quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

HISTÓRIAS DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS (XL)


A PAIXÃO PELO ARCO E GANCHETA

 Era, quando nos recados à padaria da praça do velho bairro, sobretudo nas manhãs, bem cedo, antes de me dirigir à escola, uma das ocasiões mais desejável, para me “transportar” de arco e gancheta.
 
Andar de arco de gancheta naquelas ruas, não era de todo fácil. O asfalto existente era pobre, irregular, as covas eram mais que muitas.
A minha rua dos Plátanos e, o arruamento de ligação às outras ruas paralelas e, de acesso à saída do bairro, tinham uma ligeira inclinação. Mais acentuada ao confinar com largo onde o mercado se encontrava.
Dizer que este handicap/inclinado originava a velocidade do “transporte” a “dois” tempos. Primeiro em passo de corrida, mas chegado à rampa, aqui o passo era de caracol. Contudo, mais difícil era na descida, tendo em conta a velocidade e os pinotes do arco que, a gancheta e o condutor, mal conseguiam segurar.

O meu arco era aproveitado de um velho aro de bicicleta, originando nas correrias, por mais largo e pesado, dificuldades no manejar. Os arcos dos outros miúdos eram mais leves e finos, eram feitos de ferro, alguns até de aço, mais fáceis de os fazer rodar e manejar. Não tinha serralheiros metalúrgicos na família para me brindarem com um destes bólides, desvantagem jamais desmotivadora das entusiásticas corridinhas, ruas abaixo, na direcção aos “tanques”.

“Tanques” era o nome dado ao lavadouro comunitário, situado a sul dos arruamentos, paredes meias com a linha do caminho-de-ferro.
A rapaziada, aqui chegada, após aturadas correrias, matava a sede com a água sempre fresca que, brotava das torneiras livres de serventia. Seguia-se o molhar das mãos e da cara para que suor e, o avermelhado depressa deixasse de incomodar.

Preventivamente, entre as oliveiras existentes, eramos observados pelas vizinhas na lavagem a roupa. Uma ou outra, de voz bem elevada e ameaçadora, possuindo, nas mãos, algo bem encharcado, “convidavam-nos” a desandarmos “dali-pra-fora”, numa atitude de salvaguardar as roupas lavadas, nos arames estendidas e, a corar no chão sobre as ervas e chorões, para que, não viessem a ser emporcalhadas, no toca e foge, resultante de uma discussão da cachopada, mais acesa, na ultimação das sempre difíceis classificações, para os lugares cimeiros das corridas “ciclo-pedestal” acabadas de realizar.

Hoje, dificilmente se vê um miúdo a andar de arco e gancheta. Talvez num qualquer velho bairro ainda existente, numa das colinas desta Lisboa.

Dezembro de 2013
Raul Pica Sinos

Notas:
1ª Foto do Blog Recordar, Aprender e Descobrir

2ª Foto da C.M.L.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O 7º ANIVERSÁRIO DA LARA PICA SINOS TEIXEIRA

Na casa da mãe em Pinhal novo ano de 2013




quarta-feira, 30 de outubro de 2013

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

HISTÓRIAS DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS (XXXIX)


 OS JOVENS DO RITMO NA CONQUISTA DO ROCK AND ROL


O Beirão, na adolescência, era um “puto” giríssimo. As borbulhas na cara, por via da barba a surgir, não lhe tirava a graciosidade.

O Zeca, era, um galã. Vestia primorosamente, quase sempre de fato, oferecendo elevada elegância.

Os Jovens do Ritmo, durante 8/9 anos, abrilhantaram musicalmente decerto a mais famosa sala de baile de Lisboa. Espelho D’Agua, em Belém,


Esta nova história do velho Bairro das Furnas, vem a propósito por observação das minhas duas netas, quando num dia, difícil de precisar, as transportei no automóvel e, sintonizo no rádio uma das estações que, reproduzem música e canções anos 60/70.

