os avós.
A edição é da responsabilidade da Associação de Moradores do Bairro das Furnas. Foi publicada no ano de 2006.



Nos momentos da leitura, faz-me recordar, com sorriso, a minha vivência com muitos dos cachopos da minha idade. Alguns, infelizmente, fisicamente já não se encontram entre nós.
Também me faz recordar com mesma saudade, homens e mulheres, cujo respeito e estima era reciproco.
Faz-me rememorar as dificuldades com que as famílias se debatiam. E, as lutas, no dia-a-dia, para as ultrapassar.
Contudo, são sobretudo as traquinices de miúdo, a ocupar os lugares cimeiros da minha memória.



Assim;
Tenho presente o declive da rua das Oliveiras, que terminava junto das ruas da Tílias e das Faias.
O declive ficava para lá do meio da citada rua, onde, mais tarde, também veio a ter um estendal, justificado pela distância que ficava o comunitário, por perto da rua dos Choupos, traseiras com a rua dos Plátanos.
Aqui, só era fértil, neste terreno bravio inclinado e árido, as ervas daninhas.
Havia a possibilidade de alugar à Câmara Municipal, alguns m2, poucos, por uma vintena de centavos, cada. No entanto a água, que, estava incluída na renda da casa, tinha que ser transportada por regador ou por balde, uma vez que era proibido utilizar as boca-de-incêndio por perto existentes.
Creio que foram as dificuldades criadas com a rega que, o terreno esteve sempre inculto, ao invés, dos terrenos dos quintais que, na sua esmagadora maioria se apresentavam bem aproveitados com plantações.



Refere em sede o monograma:
…Possuem o seu quintal mais ou menos bem arranjado, pois isso depende do gosto e da paciência, de cada um…
…Alguns com uma árvore, como seja a figueira….
…A alimentação é um dos problemas mais grave…Daqui se pode depreender que eles (crianças) precisam de uma alimentação forte e cuidada…



Não vou escrever sobre a exigência ou da expressão acima citadas, nem das facilidades conseguidas com uma plantação, num considerável terreno que, um jardineiro e, um fiscal, no fim do bairro, junto ao caneiro abatataram, regado por água proveniente do local que, aos outros era negado.
Vou antes, relembrar inocentes traquinices dos miúdos do meu velho bairro, enquadrando nalgumas asserções incertas no já citado monograma.

Na frente ou nas traseiras, todas as habitações tinham quintal.
Era raro o quintalinho que não tivesse uma pequena horta.
Alguns eram, em alternativa, bem floridos. Tinham em vasos ou no próprio terreno flores plantadas, sobressaindo, entre outras, as rosas, os jarros, os crisântemos e, as hortenses. Também não sendo raro que, não tivessem mais de uma árvore de fruto.
O meu, por exemplo, tinha um pessegueiro e uma macieira. Como a macieira era enxertada, para além das maças, dava também peras. Chegou a ter, enrolado no ripado, paredes meias com o quintal da Ti Rosa, uns pés de videira. Davam uvas muito pequenas, só ficando doces quando já secas pelo sol.
Se existisse classificação na qualidade, referiria haver quintais com árvores de fruta cinco estrelas. Estimulando a apetência ao mais pacato dos miúdos.



É verdade que, não era difícil adquirir uma peça de fruta, desde que tal pedido, aos donos, não se tornasse repetitivo. Mas, para satisfação da gulosice, só através da “chinchada”.
Dizer, precisando, só ser possível “chinchar” nos quintais na frente das casas, os nas traseiras só naqueles fazia esquina das ruas.
A noite era o período mais apropriado para as “operações de assalto”.
Fora desse período, só quando tínhamos a certeza não haver ninguém por perto, para evitar quem nos pudesse denunciar.



Coitada da Ti Vitória, da Rua Eng.º Gomes de Amorim, mesmo ladeada pelo fiscal Garcia e, pelo chefe Alberto da polícia municipal, as suas belas romãs não tinham descanso nas mãos dos “inegrumes” miúdos.
E, as ameixas do quintal do pai da Amélia “alta”.
Sim, a Amélia, moradora na primeira moradia da rua dos Choupos, mesmo em frente à da Fernanda Arsénio.
Neste quintal, havia várias árvores de fruta. Em especial as que davam alperces e ameixas.
As ameixas eram de cor amarela, carnudas, grandes e doces.
A miudagem da rua e não só, na passagem, não resistiam ao desejo de as comer. E, logo que podiam, saltavam o ripado. Pelo seguro, comiam uma ou outra logo arrancada. Assim, o Ti Durão, já não podia obrigar a devolvê-las.



No quintal da Ti Maria das Dores, vendedeira de frutas e hortaliças numa carroça, moradora na esquina da rua dos Ulmeiros, existia uma ameixeira cujas pernadas ultrapassavam em muito a área do arranjado quintal.
Era muito fácil colher as ameixas. As pernadas da árvore vinham quase ao meio da rua que, dava comunicação às outras ruas por perto.
As ameixas eram em tudo idênticas, às ameixas da árvore do Ti Durão. Desiguais só na cor. Eram roxas.
Uma vez, alguém foi acusado de ratoneiro, por ser suspeito de ter arrebatado umas quantas peças de fruta.
A denúncia foi feita ao pai do rapaz.
Não meteu o fiscal do bairro que, passava as multas, mas não a favor dos lesados. Azar dos azares.
O pai aplicou-lhe alguns sopapos, injustamente, porque dessa vez, o nosso companheiro não esteve presente no desenrolar das “operações”.



De facto, havia sérias dificuldades para se ter em conta a …alimentação forte e cuidada…
Com a fruta, eram os próprios miúdos que, na maioria das vezes, a acautelavam.



Bibliografia:
O Nosso Bairro
Fotos:
Quintais das Ruas Eng. Gomes de Amorim e dos Choupos
do Arquivo Furnianos