segunda-feira, 24 de junho de 2013

HISTÓRIAS DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS (XXXVIII)

 
...
… Partimos com as mochilas e as tendas de lona de cor branco sujo às costas!
… Juramos vencer a distância daquele afloramento rochoso que, distava entre 100 a 150 metros, da praia!
… Já chorava, fiquei assustado de medo, de morrer afogado,

Há mar e mar… à ir e voltar

A frase é da autoria do poeta Alexandre O’Neill, criada para uma campanha contra o afogamento nas praias portuguesas nos anos 80. Vem a propósito para relembrar a atitude de um amigo de longa data que, perante o nervosismo acompanhado com o desmedido bracejar, soube, ter a calma e a lucidez necessárias para que, os dois (eu e ele) ultrapassássemos a forte corrente da fria água do nosso oceano.

A história data ao ano de 1957 e, começa uns dias antes do verão, numa casa localizada no lado direito da entrada do velho Bairro.
A casa ora referida, tinha na sua frontaria a praça, suportava as salas de estudo dos rapazes e das raparigas para complemento pós-escolar, assim como também as salas da Mocidade Portuguesa (extra-escolar).

A acção extra-escolar da Mocidade Portuguesa, ao contrário do que acontecia nos períodos escolares, as frequências apresentavam-se livres. Resumiam-se, sobretudo aos fins-de-semana, com passeios à praia e ao campo. De quando em quando, promovia visitas a sessões de ginástica e jogos desportivos.
Durante a semana, nem todos os dias, nos finais das tardes e por vezes às noites, realizavam-se entre os miúdos, alguns campeonatos de jogos de sala, tais como os jogos de damas e xadrez, entre outros.

Diga-se, em abono da verdade que, uma maioria dos pais tecia em surdina, grandes críticas políticas à sua existência. Proibiam os seus filhos das frequências lúdicas ou de qualquer tipo de encontro naquele pavilhão. Não tanto pelo que faziam, mas sobretudo por aquilo que o organização representava.
Interessante era também verificar as censuras dos responsáveis pela Acção Social do velho Bairro. Chegavam mesmo a afirmar:

 …os dirigentes são incompetentes, pois cultivavam o elemento físico em detrimento do moral, desviando, por esta via, os rapazes e as raparigas das aulas de formação moral e, da missa… (in no Livro o Nosso Bairro)

À parte das críticas e oposições convém dizer que, MP (extra-escolar), não tinha dificuldade em captar o interesse da rapaziada. Brincávamos, jogávamos e, de tempos a tempos, sempre tínhamos a oportunidade de darmos uns passeiozinhos de borla. É num desses passeios que hoje, este meu amigo, felizmente vivo, reformado caldeireiro de profissão, vai ser relembrado, e agradecido com aquele abraço.

Não sei precisar quantos de nós carregando nas costas as mochilas e as tendas de lona de cor branco sujo, partiu no caminho da Serra da Arrábida.
Lá chegados, bem no alto, alegres, todos se dedicaram a montar os seus acampamentos. A paisagem era maravilhosa e todos (os que sabiam nadar) faziam promessas e apostas de bravura para chegar a Pedra da Anicha, mesmo ali na nossa frente.
A inquietação por via da ventania serrana, deixou de ser preocupação. Todos desejávamos que, a noite fosse pequena, mas não foi. Depressa aprendemos a importância das estacas, das espias e, dos cordéis de segurança do equipamento, quando um vento mais forte, levou algumas tendas ravina abaixo, travadas apenas pelas águas do oceano já na praia do Portinho.

Mas o pior susto estava para chegar! Manhã cedo, eu e o meu companheiro, tocador de gaita-de-beiços por uma boa parte da noite, olhamos um para o outro e juramos vencer a distância daquele afloramento rochoso que, distava entre 100 a 150 metros, da praia e que dá pelo nome, Pedra da Anicha.

Num ápice nos deitamos à água e, não levou muito tempo para pisar o solo da citada pedra, então repleta de algas e de outras plantas marinhas. Escalamos a rocha um pouco, levantamos os braços em jeito de vitória para os demais companheiros nos verem. O que não contávamos, ao regressar, foi com a forte corrente existente, pois nem com todas as forças no nadar a conseguimos ultrapassar.
As forças começavam-me a faltar, já chorava, fiquei assustado de medo, de morrer afogado, quando lúcido e calmo o nosso jubilado caldeireiro disse:

…Raul, deixa-te levar pela corrente, verás que chagaremos à praia…

Há mar e mar… à ir e voltar

Julho de 2013

Foto: Fotoconde

quarta-feira, 17 de abril de 2013

HISTÓRIAS DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS (XXXVII)



NÃO SÓ FLOREJAVAM AZEITONAS

… Nos seus troncos, as cigarras vibravam as membranas em dias de sol…
… No Outono as suas delicadas, vistosas azeitonas, eram bem pretas e brilhantes…
… A rua onde crescera e certamente morrera, não tinha nome…
… Nas festas dos santos populares, tinha como companhia ateada fogueira…
… Uma noite, a linguagem várias vezes se elevou, ignorando-se quem desejava dormir…
… Ou se calam ou tomam banho antes de sábado…

O velho Bairro era rico em oliveiras. Rara era a rua que não as tinha. Sendo que, naquela onde mais abundavam tão robustas árvores  deram-lhe justamente o seu nome; rua das Oliveiras. Ficava bem no alto da colina, paredes meias com a capela. Hoje, não há gente que, não se lembre, do canto das cigarras quando vibravam as suas membranas em dias de sol. Ou de ver subir às pernadas, a miudagem, quando um ninho de um qualquer pássaro era avistado.