Do banco de trás oiço dizer …Lá vem música dos cotas.!
A discussão foi acesa para catalogar da preferência do melhor:
Digo eu …Será a gritaria, a falta de harmonia no ritmo musical, o aumento dos decibéis de estoirar ouvidos, destes novos conjuntos que esgotam estádios, as danças com esquemas, é disto que vocês gostam?  
Do banco detrás oiço dizer…Não te enerves, transfere lá essa “cena” para um posto de rádio de jeito, porque, a hora de dormir ainda não chegou! (diz-me uma delas elas com a concordância da outra).
Pois foi. Foi esta troca de “ideias” que, se fez luz na memória, os momentos, sobretudo aos sábados, quando colocava umas moedinhas na máquina jukebox, existente no café do Gonçalves, na meia-laranja, ouvindo, repetidamente, as canções então na “berra”; do Elvis Peslay, do Paul Anka, do Littie Richard, entre outros. Muitas das vezes já aperaltado para participar numa sessão dançante, ao som das músicas do rock and roll ou românticas, abrilhantada pela banda Os Jovens do Ritmo!

Creio que haverá, felizmente, ainda muita gente recordada de ver o Beirão a tocar guitarra eléctrica e, o saudoso Zeca acompanhando-o cantando.
Este duo foi um sucesso nas salas de baile das colectividades de Lisboa, ao divulgar músicas e canções de origem anglo/americanas e, italianas.
Mais tarde, por exigência do êxito e dos muitos fãs que, a miude os acompanhava, verificou-se da necessidade de evoluir, passando o duo a quarteto.
Para aqueles que desconhecem tal feito e, decerto modo, para ficar registadas algumas modestas memórias, direi:

José Domingos A. Beirão, o Beirão como lhe chamavam. Na adolescência, era um “puto” muito giro. As borbulhas na cara, por via da barba a surgir, não lhe tirava a graciosidade. Irreverente, como os demais. Uma “fera” a jogar matraquilhos na tasca do carvoeiro situada ao fundo da Rua de S. Domingos, esquina com a Estrada de Benfica.

Adorava o rock and rol, a rebeldia musical, os blusões de cabedal pretos. O fascínio, o encanto pela música, o som das guitarras eléctricas, infernizava-o diariamente.
Seu pai, acompanha-o no sonho e, oferece-lhe uma guitarra electrica de marca Eko, de fabrico italiano, com 6 cordas, com amplificador e barra para vibração, a sua cor era de um vermelho garrido. Custou 18 contos, quiçá vinte vezes superior ao ordenado mensal de um operário.
Vaidoso, era vê-lo depois, não poucas vezes, no quintal do Cataré, a produzir os primeiros acordes.

O José Alberto, o Zeca para família e amigos, era um rapazola alto, de cabelo preto e sempre bem penteado. Vestia primorosamente, quase sempre de fato. Os sapatos sempre engraxados. Indumentária, no seu conjunto, oferecendo elevada elegância. Era o que se pode chamar…um galã. Amigo do seu amigo. Gostava muito de brincar e de cantar todo o género de canções entusiasmantes à época, incluindo mornas de Cabo Verde. Cantava primorosamente bem, com timbre voz limpo e agradável.

Já se referiu o êxito e o entusiasmo destes dois amigos. Queriam mais. Ultrapassados alguns obstáculos, formam uma banda de quarteto, com a junção de um baterista e de um viola de acompanhamento, rapazolas oriundos de um bairro lá para os lados da Pontinha.

Os Jovens do Ritmo, não eram uma banda de menos importância. Em Setembro de 1965, na 7ª eliminatória do concurso Ié-Ié, no destruído Teatro Monumental, ao Saldanha, há quem defenda que, não ficou em 1º lugar, porque o vencedor (Gatos Pretos) era apadrinhado pelo dono do teatro o Sr. Vasco Morgado (pai).
A prova do seu esmero trabalho não demora a chegar, são convidados a participar no filme (Estrada da Vida), durante um mês, em Angola, com o artista Tony de Matos.
Durante 8/9 anos de brilhante carreira, mensalmente, são contratados para actuarem (ao sábado) no Espelho D’Agua, em Belém, engalanando musicalmente decerto a mais famosa sala de baile de Lisboa.

“Os Jovens do Ritmo” há muito que são uma recordação. Não fazia qualquer sentido continuar a abrilhantar as salas de baile de Lisboa, por respeito, à ausência daquele que foi decerto o seu grande animador.

