terça-feira, 12 de agosto de 2014

Os Avós

Os avós vêm de muito, Muito longe…

E vêm cansados. De tão longa caminhada. Cheios de pó, metem dó!
E vêm vergados. Por tantos anos vividos a trabalhar.
Também vêm sós. Tudo perderam pelo caminho: A Elegância, a Formosura, toda a frescura, os mais belos sonhos, anos risonhos, os seus amigos, os seus parentes. Mesmo seus maiores afectos
Apenas lhes resta o coração.
Esse, guardam-no religiosamente - Para amar, e para dar de presente...
...Aos seus netos

(do blog Educação de Infancia, mas de autor desconhecido.)

quinta-feira, 31 de julho de 2014

JÁ NO SÉCULO XV EXISTIA O NOME DE PICA SINOS


Com uma rara cultura, Anselmo Braamcamp Freire (1849-1921) foi escritor, historiador e um dos fundadores do Arquivo Histórico Português, em 1903.
Como arqueólogo e genealogista deixou uma vasta obra, tendo sido em Portugal o precursor de genealogia científica.

Os Brasões da Sala de Sintra são a obra maior de investigação de Anselmo Braamcamp Freire, autor que ocupa um lugar de excepção, de primeira fila, na legião dos que, depois de Herculano, adiantaram as investigações históricas em Portugal.
Esta obra marca também o início, em Portugal, do estudo da Genealogia como uma ciência auxiliar da História, pois até essa data ela mantivera-se num estado de panegírica, e de pouca ou nenhuma aplicação dos métodos científicos de investigação.
(Wikipédia)
142 Brasões
……
   Por fim entrou el Rei a cavalo coberto de riquíssima armadura guarnecida de pedras preciosas e pérolas, com a coroa real sobre o elmo e dela saindo os liames de nau doirados que ostentava por cimeira em atenção à rainha, fazendo um desgraçado trocadilho com liames e Lianor, como então se dizia:
   Estes liam de maneira que jamais pode quebrar quem co'elles navegar.
   Em volta de D. João II caminhavam quarenta moços de estribeira vestidos de brocados de pêlo.
   Atrás de el Rei vinham, tambe'm a cavalo, os oito mantenedores, a um e um, todos ricamente vestidos de brocados e sedas, cobertos de bordados e entretalhos e ornados de magníficas jóias. Cada um deles era rodeado de muitos moços de esporas vestidos de sedas.

   O primeiro mantenedor atrás de el Rei era D. João de Valenzuela, antigo prior mor da Ordem de S. João de Castela, donde andava desterrado por haver seguido o partido da Excelente Senhora. Era homem não muito novo decerto, pois que já naquela qualidade figurara numa concórdia celebrada em 1467 entre os priorados de Castela e Portugal (i). Trazia como cimeira o vulto de Alexandre sobre uns grifos e esta divisa:

   O sexto era D. João de Meneses, o Pica-Sinos, alcunha que lhe foi posta por em rapaz querer andar sempre a repicar sinos. Era irmão do conde de Cantanhede e aio e mordomo-mor do príncipe D. Afonso, a quem acompanhou quando, em 12 de Julho de 1491, deu, nos campos de Santarém, a mortal queda do cavalo abaixo. D. João, um dos melhores poetas do Cancioneiro, trazia por cimeira um ichó (armadilha em forma de alçapão para apanhar caça meúda) e dentre dele metido até à cintura um homem. A divisa era esta:

Es tan dulce mi prision
que deve, para matarme,

no prenderme mas soltarme. 

sábado, 21 de junho de 2014

HISTÓRIAS DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS (XLIII)


 O PÊSSEGO REBOLÃO

Muitos dos quintais do meu velho Bairro das Furnas tinham árvores de frutos cultivadas, não sendo raro haver pessegueiros! O meu brotava uma qualidade de pêssegos que pela sua cor vermelha e fina penugem que os cobria, fazia inveja a quem na passagem os admirava. Os ramos, carregados, dobravam pelo peso de tantos rebentos. Cá o rapaz, não raras as vezes, era criticado pela D. Georgina, minha mãe, por os apanhar, às escondidas, ainda pouco maduros.