De todas estas árvores decenárias, havia uma, que, alguns de nós miúdos, já adolescentes, lhe dispensávamos particular atenção. Não tanto pela sua altura, a ultrapassar o telhado da casa em sua cerca. Não tanto pela beleza das flores despontadas na primavera, rodeadas de folhas verdes acinzentadas na frente, prateadas e brilhantes por detrás. Ou no Outono as suas delicadas, vistosas azeitonas, bem pretas e brilhantes. Não, não era por isso. Era, fundamentalmente pelo local onde estava enraizada, porque, escondia e bem, quem nela se abrigasse.
A rua onde crescera e certamente morrera, não tinha nome, mas não distava meia dúzia de metros do meio da Rua Eng.º Gomes de Amorim.
Começava na casa do Sr. José, marido da Ti Belmira, pais do Toni e da Cármen, bem na esquina da Rua das Tílias. A rua, sem nome, de norte para sul, atravessava, umas quantas outras ruas, na direcção ao lavadouro comunitário, onde perfilavam muitas das suas “irmãs”.
Esta “vaidosa” oliveira, estava praticamente “colada” à casa onde vivia o José Macedo, irmão do Valdemar.
No outro lado, avistava-se a porta do quintal da casa do Sr. Raul Caetano e, da sua mulher a Ti Julieta.

Neste cruzamento, bem no centro, quando nas festas dos santos populares, tinha como companhia ateada fogueira. A chama, aqui, era a mais brilhante das noites festivas. Era o fogacho privilegiado das moçoilas. Na oportunidade, alguns rapazes, disfarçadamente se empoleiravam nos troncos, para melhor verem, quando saltavam, as pernas das raparigas.

Ou ela não usa calças/Ou as tem na lavadeira
Dei por isso ontem à noite/Quando saltava à fogueira

Quantos fugazes beijos, escondidos, a nossa decenária oliveira “observou”.
Quantas animadas cavaqueiras, noite dentro, “ouviu”.
Quantas noites, os rapazes espiou, nas proibidas “jogatinas”.
Quantas vezes, por brejeiras conversas, “ruborizou”.

Dizia-se, em crença popular; quando se viam as raparigas a apanhar um pezinho com 3 azeitonas pretas do chão, tinham como intenção, o colocar debaixo do travesseiro da sua cama, na esperança de sonhar com o rapaz que, pretendiam namorar.

Uma noite, não sei precisar o dia e a hora, mas certamente muito tarde, a linguagem da rapaziada, no calor da discussão, várias vezes se elevou, ignorando-se, por perto, quem desejava de dormir.

De repente, eis que, uma voz bem forte, ecoou na noite já alta:

…Basta seus malandros…Não se pode dormir nesta casa…Eu vos digo…

Assustados, em segundos, num ápice, os calcanhares depressa tocara os traseiros em fuga.
Era a Ti Julieta, mulher do Sr. Raul Caetano que, se apresentou encolerizada, na porta do seu quintal, de camisa de dormir e, de balde de zinco na mão, rematando:
 
…Ou se calam já e, desandam rapidamente daqui para fora, ou tomam banho antes de sábado…

Podiam ter transplantado esta linda decenária para outro local, a exemplo do que fizeram com parte das oliveiras que existiam nos “tanques”, presentemente (pouco estimadas) no mesmo local com o nome de rua Alcina Bastos.

Não desfrutou dessa sorte.


Foto 1  A oliveira em referência
Foto 2 As oliveiras perfiladas nos “tanques”
Foto 3 O presente local com parte das oliveiras dos tanques

quarta-feira, 3 de abril de 2013

HISTÓRIAS DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS (XXXVI)


 A VIDA E A HABITAÇÃO NO TEMPO EM QUE VIVERAM OS NOSSOS PAIS E AVÓS

Os ricos continuavam a ir à mercearia… Para os pobres há racionamento…
…Vive-se em barracas, sem qualquer condição de habitação…
…O nosso velho Bairro das Furnas, é inaugurado a 28 de Maio de 1946, os menos “distraídos” sabem o porquê da data…
…A selecção das famílias tem que ter um certo nível económico e moral…
…Em caso de escândalo público procede-se à expulsão dos elementos nocivos…