O Beirão morava na Rua Eng.º Gomes de Amorim. A rua principal do bairro como ele lhe chama.
Após cumprido o serviço militar, foi ocupar, com a família, uma nova casa na Quinta das Pedralvas, em Benfica.
Mecânico de profissão. Em parceria com o Santana detém uma oficina auto na Rua do Montepio Geral, em S. Domingos de Benfica.
Desfeita a sociedade vai viver para a Nazaré. O Sr. Domingos como é conhecido por lá permanece durante 18 anos.
Hoje, com 70 anos de idade, reside no Concelho de Alcobaça, mais propriamente na localidade de Alpedriz.

O saudoso Zeca morava no Bairro Padre Cruz, era namorado da bonita Bina. Depois de casado, com esta irmã do saudoso Zé Augusto, passa a residir na Rua de São Domingos, paredes meias com o Bairro.
Foi funcionário superior da Olivetti e mais tarde concecionário dos mesmos produtos de comercialização.
Foi o responsável, durante alguns anos, pelo Departamento do hóquei em patins do Sport Lisboa e Benfica.
Faleceu aos 40 anos no dia do aniversário da sua mulher.

Agosto 2013


segunda-feira, 24 de junho de 2013

HISTÓRIAS DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS (XXXVIII)

 
...
… Partimos com as mochilas e as tendas de lona de cor branco sujo às costas!
… Juramos vencer a distância daquele afloramento rochoso que, distava entre 100 a 150 metros, da praia!
… Já chorava, fiquei assustado de medo, de morrer afogado,

Há mar e mar… à ir e voltar

A frase é da autoria do poeta Alexandre O’Neill, criada para uma campanha contra o afogamento nas praias portuguesas nos anos 80. Vem a propósito para relembrar a atitude de um amigo de longa data que, perante o nervosismo acompanhado com o desmedido bracejar, soube, ter a calma e a lucidez necessárias para que, os dois (eu e ele) ultrapassássemos a forte corrente da fria água do nosso oceano.

A história data ao ano de 1957 e, começa uns dias antes do verão, numa casa localizada no lado direito da entrada do velho Bairro.
A casa ora referida, tinha na sua frontaria a praça, suportava as salas de estudo dos rapazes e das raparigas para complemento pós-escolar, assim como também as salas da Mocidade Portuguesa (extra-escolar).

A acção extra-escolar da Mocidade Portuguesa, ao contrário do que acontecia nos períodos escolares, as frequências apresentavam-se livres. Resumiam-se, sobretudo aos fins-de-semana, com passeios à praia e ao campo. De quando em quando, promovia visitas a sessões de ginástica e jogos desportivos.
Durante a semana, nem todos os dias, nos finais das tardes e por vezes às noites, realizavam-se entre os miúdos, alguns campeonatos de jogos de sala, tais como os jogos de damas e xadrez, entre outros.

Diga-se, em abono da verdade que, uma maioria dos pais tecia em surdina, grandes críticas políticas à sua existência. Proibiam os seus filhos das frequências lúdicas ou de qualquer tipo de encontro naquele pavilhão. Não tanto pelo que faziam, mas sobretudo por aquilo que o organização representava.
Interessante era também verificar as censuras dos responsáveis pela Acção Social do velho Bairro. Chegavam mesmo a afirmar:

 …os dirigentes são incompetentes, pois cultivavam o elemento físico em detrimento do moral, desviando, por esta via, os rapazes e as raparigas das aulas de formação moral e, da missa… (in no Livro o Nosso Bairro)

À parte das críticas e oposições convém dizer que, MP (extra-escolar), não tinha dificuldade em captar o interesse da rapaziada. Brincávamos, jogávamos e, de tempos a tempos, sempre tínhamos a oportunidade de darmos uns passeiozinhos de borla. É num desses passeios que hoje, este meu amigo, felizmente vivo, reformado caldeireiro de profissão, vai ser relembrado, e agradecido com aquele abraço.

Não sei precisar quantos de nós carregando nas costas as mochilas e as tendas de lona de cor branco sujo, partiu no caminho da Serra da Arrábida.
Lá chegados, bem no alto, alegres, todos se dedicaram a montar os seus acampamentos. A paisagem era maravilhosa e todos (os que sabiam nadar) faziam promessas e apostas de bravura para chegar a Pedra da Anicha, mesmo ali na nossa frente.
A inquietação por via da ventania serrana, deixou de ser preocupação. Todos desejávamos que, a noite fosse pequena, mas não foi. Depressa aprendemos a importância das estacas, das espias e, dos cordéis de segurança do equipamento, quando um vento mais forte, levou algumas tendas ravina abaixo, travadas apenas pelas águas do oceano já na praia do Portinho.