Ao longo da vida sempre gostei de pêssegos, direi mesmo que é um dos frutos que mais aprecio. Hoje, quando como pêssegos, não me parecem tão saborosos como os desta árvore que me viu crescer.
Exactamente por gostar tanto deste fruto, guardo uma história que me atrevo a contar.

Aos fins-de-semana, era comum a rapaziada do bairro, ainda imberbe e em grupo, rumarem ao Pavilhão dos Desportos, em S. Sebastião da Pedreira. A Câmara Municipal de Lisboa, para gáudio da cachopada, oferecia, na ausência das modalidades desportivas, nos períodos da manhã ou nas tardes, fitas de desenho animados entre outros filmes.

Também o Jardim Zoológico era destino a ter em conta.

Com a chegada do verão, era forte a discussão entre a miudagem na casa da Mocidade existente na entrada do Bairro. A organização dos acampamentos e dos cursos para graduados da Mocidade Portuguesa era alegre, divertida e entusiasmante.  
Os rapazes acabados de sair da instrução primária, ainda sem trabalho, ou em período de férias escolares antecedentes ao ensino secundário, aos fins-de- semana, eram convidados a passar esses dias fora de casa. Uns com vistas a acampar nos mais variados sítios nos arredores de Lisboa, outros a obter cursos de “Chefe de Quina” e de “Comandante de Castelo”, na Quinta da Graça, à Cruz Quebrada.
Passar o fim-de-semana fora de casa tornava-se uma aventura. Acampar com a “malta” tendo como manta o som das ondas do mar era o máximo! Como seria passar o fim-de-semana na Quinta da Graça, na companhia dos rapazes oriundos das mais variadas casas da Mocidade do distrito de Lisboa? A minha curiosidade era mais que muita. Contudo, aqui, ao contrário dos acampamentos, não gostei. Só por lá passei um fim-de-semana.

Nesta quinta, as mesas do refeitório tinham bancos corridos que comportavam cerca de 12 rapazes (6 de cada lado). Dispostas para acompanhar o comprimento da sala, divididas por um corredor. No final ficava atravessada a mesa dos “vips” com as respectivas cadeiras na direcção dos alunos.
Fazia parte da tradição um aluno representar os demais na mesa das personalidades, composta por monitores e convidados. Ainda hoje não sei o porquê de ter sido eu o escolhido para esse jantar de sábado. Ocupei a cadeira frente ao corredor, “encaixado” na minha esquerda por um padre, e pela direita, um engravatado qualquer.

Não me lembro de como era composto o menu, mas os olhos não se desviavam do centro de mesa carregado de fruta, onde abundava o fruto que tanto apreciava – os pêssegos -!
Uma dúvida me sobressaltava….Será que os “vip(s)”! comem os pêssegos à dentada…?

Demoro a ver, na minha frente, um prato pequeno acompanhado de faca e garfo.
Uma voz soa ao meu ouvido. Era a voz do padre:
…Como te chamas? ...Não comes fruta…?
Quero um pêssego, mas nunca os descasquei com faca e garfo, retorqui!
…Vê como eu faço… Disse o meu companheiro vip.
Sobre o olhar da rapaziada por perto, quiçá com as mesmas dificuldades no descasque, lá fui atabalhoadamente descascando com a faca e com o garfo o suculento pêssego. Quando perto do final de tão arriscada operação, o popular fruto, certamente ofendido pelo trato, salta a bom saltar do prato e rebola apressadamente pelo corredor, acompanhado na sua desenfreada correria as gargalhadas de todos que assistiram.

Em conclusão direi:
Nunca mais visitei a Quinta da Graça!