Entre 1933 e 1974, sabemos ter sido o período da vigência do chamado Estado Novo. Regime político autoritário, conservador, nacionalista e corporativista que, direi, numa só palavra, fascista! Fundado por Salazar com a constituição do ano de 1933. Após a sua morte, em 1968, foi seu discípulo, Marcelo Caetano.
É importante que se saiba que, neste período negro, foi recusada aos portugueses a soberania popular, apenas se discutiam as propostas de lei do Governo. Impedia-se a realização de eleições livres. O objectivo era preservar a existência de um único partido, a União Nacional, cujo presidente era o ditador.
Os sindicatos são constituídos de cariz profissional e, controlados pelo Estado. As greves e as manifestações são proibidas. A imprensa escrita e falada eram censuradas, assim como; os espectáculos, o cinema, as artes plásticas, a música, os livros, etc.

Os racionamentos dos bens alimentares de 1ª necessidade, foram acções propositadas, para abastecer os aliados fascistas (Hitler, Franco, Mussolini, entre outros), obrigando o povo português a viver na maior das misérias. …Os ricos continuavam a ir à mercearia, porque podem pagar os preços altíssimos praticados. Para os pobres há racionamento, cada pessoa tem direito a quantidades exíguas de azeite, banha, arroz, açúcar, bacalhau ou batatas…
Do livro Os Anos de Salazar (5)

A igreja e o regime caminhavam lado a lado, sustentando a trilogia defendida pelo governo “Deus, Pátria, Família”.
As lutas por melhores condições de vida, dos operários e outros trabalhadores, desenvolvem-se. São presos às centenas por todo o país.
A partir de 14 de Setembro de 1936, quem quisesse trabalhar na função pública, tinha que assinar uma declaração de “repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas”. Do Livro os Anos de Salazar (4).
Por temor, ou com o receio de represálias, muitos aceitaram, outros, aos milhares, recusaram com dignidade e coragem.

O descontentamento da população, por via do desemprego e da repressão continuava a muito. Vive-se nas piores condições de vida, com fome, sem assistência médica, sem dinheiro, com os bens de 1ª necessidade racionados por todo o país.

O Governo, no intuito de “abrilhantar” o regime e, procurar “calar” o desagrado dos operários, dos desempregados e, também uma grande franja de funcionários públicos, sobretudo nas grandes cidades, (por exemplo, Lisboa e Porto), a viverem em barracas, sem quaisquer condições de habitação, desenvolve um vasto programa de obras públicas, nomeadamente; hospitais, cadeias, tribunais, escolas, novas rodovias, etc., criando algum emprego, mas mesmo assim, obrigando, com as empresas contratadas, a praticar uma política salarial que, não alterasse o nível de vida pobre, ou seja: na defesa de baixos salários.
É neste retrato, muito resumido do quadro político, económico e social que, os nossos pais e avós viveram.

REQUISITOS FAMILIARES PARA O INGRESSO NO NOSSO VELHO BAIRRO

Na época, e, em acordo com a mesma filosofia política, o nosso velho Bairro das Furnas, classificado, como outros já antes construídos, de “casas desmontáveis”, resulta de um plano da Câmara Municipal, financiado a fundo perdido pelo governo. Este plano veio a concretizar, algum realojamento da população citadina, a habitar em barracas, onde proliferavam muitos funcionários públicos e, outros trabalhadores que, os novos empreendimentos desalojou.
Com pompa e circunstancia, é inaugurado a 28 de Maio de 1946, mas só começado a ser habitado 2 meses mais tarde, percebendo os menos “distraídos”, o porquê da data.

…Estes bairros (casas desmontáveis) permitem seleccionar as famílias que, depois, vão ocupar as casas de categoria superior…
…A selecção das famílias vai-se fazendo, à medida que, vão atravessando gradualmente os bairros, até atingirem um certo nível económico e moral, altura em que, estão aptas a ingressarem nos bairros de casa definitivas…
(do livro O Nosso Bairro)
A lei classificou o bairro, em termos do rendimento familiar, em 2º lugar.
Classificados em 1º lugar, de nível económico inferior, consagrou os Bairros da Quinta da Calçada e da Boavista.
Em 3º lugar, com rendimento familiar mais elevado, aparece o Bairro do Caramão de Ajuda. Mas, …Para as famílias habitarem no nosso velho Bairro, para além da “superioridade” do factor económico, foi acrescentado da “superioridade” do factor moral, assim:
 …Ser casado pelo menos pelo civil.
- Quer dar-se, a par do nível superior, a sua dignidade como casados, e como pais -

O CONTROLO DA ACÇÃO SOCIAL E A RONDA DOS “BUFOS”

Logo após a inauguração, visando a gestão, civil e administrativa, foi constituída, uma Comissão - Administrativa e de Acção Social – onde os legionários da Legião Portuguesa, os fiscais da P.S.P e, as assistentes sociais, tinham várias atribuições, não faltando o controlo do comportamento dos moradores.
Assim:

…Em caso de escândalo público, ou de desmoralização evidente, a assistente social pode propor à Comissão Administrativa, a saída daqueles membros que estão a fazer mal ao Bairro. A Comissão de acordo com o Centro (Social) procede, então, à expulsão desses elementos nocivos…
…Quando há necessidade, dos rapazes e raparigas, serem colocados em tutorias  reformatórios, ou casa de regeneração…a família é aconselhada interná-los, no Reformatório do Bom Pastor de S. José, em Viseu.
…Quando são elementos que podem prejudicar a moralidade dos outros habitantes, não devem residir mais ali (no Bairro) e são convidados a sair…
(do Livro O Nosso Bairro)

A privacidade era obrigatoriamente exposta. Para além do factor económico estavam sujeitos a informar, para registo, a sua vida social, moral e religiosa.

Continuando:
Era sabido que, quando havia suspeitas de não terem sido observadas, por moradores, as regras instituídas, não se podia vetar a entrada do vigilante nas casas.

Entre outras, havia as seguintes regras:
 - Não haver colocadas mais torneiras de água, para além das permitidas (chaminé, casa de banho e chuveiro), porque, pressupunha-se, se houvesse mais torneiras, haveria mais gastos de água.
- Com a energia eléctrica  para não exceder o consumo estipulado, não eram autorizadas quaisquer extensões da luz da sala de entrada, para as restantes divisões. Recomendava-se o uso do candeeiro a petróleo. Durante o dia, com a justificação: para evitar desleixo e abusos. A casa fica bem iluminada com a luz do sol entrando a jorras através das janelas (do livro O Nosso Bairro)
Referir, no caso da energia eléctrica  era fornecida no mesmo horário da iluminação pública e, a única lâmpada que havia era a da sala de entrada. Não podia ter uma voltagem superior a 25W. Obviamente, as telefonias, quem as podia possuir, só podiam funcionar a pilhas.
– Sem a devida autorização da Comissão Administrativa, não era permitido receber nas casas (pernoitar) quaisquer pessoas que não fizessem parte do seu agregado familiar.
(do livro O Nosso Bairro)
– Não era permitido que os moradores possuíssem cães, gatos nas suas residências ou, criação de animais de capoeira, justificado por, para evitar maus cheiros, falta de limpeza e aglomeração de insectos, que tornava as habitações insalubres.
(do livro O Nosso Bairro)

Pobre sofre!
Abril, Sempre, Fascismo nunca mais!

Fotos:
1- Filas para aquisição das senhas de racionamento Arquivo particular Dr. M. Soares
2- Bairro das Minhocas Arquivo C.M.L.
3 – Fachada da entrada do Centro Social do Bº das Furnas do livro O Nosso Bairro 







domingo, 31 de março de 2013

sábado, 9 de março de 2013

HISTÓRIAS DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS (XXXV)


A NOITE FOI BOA, O DIA NEM TANTO!

Quis o acaso que, naquele sábado, me encontrasse na rua de maior movimento pedonal. A Rua das Tílias. Esta rua ficava na entrada do meu velho Bairro das Furnas. Dava ligação a muitas outras - das Oliveiras, das Faias, das Nogueiras; dos Salgueiros -. Tinha uma ligeira inclinação a partir do meio, onde, no seu primeiro cruzamento, floresciam um número considerado de bonitas piteiras.

O alinhamento das casas era do lado direito de quem a descia. À esquerda, acompanhava-a no primeiro lanço uma sebe, sustentando um gradeamento que, separava todo um aparato social; o Posto médico, o Jardim infantil e a Creche.

Na frente da casa com o nº 2, a limpar, com a ajuda de um trapo, as mãos carregadas de óleo, sorridente, dizia o meio oficial de mecânica auto;

…Está pronto Raul, está pronto…Já faz fumo…

Não era para menos, o carro, ora reparado, encontrava-se na frente da sua porta há cerca de uma semana e, o cliente certamente já o tinha reclamado.
Retribuindo o sorriso, dirigi-me ao Carlos Santana e, em jeito de interrogação questiono-o…e agora?
Agora? Agora, aparece a seguir ao jantar, vamos dar uma volta, retorquiu.

Mãe, vou dar uma volta com o Santana, não me demoro, vamos experimentar um carro que ele consertou.
Em traje de fim-de-semana, lá me apresento à chamada. Junto ao “Anglia Prefecta” de cor preta, já lá estava o Zé Manuel, o filho da Ti Julvira que, logo me afaga a cabeça, contente, por me ter por companhia.
Era o mais novo do trio, tinha 12 anos de idade. Os meus companheiros certamente mais 3/4 anos de idade.