Mas o pior susto estava para chegar! Manhã cedo, eu e o meu companheiro, tocador de gaita-de-beiços por uma boa parte da noite, olhamos um para o outro e juramos vencer a distância daquele afloramento rochoso que, distava entre 100 a 150 metros, da praia e que dá pelo nome, Pedra da Anicha.

Num ápice nos deitamos à água e, não levou muito tempo para pisar o solo da citada pedra, então repleta de algas e de outras plantas marinhas. Escalamos a rocha um pouco, levantamos os braços em jeito de vitória para os demais companheiros nos verem. O que não contávamos, ao regressar, foi com a forte corrente existente, pois nem com todas as forças no nadar a conseguimos ultrapassar.
As forças começavam-me a faltar, já chorava, fiquei assustado de medo, de morrer afogado, quando lúcido e calmo o nosso jubilado caldeireiro disse:

…Raul, deixa-te levar pela corrente, verás que chagaremos à praia…

Há mar e mar… à ir e voltar

Julho de 2013

Foto: Fotoconde

quarta-feira, 17 de abril de 2013

HISTÓRIAS DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS (XXXVII)



NÃO SÓ FLOREJAVAM AZEITONAS

… Nos seus troncos, as cigarras vibravam as membranas em dias de sol…
… No Outono as suas delicadas, vistosas azeitonas, eram bem pretas e brilhantes…
… A rua onde crescera e certamente morrera, não tinha nome…
… Nas festas dos santos populares, tinha como companhia ateada fogueira…
… Uma noite, a linguagem várias vezes se elevou, ignorando-se quem desejava dormir…
… Ou se calam ou tomam banho antes de sábado…

O velho Bairro era rico em oliveiras. Rara era a rua que não as tinha. Sendo que, naquela onde mais abundavam tão robustas árvores  deram-lhe justamente o seu nome; rua das Oliveiras. Ficava bem no alto da colina, paredes meias com a capela. Hoje, não há gente que, não se lembre, do canto das cigarras quando vibravam as suas membranas em dias de sol. Ou de ver subir às pernadas, a miudagem, quando um ninho de um qualquer pássaro era avistado.

De todas estas árvores decenárias, havia uma, que, alguns de nós miúdos, já adolescentes, lhe dispensávamos particular atenção. Não tanto pela sua altura, a ultrapassar o telhado da casa em sua cerca. Não tanto pela beleza das flores despontadas na primavera, rodeadas de folhas verdes acinzentadas na frente, prateadas e brilhantes por detrás. Ou no Outono as suas delicadas, vistosas azeitonas, bem pretas e brilhantes. Não, não era por isso. Era, fundamentalmente pelo local onde estava enraizada, porque, escondia e bem, quem nela se abrigasse.
A rua onde crescera e certamente morrera, não tinha nome, mas não distava meia dúzia de metros do meio da Rua Eng.º Gomes de Amorim.
Começava na casa do Sr. José, marido da Ti Belmira, pais do Toni e da Cármen, bem na esquina da Rua das Tílias. A rua, sem nome, de norte para sul, atravessava, umas quantas outras ruas, na direcção ao lavadouro comunitário, onde perfilavam muitas das suas “irmãs”.
Esta “vaidosa” oliveira, estava praticamente “colada” à casa onde vivia o José Macedo, irmão do Valdemar.
No outro lado, avistava-se a porta do quintal da casa do Sr. Raul Caetano e, da sua mulher a Ti Julieta.

Neste cruzamento, bem no centro, quando nas festas dos santos populares, tinha como companhia ateada fogueira. A chama, aqui, era a mais brilhante das noites festivas. Era o fogacho privilegiado das moçoilas. Na oportunidade, alguns rapazes, disfarçadamente se empoleiravam nos troncos, para melhor verem, quando saltavam, as pernas das raparigas.

Ou ela não usa calças/Ou as tem na lavadeira
Dei por isso ontem à noite/Quando saltava à fogueira

Quantos fugazes beijos, escondidos, a nossa decenária oliveira “observou”.
Quantas animadas cavaqueiras, noite dentro, “ouviu”.
Quantas noites, os rapazes espiou, nas proibidas “jogatinas”.
Quantas vezes, por brejeiras conversas, “ruborizou”.