E jamais, ao longo da vida, comi pêssegos com faca e garfo!

segunda-feira, 9 de junho de 2014

sexta-feira, 25 de abril de 2014

domingo, 16 de fevereiro de 2014

HITÓRIAS DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS (XLII)


CONTADAS ÀS MINHAS NETAS

Num recente dia passado, eu e as netas avistamos, na vila onde moramos, equídeos no pastoreio.
…Já andaste de cavalo…? Pergunta-me uma delas.
A outra sem esperar pela minha resposta refere:
…Eu já, por duas ocasiões com o meu pai…!
Concluindo a autora da pergunta:
…Eu montei um pónei, numa exposição agrícola na Praça do Comércio em Lisboa...!
E em uníssono referem as duas;
…E tu? Já andaste…?
E seguidamente perguntam:
…Quando no levas a andar de cavalo…?

Podemos, logo, pela tarde, andar de “cavalo”, como na vossa idade eu andava retorqui!
Interrogadas perguntam:
…Então como…?

 Foi uma tarde bem engraçada não só por ouvirem a história, mas sobretudo por “cavalgarem” como o avô “cavalgara” quando na idade delas.
No velho Bairro das Furnas, lá em casa, havia um modelo de cavalo de baloiço, feito de madeira, bem bonito, mas longe de satisfazer a minha imaginação de bem cavalgar.
Os pés chegavam ao chão, quando pousados no “estribo”, tendo em conta o meu tamanho, ocasionava, os joelhos ficarem em posição incómoda, dificultando o acesso para agarrar o pau no pescoço do cavalo, a servir de “rédeas”.

A minha preferência ia para os “cavalos” feitos de cana, se bem que não fosse fácil adquiri-los. Quando aventurados e conseguido, com os demais parceiros das brincadeiras, ninguém segurava a rapaziada nas correrias, nas chilreadas e nas batalhas desenvolvidas nas ruas do velho bairro.

A pequenada sentia-se feliz, realizada, não só por ultrapassado o ingénuo risco de “roubar” a cana, mas também pelas brincadeiras originadas.
No velho bairro e em seu redor, que me lembre, havia 2 caniçais:
Um deles estava situado ao fundo do terreno dos jardineiros, mesmo na entrada da Rua dos Choupos, paredes meias com o quintal da Amélia-alta.
O outro caniçal estava situado por detrás dos tanques, nos terrenos afectos à oficina do caminho-de-ferro, um pouco antes da serração do mármore.

As canas destes 2 caniçais serviam de suporte às plantações, no caso do terreno dos jardineiros, para apoio das flores e sebes espalhadas no bairro.
Nos terrenos situadas entre o muro do bairro e a linha do caminho-de-ferro, à beira do caneiro, geralmente as canas serviam para suporte dos produtos agrícolas (feijão,etc) que os operários ferroviários cultivavam.
No terreno do bairro, geralmente já noite, para cortar as canas, tinha que ser em momentos livres dos olhares da vizinhança. Cortávamos a cana bem no meio do canavial, para que não se detectasse a falta pelos jardineiros.
No terreno da companhia dos caminhos-de-ferro; um ou dois saltava o muro do caneiro, um outro ficava do lado de dentro para receber o produto “roubado”, mas antes era verificado se nenhum dos operários estava por perto.

A cana era escamada, ficando uma pequena ramagem na ponta a fazer de rabo. Um cordel era atado na parte mais grossa da cana a fazer de rédea. O “cavalo” estava pronto.
O “cavaleiro” ficava equipado quando ostentava, na cabeça, um chapéu de 3 bicos feito de papel de jornal, ou outro papel a jeito. Enfiada na cintura dos calções, ou suportada por um cinto feito de trapo, era visível a espada de pau. A “guerra” vinha a seguir.
Fevereiro 2014

E o Justo disse:
Gostei, como sempre!!
Aprecio a narrativa "ao corrido" típica dos teus textos.
Tiveste a sorte de na meninice viver simultaneamente na cidade e no 
campo, daí esta e outras vivências anteriores, ligadas a esses cenários.
Lembro-me de pelo Natal ver numa drogaria na Rua da Condessa um cavalo 
do género destes mas em madeira, com uma rodinha e uma cabeça de 
cavalo pintada, com duas pegas laterais.
Ainda recordo os brinquedos de lata e até do cheiro das tintas com que 
eram pintados.
Mais uma vez...palminhas ao amigo Raulão.
Abraços