Aventurados, já noite, o nosso condutor ainda “desencartado”, escolheu como trajecto, para “pista de experiência automobilista”, a marginal de Lisboa/Cascais.
O velho carro acompanhava um comboio. Provocado o maquinista com acenos, este respondeu ao desafio. As marchas foram aceleradas, nervosamente trocaram-se apitos e buzinadelas.
Nem o chapéu-de-chuva aberto dentro do carro, por via da chuva miudinha a entrar pelos buracões no tejadilho, obstara, em largas centenas de metros, tão divertida corrida.
Ao chegar à vila de Carcavelos alguém disse:

… E se fossemos ver do baile à Capricho Carcavelense…

Dito e feito, arrumado o carro, lá fomos dar o nosso pezinho de dança por umas quantas horas, mas um pouco antes de acabar a animação, não me recordo qual um dos meus companheiros (ou os dois) fez a seguinte comunicação: “Eh pá Raul! Agora, vamos entregar o carro, é longe e, ficamos por lá. É melhor regressares ao Bairro, tens comboio daqui a pouco”.

Já só os vi pelas costas. Fiquei na dúvida de tão misteriosa conversa. Quando saímos do Bairro, nada me foi dito em conformidade. Pensei, talvez…raparigas? No entanto não me moveu, o que, quer que fosse, para contrariar tal decisão.
 Na estação, vejo, por ser fim-de-semana, que os horários dos comboios eram mais espaçados.  
Esperei cerca de uma hora para a bilheteira abrir. Observo o dinheiro no bolso, só dava para permitir ter bilhete de passagem, até à estação de Belém. O horário do comboio a parar nesta estação, só por volta das 07 horas. Nada a fazer, outras alternativas não havia.

Quando cheguei à estação de Belém, tirei o “azimute” do caminho para casa; Subir a calçada da Ajuda, avançar na direcção aos 4 caminhos na serra do Monsanto, continuar o trajecto até prisão, situada bem no alto. Chegado aqui, para o Bairro, foi só descer a encosta. Já na entrada, o sol dava-me pelo joelho.

Foi a minha primeira noite (das muitas) fora de casa!
Quando abro a porta da entrada do “ninho”, vejo sentada, com os braços sobre a mesa, raladíssima e encolerizada minha mãe, que, de pronto me perguntou:

… Por onde tens andado? Até à polícia já fui…

A custo lá expliquei.
Não convencida, outro “baile” iniciou.
No entanto direi, mesmo depois de todas a vicissitudes, foi muito bela a minha primeira noite fora de casa.

Março 2013
Nota:
A 1 ª foto foi tirada, com a devida vénia, da página do Bairro das Furnas/Faceboock que, agradeço e, ajustada ao tamanho do texto.
A 2ª e 3ª foto perdidas no Google, sofreram alteração da autoria do autor deste texto

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

NA ALDEIA NÃO HAVIAM OLHOS AZUIS MAIS BONITOS

Posted by PicasaCABEÇO DE MONTACHIQUE
( Foi nesta linda aldeia que a minha mãe nasceu)

Descansando sobre montes verdejantes e de topografia irregular, encontramos a localidade de Cabeço de Montachique, sensivelmente perto da Cidade de Loures, no distrito de Lisboa.

De origens antigas, as primeiras alusões a este lugar surgem nos registos da Alfândega das Sete Casas (referenciada no decreto de 17 de Setembro de 1833). Contudo, a existência deste serviço já era conhecido no reinado de D. Manuel I, apontando-se o seu funcionamento no século XVI com “Ver o peso”, “Marçaria e Herdade”, “Sisa da Fruta”, “Portagem”, “Sisa da Carne”, “Sisa do Peixe” e “Terreiro”.

... Cabeço de Montachique era considerada uma estação subalterna, com a denominação de “Registo”, directamente dependente da Alfândega das Sete Casas. Esta foi extinta pelo decreto de 11 de Setembro de 1852 que, unindo-a ao Terreiro Público, formou a Alfândega Municipal.

No século XIX, e também nos inícios do século XX, esta povoação de génese rural disseminava-se pelos terrenos existentes e aráveis, de uma forma dispersa, onde se destacavam as Quintas, que concentravam a actividade agrícola.


O Cabeço de Montachique é uma pequena localidade dividida por dois concelhos (Mafra e Loures) e três freguesias (Fanhões e Lousa, no concelho de Loures, e o Milharado, no concelho de Mafra).


A localidade é definida pelos seus inúmeros Casais, Quintas, Moinhos e Outeiros, como por exemplo, o Outeiro das Pêgas, Casal de Santo António, Quinta do Choupo, Moinho Sarradas das Velhas, Quinta de S. Gião e o Casal do Andrade (embora este último fique fora da povoação, é aceite como parte integrante da localidade).


No topo da montanha, que lhe dá o nome, encontramos um «fragmento» de manto basáltico poupado pela erosão. É o ponto mais alto do concelho de Loures (408 metros) onde é possível observar, no seu topo, toda a região de Lisboa até Setúbal(Almada).


Na foto encontramos a obra inacabada do sanatório Grandella.