Dizia-se, em crença popular; quando se viam as raparigas a apanhar um pezinho com 3 azeitonas pretas do chão, tinham como intenção, o colocar debaixo do travesseiro da sua cama, na esperança de sonhar com o rapaz que, pretendiam namorar.

Uma noite, não sei precisar o dia e a hora, mas certamente muito tarde, a linguagem da rapaziada, no calor da discussão, várias vezes se elevou, ignorando-se, por perto, quem desejava de dormir.

De repente, eis que, uma voz bem forte, ecoou na noite já alta:

…Basta seus malandros…Não se pode dormir nesta casa…Eu vos digo…

Assustados, em segundos, num ápice, os calcanhares depressa tocara os traseiros em fuga.
Era a Ti Julieta, mulher do Sr. Raul Caetano que, se apresentou encolerizada, na porta do seu quintal, de camisa de dormir e, de balde de zinco na mão, rematando:
 
…Ou se calam já e, desandam rapidamente daqui para fora, ou tomam banho antes de sábado…

Podiam ter transplantado esta linda decenária para outro local, a exemplo do que fizeram com parte das oliveiras que existiam nos “tanques”, presentemente (pouco estimadas) no mesmo local com o nome de rua Alcina Bastos.

Não desfrutou dessa sorte.


Foto 1  A oliveira em referência
Foto 2 As oliveiras perfiladas nos “tanques”
Foto 3 O presente local com parte das oliveiras dos tanques

quarta-feira, 3 de abril de 2013

HISTÓRIAS DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS (XXXVI)


 A VIDA E A HABITAÇÃO NO TEMPO EM QUE VIVERAM OS NOSSOS PAIS E AVÓS

Os ricos continuavam a ir à mercearia… Para os pobres há racionamento…
…Vive-se em barracas, sem qualquer condição de habitação…
…O nosso velho Bairro das Furnas, é inaugurado a 28 de Maio de 1946, os menos “distraídos” sabem o porquê da data…
…A selecção das famílias tem que ter um certo nível económico e moral…
…Em caso de escândalo público procede-se à expulsão dos elementos nocivos…

Entre 1933 e 1974, sabemos ter sido o período da vigência do chamado Estado Novo. Regime político autoritário, conservador, nacionalista e corporativista que, direi, numa só palavra, fascista! Fundado por Salazar com a constituição do ano de 1933. Após a sua morte, em 1968, foi seu discípulo, Marcelo Caetano.
É importante que se saiba que, neste período negro, foi recusada aos portugueses a soberania popular, apenas se discutiam as propostas de lei do Governo. Impedia-se a realização de eleições livres. O objectivo era preservar a existência de um único partido, a União Nacional, cujo presidente era o ditador.
Os sindicatos são constituídos de cariz profissional e, controlados pelo Estado. As greves e as manifestações são proibidas. A imprensa escrita e falada eram censuradas, assim como; os espectáculos, o cinema, as artes plásticas, a música, os livros, etc.

Os racionamentos dos bens alimentares de 1ª necessidade, foram acções propositadas, para abastecer os aliados fascistas (Hitler, Franco, Mussolini, entre outros), obrigando o povo português a viver na maior das misérias. …Os ricos continuavam a ir à mercearia, porque podem pagar os preços altíssimos praticados. Para os pobres há racionamento, cada pessoa tem direito a quantidades exíguas de azeite, banha, arroz, açúcar, bacalhau ou batatas…
Do livro Os Anos de Salazar (5)

A igreja e o regime caminhavam lado a lado, sustentando a trilogia defendida pelo governo “Deus, Pátria, Família”.
As lutas por melhores condições de vida, dos operários e outros trabalhadores, desenvolvem-se. São presos às centenas por todo o país.
A partir de 14 de Setembro de 1936, quem quisesse trabalhar na função pública, tinha que assinar uma declaração de “repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas”. Do Livro os Anos de Salazar (4).
Por temor, ou com o receio de represálias, muitos aceitaram, outros, aos milhares, recusaram com dignidade e coragem.

