quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

HISTÓRIAS DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS (XLI)


O ESCULTOR A QUEM DENOMINAVAM DE CANTEIRO

Há muito que queria registar no meu blog, o homem que, eu miúdo, via no seu quintal num banco sentado, dias a fio, sustentando nas suas pernas magras e compridas, pequenas pedras de mármore que, sobre um pano já rasgado e gasto pelo uso, ousava esculpir.
Todo aquele trabalho me fascinava e, fazia confusão. Como era possível não estilhaçar as pedras ao manipular as macetas de variado porte, os ponteiros e os ciséis em ferro de vários tamanhos, quando trabalhava o mármore para lhe dar as primitivas formas.
Como ficava interrogado de ver aquele homem, de cabelos brancos, de mãos bem calejadas, pacientemente a lixar e a lustrar as pequenas peças já esculpidas que, soubera originar.

Bom dia Ti Damião. Era assim o trato por quem chamava o Sr. Gualdino
Bom dia rapaz.
Respondeu ele sem desviar olhar do que estava a fazer.
Está a fazer é um cinzeiro não é?
A sua cabeça fez um sinal de afirmação, retorquindo com um sorriso;
Olha… é uma peça igual, aquela que ofereci à tua irmã como prenda de casamento!
Como era bonito aquele cinzeiro de mármore rosa e branco que um dia se quebrou contra o chão, deixado cair por mim, quando não o soube agarrar ao contemplar a sua lindeza.

O Sr. Gualdino Damião, morava no nº 20 da minha Rua dos Plátanos.
Morreu com 87 anos de idade, no mês de Junho do ano 1964.
Nesta sua casa, habitavam também a sua filha Srª. Dª. Hirondina e a sua bonita neta Mª Helena Damião.
Gente bem amiga da minha mãe. Muito divertidas, sobretudo a Srª Dª. Hirondina que, nas épocas carnavalescas, mascaradas, acompanhadas pela minha mãe, pela Ti Esperança e pela Ilda dos Óculos, todas vizinhas, não deixavam de brincar a bom brincar por aquelas ruas do velho bairro. A estas paródias também não podia fugir, a Ti Hirondina e a filha mascaravam-me, algo que não me agradava lá muito.

A Mª Helena Damião conta mais 7 anos de idade que a minha pessoa. Por volta do ano 1965, após o seu casamento, muda de morada de casa, com o saudoso Eugénio e filho, passando a viver na Quinta do Charquinho, em Benfica.
Passaram 48 anos sem a ver. No entanto este lapso de tempo, não fez esquecer a sua pessoa.
Ir ao encontro da Mª Damião, por razões da reciproca amizade desde menino e moço, recordar aquela família que tanto me estimara e, saber mais do homem cujo trabalho, em miúdo, me deslumbrava era situação a colmatar.

Naquele dia de inverno, a chuva e o vento forte, não impediu de ir ao seu encontro. Em sua casa, observámos e comentámos fotografias antigas, também menos antigas, recordando gentes da nossa rua, da sua vida e, da vida dos descendentes.
Recorda com saudade o seu marido, companheiro da sua vida. Relembra sua mãe e, o avô. Sem rebuço, afirma ter sido o seu verdadeiro pai.
Fala orgulhosamente do seu filho e da sua bonita neta.
Deparo que os seus 75 anos de idade não lhe tiram a vivacidade do olhar e o sorriso de outrora. A sua voz é inconfundível para quem a conheceu menina e moça.
Na fotografia do seu casamento, comenta a amizade vivida com as moças vizinhas da sua casa. Eramos como verdadeiras irmãs, comenta.

No dia 26 de Dezembro de 2013, a noite aproxima-se. O objectivo do nosso programado encontro também se dá por finalizado, não sem antes perguntar:
…Diz-me Raul, como tens passado? Tens filhos? Netos?
A tua irmã?
E já na despedida comenta:
Olha…se vais escrever sobre o meu avô, não te esqueças de referir que o brasão que existe no quartel dos Bombeiros Sapadores de Lisboa, em S. Bento, foi ele que o fez sozinho, como um verdadeiro escultor que era. Notícia que não saiu do meu pensamento, até ao dia em que teria a possibilidade de ver e fotografar a escultura da autoria do Ti Damião.

Fiquei triste e surpreendido quando me foi recusado retractar o brasão, ali tão perto, pelo oficial de dia ao quartel.
…O Sr não pode fotografar o que pede, sem a autorização do nosso comandante… Concluído:
…Peça-lhe por escrito, garanto que a resposta será rápida…
Defacto; foi rápida e concedida!

Janeiro de 2014 
Raul P Sinos

fotos:
A 1ª foto retracta o Sr. Gualdino Damião.
A 2ª foto retracta a Srª Dª. Maria Helena Damião nos dias de hoje.
A 3ª foto retracta o dia do casamento da Mª Damião, acompanhada pelas damas d’Onor e vizinhas

A 4ª foto retracta a bonita escultura feita pelo Sr. Gualdino Damião, exposta no quartel BSL – S. Bento


E o Bisneto disse:

Olá Raul!
 O trabalho que me envias-te sobre o meu bisavô está admirável.
 Invade-me a nostalgia e a saudade dele, do nosso velho Bairro e da nossa velha Rua.
 Aproveito também para te agradecer os teus trabalhos sobre o nosso saudoso Bairro, com textos e imagens que nos transportam no tempo para junto das pessoas e dos lugares que muito marcaram a nossa infância e juventude.

Tinha 17 anos a quando do falecimento do meu bisavô. Estava então na Força Aérea e em aulas na Base Aérea 2 quando o diretor de curso, o major Tomás, interrompeu a aula e me comunicou o seu falecimento, providenciando o meu transporte para casa.
 Tenho ainda gravada a sua imagem no seu leito de morte.
 São muitas as recordações daquele homem bom e da bisavó Chica (Francisca), sua companheira de sempre.
 Esculpiu muitas obras para jazigos no cemitério do Alto de S.João; são obras que não identifico mas todos ao trabalhos ali existentes são admiráveis e regozijo-me com orgulho, quando tenho oportunidade de os contemplar,por saber que as suas macetas e escopros cinzelaram muitas daquelas obras.

Oh Aida!... (a minha mãe) vou com o miúdo ao café. Lá me levava pela mão ate à leitaria do Sr. Mane´l e do Sr.. António, único local onde nas redondezas existia televisão, recém chegada a Portugal. Quase sempre à noite, após o jantar, lá íamos ver televisão; ele bebia a sua bica acompanhada do seu bagaço e... Oh António trás aí um pacote de bolachas de baunilha aqui para o rapaz! - Regressava-mos a casa quase sempre no fim da emissão após um dos seus  programas favoritos, a volta a Portugal em bicicleta.

Aqui fica expresso o meu agradecimento por me facultares a possibilidade de, como já disse antes, me transportares aos anos do que considero uma saudosa época da minha vida.
Recebe um grande abraço, até breve!

Luís Filipe Ramos (Luís Damião)