Bibliografia "Aldeias de Portugal" com a devina vénia o transcrevo

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

HISTÓRIAS DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS (XXXIV)



Antiga Rua das Tilias
FUI AO ENCONTRO DO MOINHO QUE ME VIU CRESCER

 Naquela manhã, o sol não se avistava. Também não chovia. O tempo estava nublado, cinzento, mas nada que, estorvasse o meu encontro com o moinho que me viu crescer.

No Calhau, aos seus “pés”, na Serra do Monsanto, um belo parque recheado com zonas de recreio, circuitos de manutenção, zonas para merendar e campos de jogos.
Os trilhos apresentavam-se limpos, com todo o terreno verdejante.
Não são muitos os visitantes. Uns correm, outros passeiam com os fiéis amigos presos por trelas.

Vejo, em zonas demarcadas, bancos de descanso, mesas para merendar. Contudo não me fazem distrair no meu caminho ao encontro do “meu” moinho. Sabia que, no cimo da vereda carregada de vegetação, o descobriria como outrora, sem trilhos, vezes sem conta, o encontrara.

Na frente da sua pequena entrada em ruínas, parado, espero pelo seu “abraço”. Aguardo pelo “convite” para entrar. Admiro os velhos e, mais degradados os buracos que, serviram certamente de suporte às peças do engenho. Afago, respeitosamente aquelas pedras polidas pelo tempo.

Como outrora, não escondo o desejo de escalar as suas paredes. Esforçado, sozinho, a custo o fiz. No alto, quanto o meu olhar alcança, vejo as diferenças.
Do novo Bairro, não vejo as ruas, mas sim alguns andares de poucos prédios. Ao cimo também não vejo o adro e capelinha, como antigamente admirava, sentado naquelas pedras sempre frias.
Pior foi descer, esqueci-me das dificuldades pela idade. Aquele amontoado de pedras, restos do moinho que me viu crescer, mais pareciam não o querer deixar. No entanto direi:
Voltarei! Prometo!

…................

Das várias entradas existentes no novo Bairro das Furnas, quase sempre escolho a entrada pela rua Padre Carlos dos Santos (antiga Rua das Tílias?). Não sei explicar o porquê, talvez pelo “costume”, quando menino e moço, morador do velho Bairro das casas desmontáveis.

Um outro gesto, também não o saber explicar, quando desço a rua Costa da Mota, o meu olhar, forçosamente, vai na direcção da “minha” serra de Monsanto, procurando avistar no alto, o seu majestoso e velhinho moinho de vento, mas sem êxito.
Desolado, continuo na direcção dos meus propósitos, ficando na minha mente a lembrança, de como era bonito avistar, o “Três Cruzes”, de todas as ruas do velho bairro das Furnas.

Conta a história que, a Serra apresentava condições de exposição ao vento, levando ao desenvolvimento de uma importante actividade moageira. É assim que, em meados do século XIX, eram cerca de 75 os moinhos de vento em laboração e, anos depois se terá verificado rápido declínio. O último a encerrar foi, o Moinho do Penedo, no ano de 1925.

Com a ideia, conseguida, da criação do Parque Florestal de Monsanto, no ano de 1938, é dado o início às expropriações e reflorestação da serra.
Hoje, na Serra de Monsanto, só há vestígios de “meia dúzia” dos velhos moinhos: Moinho do Penedo, Moinhos do Mocho, Moinhos de Santana, Moinhos do Casalinho da Ajuda e Moinho das Três Cruzes ou do Calhau. Todos, dispondo ao seu redor, zonas de recreio, circuitos de manutenção, zonas para merendar e campos de jogos.
 O “meu”, “O Três Cruzes”, está classificado, por excelência, como um dos miradouros mais bonitos sobre a zona leste da cidade de Lisboa. Infelizmente é o único que não foi recuperado, continuando em plena degradação.

O VELHO MOINHO



quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

HISTÓRIAS DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS (XXXIII)

O NATAL E O AVIÃO QUE DAVA CAMBALHOTAS

…Bom dia Georgina… disse sorridente a Ti Rosa, no momento que empurrava a porta de entrada da minha casa.
…Bom dia…respondeu-lhe
…Que frio que está hoje e, tu pela manhã, já a limpares e, a arrumares o tampo da cómoda…

A cómoda que, em casa existia, ficava situada no lado esquerdo da entrada. Quando pequeno, a altura do móvel dava pelo meu peito. No comprimento, tinha 3 gavetas sobrepostas. Ocupava todo o espaço da parede até ao quarto.
No tampo, estava colocada uma toalha de renda, alguns biblôs, uma jarra, sempre composta com as flores do quintal e, algumas imagens de santos. O candeeiro de vidro, a petróleo, estava ali mesmo à mão, uma ou outra fotografia, por lá, também se via.