O descontentamento da população, por via do desemprego e da repressão continuava a muito. Vive-se nas piores condições de vida, com fome, sem assistência médica, sem dinheiro, com os bens de 1ª necessidade racionados por todo o país.

O Governo, no intuito de “abrilhantar” o regime e, procurar “calar” o desagrado dos operários, dos desempregados e, também uma grande franja de funcionários públicos, sobretudo nas grandes cidades, (por exemplo, Lisboa e Porto), a viverem em barracas, sem quaisquer condições de habitação, desenvolve um vasto programa de obras públicas, nomeadamente; hospitais, cadeias, tribunais, escolas, novas rodovias, etc., criando algum emprego, mas mesmo assim, obrigando, com as empresas contratadas, a praticar uma política salarial que, não alterasse o nível de vida pobre, ou seja: na defesa de baixos salários.
É neste retrato, muito resumido do quadro político, económico e social que, os nossos pais e avós viveram.

REQUISITOS FAMILIARES PARA O INGRESSO NO NOSSO VELHO BAIRRO

Na época, e, em acordo com a mesma filosofia política, o nosso velho Bairro das Furnas, classificado, como outros já antes construídos, de “casas desmontáveis”, resulta de um plano da Câmara Municipal, financiado a fundo perdido pelo governo. Este plano veio a concretizar, algum realojamento da população citadina, a habitar em barracas, onde proliferavam muitos funcionários públicos e, outros trabalhadores que, os novos empreendimentos desalojou.
Com pompa e circunstancia, é inaugurado a 28 de Maio de 1946, mas só começado a ser habitado 2 meses mais tarde, percebendo os menos “distraídos”, o porquê da data.

…Estes bairros (casas desmontáveis) permitem seleccionar as famílias que, depois, vão ocupar as casas de categoria superior…
…A selecção das famílias vai-se fazendo, à medida que, vão atravessando gradualmente os bairros, até atingirem um certo nível económico e moral, altura em que, estão aptas a ingressarem nos bairros de casa definitivas…
(do livro O Nosso Bairro)
A lei classificou o bairro, em termos do rendimento familiar, em 2º lugar.
Classificados em 1º lugar, de nível económico inferior, consagrou os Bairros da Quinta da Calçada e da Boavista.
Em 3º lugar, com rendimento familiar mais elevado, aparece o Bairro do Caramão de Ajuda. Mas, …Para as famílias habitarem no nosso velho Bairro, para além da “superioridade” do factor económico, foi acrescentado da “superioridade” do factor moral, assim:
 …Ser casado pelo menos pelo civil.
- Quer dar-se, a par do nível superior, a sua dignidade como casados, e como pais -

O CONTROLO DA ACÇÃO SOCIAL E A RONDA DOS “BUFOS”

Logo após a inauguração, visando a gestão, civil e administrativa, foi constituída, uma Comissão - Administrativa e de Acção Social – onde os legionários da Legião Portuguesa, os fiscais da P.S.P e, as assistentes sociais, tinham várias atribuições, não faltando o controlo do comportamento dos moradores.
Assim:

…Em caso de escândalo público, ou de desmoralização evidente, a assistente social pode propor à Comissão Administrativa, a saída daqueles membros que estão a fazer mal ao Bairro. A Comissão de acordo com o Centro (Social) procede, então, à expulsão desses elementos nocivos…
…Quando há necessidade, dos rapazes e raparigas, serem colocados em tutorias  reformatórios, ou casa de regeneração…a família é aconselhada interná-los, no Reformatório do Bom Pastor de S. José, em Viseu.
…Quando são elementos que podem prejudicar a moralidade dos outros habitantes, não devem residir mais ali (no Bairro) e são convidados a sair…
(do Livro O Nosso Bairro)

A privacidade era obrigatoriamente exposta. Para além do factor económico estavam sujeitos a informar, para registo, a sua vida social, moral e religiosa.

Continuando:
Era sabido que, quando havia suspeitas de não terem sido observadas, por moradores, as regras instituídas, não se podia vetar a entrada do vigilante nas casas.