…Não filha…ripostou minha mãe
…Estou a tirar tudo do tampo da cómoda para construir o presépio…
…O Raul foi à mata, buscar musgo, não deve tardar…

Apanhar e carregar o musgo, todos os anos, para o presépio, era da minha responsabilidade.
De balde de zinco na mão, uma faca, alguns velhos papéis dos jornais para separar as camadas do musgo que, viria a ser arrancado da terra, lá ia eu a caminho da mata de São Domingos de Benfica, ou da serra de Monsanto.
O balde já por si era pesado, carregado com o musgo, pior um pouco. Era um recado/trabalho que fazia com muito gosto.

O presépio, lá em casa, era muito bonito! Todo ele era feito de bonecos de barro, excepto a cabana que era de palha.
Na cabana de palha estava o menino deitado nas palhinhas da manjedoura, acompanhado das imagens exigentes da tradição.
Tinha na sua frente, ao longo do tampo da cómoda  espalhados no musgo, todo um aparato de pequenos bonecos. Uns representando a vida numa aldeia. Outros, a vida do pastor no monte, com o cão e, as ovelhinhas a pastar.
Não faltava uma pequena cascata, feita da folha de prata, a imitar a água a correr para um lago, não mais que, um pequeno espelho, contendo um ou dois minúsculos patos.

…Anda cá oh Rosa…disse-lhe a D. Georgina, minha mãe.
…Quero-te mostrar o brinquedo que vou pôr no sapatinho do Raul…
…Comprei-o na papelaria do Chico…

O Sr. Chico tinha uma papelaria na Cruz da Pedra. Vendia também brinquedos.
Estava situada um pouco à frente da Pastelaria (A Colmeia), na Estrada de Benfica, perto da loja de electrodomésticos  onde o Bica, da minha rua, mais tarde veio a trabalhar para aprender a profissão de electricista.

A loja do Sr. Chico, por esta época festiva, era das poucas lojas, em redor do velho Bairro das Furnas, que, tinha a montra mais recheada de brinquedos.
Era costume ver a pequenada, pasmada, encostada aos vidros da montra, a admirarem todo aquele aparato.
Eu já fizera há muito a minha escolha, “perdendo”, quando pela loja passava, largos minutos a vê-lo trabalhar.
Maravilhado, perguntei à minha mãe se o Pai Natal me podia dar?
Da resposta apenas obtive o silêncio.

…Oh Georgina foi caro? Pergunta-lhe a Ti Rosa.  
…O Sr. Chico deixa-me pagar por 3 vezes… retorquiu
…Eu, para a minha mais velha, vou comprar umas meias de vidro, destas agora, sem costura. Para os outros ainda não sei…avançou indecisa a Ti Rosa.

Naquela noite, 24 de Dezembro, do ano de 1953, o poial da chaminé da minha casa estava muito branquinho. Não passara uma semana que fôra caiado.
Tinha em cima dos azulejos uma pequena toalha de cor branca, 2 sacos de flanela de cor vermelha, um meu sapato cardado na sola, couro amarelo e ensebado, onde supostamente, o Pai Natal iria colocar os brinquedos por mim solicitados e, ainda, os pedidos pela minha sobrinha Madalena, então com 4 anos.

Bem fiz aturados esforços contra o sono, na espera da meia-noite, mas o “joão-pestana” foi bem mais forte.
De manhã cedo, ainda noite escura, corro para a chaminé para ver das minhas sortes!
Eu o pressentia!
Lá estava a minha paixão!

…O meu primeiro brinquedo de corda. O avião que dava cambalhotas e que, durante alguns dias, o via deslizar nas improvisadas pistas na montra da loja do Sr. Chico… 

Não posso descrever o sentimento dos meus pais ao assistirem à minha alegria, mas recordo de
como era bonito ver contentes, com os novos brinquedos, nesse dia de Natal, os miúdos/as da minha rua.
Que vaidoso estava, por brincar com os demais, vendo o meu avião de corda “voar” e a dar cambalhotas na “pista” da velha Rua dos Plátanos.

Foi assim o dia de Natal, naquele ano.
Hoje, nesta quadra natalícia, quero os dias a correrem depressa. Quero ver retratado, nos lindos rostos, das filhas e das/o netas/o, a alegria originada pelas prendas “oferecidas” pelo velho Pai Natal.

Nota:
A imagem do avião, igual ao brinquedo que me foi oferecido neste Natal, foi copiada, com a divina vénia, do Blog Meus Brinquedos Antigos 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

terça-feira, 20 de novembro de 2012

HISTÓRIAS QUE ME ATREVO A CONTAR


                                                                 A MENINA DANÇA?


…Já não se encosta a face à face da dama.
…Já não se trauteia aos ouvidos da donzela.
…Já não aproximam os corpos (a medo) como outrora.
…O rigor da indumentária já não se verifica.
…Os passes de dança já não são motivo de censura por mal praticados.

Recentemente dei nota de uma cena passada no período da adolescência, num dos frequentes bailes, ao fim de semana, no Clube de Sete Rios, cujas antigas instalações ficavam nos arredores do velho Bairro das Furnas.
Pensando melhor e, pela importância que, naquele período, tais eventos representavam para a juventude, entendi desenvolver um modesto apontamento de registo, a fim de, eventualmente, se tirar ilações e, quiçá, compara-lo com os hábitos/costumes contemporâneos.