Entre outras, havia as seguintes regras:
 - Não haver colocadas mais torneiras de água, para além das permitidas (chaminé, casa de banho e chuveiro), porque, pressupunha-se, se houvesse mais torneiras, haveria mais gastos de água.
- Com a energia eléctrica  para não exceder o consumo estipulado, não eram autorizadas quaisquer extensões da luz da sala de entrada, para as restantes divisões. Recomendava-se o uso do candeeiro a petróleo. Durante o dia, com a justificação: para evitar desleixo e abusos. A casa fica bem iluminada com a luz do sol entrando a jorras através das janelas (do livro O Nosso Bairro)
Referir, no caso da energia eléctrica  era fornecida no mesmo horário da iluminação pública e, a única lâmpada que havia era a da sala de entrada. Não podia ter uma voltagem superior a 25W. Obviamente, as telefonias, quem as podia possuir, só podiam funcionar a pilhas.
– Sem a devida autorização da Comissão Administrativa, não era permitido receber nas casas (pernoitar) quaisquer pessoas que não fizessem parte do seu agregado familiar.
(do livro O Nosso Bairro)
– Não era permitido que os moradores possuíssem cães, gatos nas suas residências ou, criação de animais de capoeira, justificado por, para evitar maus cheiros, falta de limpeza e aglomeração de insectos, que tornava as habitações insalubres.
(do livro O Nosso Bairro)

Pobre sofre!
Abril, Sempre, Fascismo nunca mais!

Fotos:
1- Filas para aquisição das senhas de racionamento Arquivo particular Dr. M. Soares
2- Bairro das Minhocas Arquivo C.M.L.
3 – Fachada da entrada do Centro Social do Bº das Furnas do livro O Nosso Bairro 







domingo, 31 de março de 2013

sábado, 9 de março de 2013

HISTÓRIAS DO MEU VELHO BAIRRO DAS FURNAS (XXXV)


A NOITE FOI BOA, O DIA NEM TANTO!

Quis o acaso que, naquele sábado, me encontrasse na rua de maior movimento pedonal. A Rua das Tílias. Esta rua ficava na entrada do meu velho Bairro das Furnas. Dava ligação a muitas outras - das Oliveiras, das Faias, das Nogueiras; dos Salgueiros -. Tinha uma ligeira inclinação a partir do meio, onde, no seu primeiro cruzamento, floresciam um número considerado de bonitas piteiras.

O alinhamento das casas era do lado direito de quem a descia. À esquerda, acompanhava-a no primeiro lanço uma sebe, sustentando um gradeamento que, separava todo um aparato social; o Posto médico, o Jardim infantil e a Creche.

Na frente da casa com o nº 2, a limpar, com a ajuda de um trapo, as mãos carregadas de óleo, sorridente, dizia o meio oficial de mecânica auto;

…Está pronto Raul, está pronto…Já faz fumo…

Não era para menos, o carro, ora reparado, encontrava-se na frente da sua porta há cerca de uma semana e, o cliente certamente já o tinha reclamado.
Retribuindo o sorriso, dirigi-me ao Carlos Santana e, em jeito de interrogação questiono-o…e agora?
Agora? Agora, aparece a seguir ao jantar, vamos dar uma volta, retorquiu.

Mãe, vou dar uma volta com o Santana, não me demoro, vamos experimentar um carro que ele consertou.
Em traje de fim-de-semana, lá me apresento à chamada. Junto ao “Anglia Prefecta” de cor preta, já lá estava o Zé Manuel, o filho da Ti Julvira que, logo me afaga a cabeça, contente, por me ter por companhia.
Era o mais novo do trio, tinha 12 anos de idade. Os meus companheiros certamente mais 3/4 anos de idade.

Aventurados, já noite, o nosso condutor ainda “desencartado”, escolheu como trajecto, para “pista de experiência automobilista”, a marginal de Lisboa/Cascais.
O velho carro acompanhava um comboio. Provocado o maquinista com acenos, este respondeu ao desafio. As marchas foram aceleradas, nervosamente trocaram-se apitos e buzinadelas.
Nem o chapéu-de-chuva aberto dentro do carro, por via da chuva miudinha a entrar pelos buracões no tejadilho, obstara, em largas centenas de metros, tão divertida corrida.
Ao chegar à vila de Carcavelos alguém disse:

… E se fossemos ver do baile à Capricho Carcavelense…

Dito e feito, arrumado o carro, lá fomos dar o nosso pezinho de dança por umas quantas horas, mas um pouco antes de acabar a animação, não me recordo qual um dos meus companheiros (ou os dois) fez a seguinte comunicação: “Eh pá Raul! Agora, vamos entregar o carro, é longe e, ficamos por lá. É melhor regressares ao Bairro, tens comboio daqui a pouco”.

Já só os vi pelas costas. Fiquei na dúvida de tão misteriosa conversa. Quando saímos do Bairro, nada me foi dito em conformidade. Pensei, talvez…raparigas? No entanto não me moveu, o que, quer que fosse, para contrariar tal decisão.
 Na estação, vejo, por ser fim-de-semana, que os horários dos comboios eram mais espaçados.  
Esperei cerca de uma hora para a bilheteira abrir. Observo o dinheiro no bolso, só dava para permitir ter bilhete de passagem, até à estação de Belém. O horário do comboio a parar nesta estação, só por volta das 07 horas. Nada a fazer, outras alternativas não havia.

Quando cheguei à estação de Belém, tirei o “azimute” do caminho para casa; Subir a calçada da Ajuda, avançar na direcção aos 4 caminhos na serra do Monsanto, continuar o trajecto até prisão, situada bem no alto. Chegado aqui, para o Bairro, foi só descer a encosta. Já na entrada, o sol dava-me pelo joelho.

Foi a minha primeira noite (das muitas) fora de casa!
Quando abro a porta da entrada do “ninho”, vejo sentada, com os braços sobre a mesa, raladíssima e encolerizada minha mãe, que, de pronto me perguntou:

… Por onde tens andado? Até à polícia já fui…

A custo lá expliquei.
Não convencida, outro “baile” iniciou.
No entanto direi, mesmo depois de todas a vicissitudes, foi muito bela a minha primeira noite fora de casa.

Março 2013
Nota:
A 1 ª foto foi tirada, com a devida vénia, da página do Bairro das Furnas/Faceboock que, agradeço e, ajustada ao tamanho do texto.
A 2ª e 3ª foto perdidas no Google, sofreram alteração da autoria do autor deste texto

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

NA ALDEIA NÃO HAVIAM OLHOS AZUIS MAIS BONITOS

Posted by PicasaCABEÇO DE MONTACHIQUE
( Foi nesta linda aldeia que a minha mãe nasceu)

Descansando sobre montes verdejantes e de topografia irregular, encontramos a localidade de Cabeço de Montachique, sensivelmente perto da Cidade de Loures, no distrito de Lisboa.

De origens antigas, as primeiras alusões a este lugar surgem nos registos da Alfândega das Sete Casas (referenciada no decreto de 17 de Setembro de 1833). Contudo, a existência deste serviço já era conhecido no reinado de D. Manuel I, apontando-se o seu funcionamento no século XVI com “Ver o peso”, “Marçaria e Herdade”, “Sisa da Fruta”, “Portagem”, “Sisa da Carne”, “Sisa do Peixe” e “Terreiro”.

... Cabeço de Montachique era considerada uma estação subalterna, com a denominação de “Registo”, directamente dependente da Alfândega das Sete Casas. Esta foi extinta pelo decreto de 11 de Setembro de 1852 que, unindo-a ao Terreiro Público, formou a Alfândega Municipal.

No século XIX, e também nos inícios do século XX, esta povoação de génese rural disseminava-se pelos terrenos existentes e aráveis, de uma forma dispersa, onde se destacavam as Quintas, que concentravam a actividade agrícola.


O Cabeço de Montachique é uma pequena localidade dividida por dois concelhos (Mafra e Loures) e três freguesias (Fanhões e Lousa, no concelho de Loures, e o Milharado, no concelho de Mafra).


A localidade é definida pelos seus inúmeros Casais, Quintas, Moinhos e Outeiros, como por exemplo, o Outeiro das Pêgas, Casal de Santo António, Quinta do Choupo, Moinho Sarradas das Velhas, Quinta de S. Gião e o Casal do Andrade (embora este último fique fora da povoação, é aceite como parte integrante da localidade).


No topo da montanha, que lhe dá o nome, encontramos um «fragmento» de manto basáltico poupado pela erosão. É o ponto mais alto do concelho de Loures (408 metros) onde é possível observar, no seu topo, toda a região de Lisboa até Setúbal(Almada).


Na foto encontramos a obra inacabada do sanatório Grandella.


Bibliografia "Aldeias de Portugal" com a devina vénia o transcrevo