A cidade de Lisboa, naquele tempo, estava bem apetrechada de clubes recreativos e sociedades culturais. Eram dos poucos espaços democráticos de raiz popular. Designavam-se, de alguma forma, como um movimento de oposição, de resistência cívica, política social e cultural, ao regime fascista.
Pelo seu empenhamento, umas quantas foram encerradas e, alguns dos seus dirigentes passaram pelos calabouços da polícia política e, do regime.

Creio não estar a ser injusto se referir que, a juventude, na maior parte desprovida das acções da política, para além da sua ocupação no trabalho, ou no liceu, “perdia-se” no pensamento, pela chegada das matinés, ao fim-de-semana, organizadas nas colectividades.
Era das poucas oportunidades, nas voltas de um slow ou de um tango, ter nos braços a sua escondida paixão. Ou para o aprazimento, tanto quanto possível, à sua “fogosidade” que, nessa idade, a todos assolava.
Era quase sempre os rapazes os primeiros a chegarem ao bailarico.
Acomodavam-se no bufete.
Por vezes jogavam às moedas ou diziam dichotes. Mas atentos da chegada daquela, por quem o interesse vinha observado ou observara em fim-de-semanas anteriores.
Raramente se sentavam, a não ser que o seu par já o tivesse por comprometido.

As moças vinham sempre acompanhadas das mães. Ou recomendadas pelo “olhito” de uma vizinha. Só excepcionalmente tinham autorização de sozinhas, irem ao salão de baile. Quanto muito em grupo, mas sempre na presença de alguém de “confiança” dos seus pais.
Apresentavam-se de saias e blusas ligeiramente ajustadas ao corpo. Um ou outro colar de pechisbeque ornamentava o peito, escondendo um modesto decote.
Era raro o uso de calças. Aqui ali, alguém com pudicas e ligeiras camadas de batom nos lábios.

Ao fundo do salão de baile, encontrava-se o palco. Nele, quase sempre um conjunto musical.
Junto das paredes, por debaixo de alguns espelhos, ou de fotografias de cor sépia pelo tempo, as filas das cadeiras, onde se sentavam as raparigas e, as suas “vigilantes”.
Quando o animador da sala, dava o sinal aos músicos para iniciaram a actuação, os jovens, aos poucos, sorridentes, uns atrás de outros, sala fora, lá iam no encontro das donzelas.
Apresentavam-se de fato, casaco necessariamente abotoado e gravata a condizer. Com os sapatos era condição trazê-los bem engraxados, para dar nas vistas quando observados nos passos da dança.
Eram momentos de grande nervosidade.

A menina dança?
Aqui a sorte estava ou não na aceitação, na maior parte das vezes, pelo consentimento, por gestos ou sinais, de quem a acompanhava a rapariga.
Registar que, mesmo contra a vontade a quem formulei o convite, levei algumas “tampas”.
Desistir nunca.
Momentos altos, por tão bom, eram quando consentido o encostar do rosto, permitindo (por vezes) cantarolar aos ouvidos da parceira. Quase sempre dava azo a um “apertadinho” mais ousado e, também ao estalo, ou ao abandono, no meio da sala, do cavalheiro. Foi também acontecimento nalgumas vezes.

Interessante era o momento em que, o animador anunciava “damas ao bufete”.
O cavalheiro convidava e obrigava-se a pagar, uma bebida ou um bolo, ao par que, mais “sorte” lhe deu naquela tarde.
Eram também momentos que, o pouco dinheiro nos bolsos desaparecia.
Nem tudo era “mau”.
Nestas ocasiões de “damas ao bufete”, permitia, por breves momentos, ficarmos livres da vigilância da mãe ou do “olhito contratado”.
Aqui os sorrisos, algo comprometedores e, os afagar/encostar os dedos na mão da donzela, eram sinais do interesse para uma maior aproximação e, desejo do namorico.

Mas tudo passa.
Com o surgimento das discotecas, dancigs, pubs, etc., os hábitos de convivência da juventude mudaram muito.
Nos dias de hoje, sobretudo em Lisboa, a importância destas sociedades, como locais de reunião social e cultural, foi decrescendo. Poucas são as que, mantém as raízes. A grande maioria já não funciona. Nas existentes é muito rara a presença da juventude e, ver as “enchentes” como em outrora se verificavam.

Já não se encosta a face à face da dama.
Já não se trauteia aos ouvidos da donzela.
Já não aproximam os corpos (a medo) como outrora.
O rigor da indumentária já não se verifica.
Os passes de dança já não são motivo de censura por mal praticados.
Mas…Sempre que posso, mesmo já no arrastar dos pés, não dispenso uma matine dançante.
A senhora dança?

Fotomontagem da furniana Teresa Carvalho (Té)